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Livrologia

by Miss X

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21
Ago16

Fiódor Dostoiévski| Recordações da Casa dos Mortos

No prefácio deste livro Dostoievski alega que se baseou na vida de um outro prisioneiro que deixara, após a sua morte, "um caderno volumoso, coberto de letra fina, mas inacabado, abandonado, sem dúvida, pelo seu autor" com "notas acerca dos trabalhos forçados" que vivera.

Talvez para se defender da censura de outrora, mas é muito claro que Dostoiévski escreve o livro na primeira pessoa, levando-nos com ele naquele sofrimento atroz de clausura.

Este livro é para ser lido no Inverno, num dia chuvoso e triste e não, como eu o fiz erradamente, em dias felizes de sol e mar. A liberdade do mar não é compatível com as correntes, com a tristeza, com a clausura sufocante que este livro transmite.

Senti-me penosamente agrilhoada a este livro e, só hoje o finalizo, após tantos dias de palavras aprisionadas.

Senti como é não ter liberdade, sem, de facto, a perder.

Ser-me-ia impossível dizer-te o que aconteceu à minha alma, às minhas crenças, à minha inteligência e ao meu coração no decurso destes quatro anos. Levaria muito tempo a contar. Mas a permanente concentração em mim mesmo, que me permitiu fugir à amarga realidade, deu os seus frutos. Agora tenho exigências e esperanças em que nem sequer teria pensado.

Carta de 22 de Fevereiro de 1854, dirigida ao irmão

 

Mas a alma, o coração, o espírito, o que lá cresceu e amadureceu, e o que lá murchou, o que foi rejeitado juntamente com o joio, não se pode transmitir nem descrever num pedaço de papel.

Carta de 30 de Julho de 1854, dirigida ao irmão