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Livrologia

by Miss X

Livrologia

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13
Jan18

Cada pessoa também deve ter o seu próprio número de páginas para o que precisa de viver

Paper & ClothImagem www.pinterest.pt

 

Contava Nabokov que um editor lhe disse ter cada escritor gravado em si o número de páginas que nunca ultrapassará num livro. O dele, pelos vistos, era o 385. Pensando na velha frase de Wilde que diz ser a vida que imita a arte e não o contrário, dá vontade de dizer que, na vida, existem os sprinters, que vivem como se vivessem na escrita de Tchekov, escritor de respiração curta, capaz de explicar a vida inteira de um ser humano em poucas páginas, e stayers que vivem como na escrita de Tolstoi, que escreve dezenas de páginas sobre um simples pormenor. Tomando como ponto de partida a duração, não faz sentido falar em escritores revolucionários ou conservadores. Não se é revolucionário ou conservador na literatura por se ser stayer ou sprinter. Na vida, porém, as coisas são diferentes. De acordo com uma lógica da duração, viver como se estivéssemos num romance de Tolstoi tem um sentido conservador, enquanto viver como num conto ou no teatro de Tchekov, revela um impulso para a mudança, viver sob o domínio do instante e da fugacidade. Enquanto Guerra e Paz parece nunca mais acabar, porque haverá sempre mais alguma coisa para dizer ou reflectir, Tchekov passa de um conto ou de um texto dramático para outro como uma rã de nenúfar em nenúfar.

 

Na vida, ser conservador é querer mudar apenas quando o que se vive já não pode ser salvo. É ver tudo como um livro que dura, em que haverá sempre mais uma frase, um parágrafo, um capítulo para escrever. É continuar a aceitar o que está vivo e respira, evitando-se apenas o que ficou moribundo e chegou ao fim. Cada pessoa também deve ter o seu próprio número de páginas para o que precisa de viver, independentemente dos anos que irá viver. Uns precisam de mais, outros precisam de menos. Porém, haverá ainda os que gostariam de viver como o Guerra e Paz só que não têm jeito para isso. Não é fácil ser conservador, tal como não é fácil escrever muito e menos ainda escrever bem. É muito mais fácil acordar de manhã com impulsos de mudança e puramente virado para a acção.

in Ponteiros Parados