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Livrologia

by Miss X

Livrologia

by Miss X

05
Nov17

Não é verdade que há muito te ouvia?

Não, a ninguém mais daria

o coração! É assim que a lei dura

do juízo supremo providencia;

e por vontade dos Céus: sou tua;

toda a minha vida foi a promessa

deste encontro fatal contigo;

Deus mandou-te a mim, com certeza o digo,

para me guardares até que a morte venha...

Já aparecias nos meus sonhos,

já me atormentavam os teus olhos,

já a tua voz era a secreta senha

para entrares na minha alma à espera,

sem nunca te ver já me eras querido.

Não, não era um sonho, era deveras!

Mas entraste pela porta reconheci-te

E, aturdida, com arrepios na pele,

febril, disse para mim: é ele!

Não é verdade que há muito te ouvia?

Que em silêncio me falavas à alma

quando ajudava os pobres, ou rezava

para mitigar a emoção aflita?

E naquela mesma ocasião

não serias tu, querida aparição,

o clarão fazendo do escuro dia,

caindo sobre a minha cabeceira?

Não eras tu, amor, à minha beira,

a dar-me a esperança sussurrada?

Quem és - o meu anjo-da-guarda

ou pérfido demónio tentador?

Resolve a minha inquieta incerteza.

Ou será nada? Só visão aparente

na alma inexperiente e sem defesa

e o destino seja muito diferente...

Não sei! Mas aos teus pés aqui deponho

a partir desta hora o meu destino,

em lágrimas à tua frente; e sonho

com a tua protecção, suplico...

Imagina-me: estou tão sozinha,

Ninguém aqui me compreende,

a mente esgotada como que definha

e vivo calada - é a morte lenta.

Espero-te: com um único olhar

ressuscita-me a esperança esvaída

ou, com censura, ai de mim!, merecida,

mata-me o sonho que ando a sonhar!

Aleksandr Pushkin-Eugénio Onéguin

Terceiro Capítulo

A Carta de Tatiana a Onéguin