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Livrologia

by Miss X

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20
Nov14

Isabel Allende|A Casa dos Espíritos

casa.jpgEm 1981, quando Isabel Allende soube que o seu avô se encontrava moribundo, começou a escrever uma carta de despedida para ele. A partir do momento em que as palavras começaram a ser derramadas, nada mais as conteve. Quando finalmente tomou fôlego, Allende deparou-se com 500 páginas manuscritas que se tornaram o seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos. 

História épica de três gerações da família Trueba e do seu envolvimento na revolução socialista chilena, onde o passado e o presente se entrelaçam para formar uma intriga brilhante de morte, ódio, ira e traição.
Desde a primeira frase, o primeiro virar de página, os leitores entram num mundo encantado de misticismo e magia que entra imediatamente em conflito com a tensão que emana da personagem de Esteban Trueba.
A extensa visão que Isabel Allende revela ter da história chilena do século XX, do caos do governo de Allende, do golpe militar que o destitui e da repressão subsequente, é inteligentemente representada através das provações e atribulações da família Trueba.
Apesar da personagem principal ser Esteban Trueba e todos os eventos girarem em torno dele, são as mulheres da família que efectivamente dominam. Três mulheres marcam toda uma narrativa, profundamente feminina, que combina de forma extraordinária narrações de primeira e terceira pessoas, mantendo-a viva e cativante. Clara, Blanca e Alba – nomes cujo significado intrínseco apontam a Luz como dominante – são mulheres fortes que lutam pelo que acreditam. Criticadas por uma sociedade conservadora pelas suas ideias revolucionárias, encontram sempre meio de ajudar os outros, defendendo secretamente os direitos das mulheres. Estas personagens representam algo mais que feminismo, representam a luta da Mulher e da Sociedade, tipicamente masculina, que permitiu e continua a permitir os direitos das mulheres.
É um facto que este romance se serve de paradoxos - que evoluem através das suas personagens para posições extremistas - para provocar peripécias e emoções, dignas de uma novela. Por vezes, a narrativa peca por excesso de melodrama: as peripécias são intermináveis e os incontáveis amores à primeira vista fazem com que o impacto de determinados eventos e revelações não possa ser devidamente apreciado pelo leitor. Neste aspecto, o romance clama urgentemente por uma alteração de ritmo e por mais introspecção, visto que a intriga se torna redundante.
As personagens, apesar de muito desenvolvidas e com uma profunda carga psicológica, esquivam-se dos estereótipos, mantendo uma ambiguidade que lhes confere características que se coadunam perfeitamente com o realismo mágico com que este livro está impregnado.
Aliás, Allende leva-nos a crer que é uma verdadeira ‘realista mágica’, no entanto muitos dos aspectos mágicos do livro estão esterilmente relacionados com Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquéz: não se verifica a mesma combinação vívida, a união do divino e do profano, o sentido da beleza arruinada que povoa a prosa de Marquéz. Em Allende verifica-se sim, um louvor e uma veneração ao escritor que se transforma numa imitação desajeitada. A voz da escritora é sufocada pela maestria de Marquéz e há demasiado das suas opiniões, descrições, sentimentos e personagens ecoando pelo livro. A estrutura de ambos e o poder descritivo são semelhantes, porém as personagens de Allende estão mais bem exploradas.
O facto da escritora ser sobrinha de Salvador Allende, possuir una técnica de escrita muito apurada, com um forte sentido estético e uma linguagem muito cinematográfica, influencia a escrita e torna-a muito pessoal, transformando-a numa das características marcantes do livro.
Os capítulos finais, baseados sem dúvida alguma, na experiência pessoal de Allende, sobre o golpe militar são os mais brilhantes e emocionantes, reflectindo a dor de toda uma geração de mulheres chilenas. Apenas nestas últimas páginas Allende altera o foco da sua narrativa, tornando-a mais equilibrada e consistente com a sua própria voz.
É o feminismo lírico que torna este romance excepcional, prestando tributo à Mulher chilena, em particular e, a todas as mulheres do mundo, em geral.
20
Nov14

Frustração ou um motor da criatividade?

writers-block.jpg

Ao longo de séculos, os escritores tiveram profissões que frequentemente nada tinham que ver com o gosto pela escrita, podendo apenas exercitar a pluma nos tempos livres. Mas não seriam essas experiências laborais de algum modo enriquecedoras para a literatura dos próprios? Ou seja: teria escrito Melville o famoso Moby Dick se não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, ou Dickens descrito tão magnificamente as crianças e os jovens da classe operária se não tivesse ele mesmo trabalhado numa fábrica logo aos seis anos de idade? Pessoa, já se sabe, era empregado num escritório bastante desinteressante, tal como Kafka era administrativo numa companhia de seguros; pode pensar-se que nada disto inspirava ambos, mas não teria sido o tédio destes lugares a desenvolver a veia criativa de ambos? Leio que Nabokov, quando se mudou para os EUA, era o curador de uma colecção de borboletas num museu universitário e que escreveu vários textos sobre borboletas e traças (a borboleta pode ser uma metáfora de Lolita, de resto). E Jack Kerouac lavou pratos – uma excelente iniciação para quem anda Pela Estrada Fora e tem de ganhar dinheiro rápido para alimentar os custos da viagem. Em suma, ter uma profissão «ao lado» será uma frustração ou um motor da criatividade?

Maria do Rosário Pedreira do blog horasextraordinarias.blogs.sapo.pt

15
Nov14

Haruki Murakami|Kafka à Beira-Mar

kafka.jpgMurakami, Murakami.

Nem sabes o quanto gosto de ti.

Cada livro que leio teu fico completamente rendida e sem palavras.

Um livro sobre a vida e todas aquelas viagens que precisamos de fazer, para aprendermos o que sempre soubémos e não quisémos reconhecer.

Ainda não tinha lido uma ode ao amor tão bonita quanto esta.