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Livrologia

Livrologia

19
Fev16

Bem diferente é a sorte do escritor que ousa remexer a vasa imunda das baixezas em que se afunda a nossa vida

Bem diferente √© a sorte do escritor que ousa remexer a vasa imunda das baixezas em que se afunda a nossa vida; que desce aos abismos das naturezas frias, mesquinhas, vulgares que a cada instante encontramos no decurso da nossa peregrina√ß√£o terrena, por vezes bem amarga e rude, e que em tra√ßos impiedosos sublinham o que os olhos indiferentes se recusam a ver. Tal escritor n√£o pode contar com os aplausos populares, as l√°grimas de reconhecimento, os √≠mpetos dum entusiasmo un√Ęnime; em nenhuma virgem de dezasseis anos os seus escritos conseguir√£o despertar uma paix√£o her√≥ica; n√£o ter√° t√£o pouco o prazer de se entusiasmar com as pr√≥prias palavras; enfim, n√£o evitar√° que o julgamento hip√≥crita e superficial dos seus contempor√Ęneos considere inferiores ou insignificantes ¬†as suas mais queridas cria√ß√Ķes, lhe atribua os v√≠cios dos seus her√≥is e lhe negue alma, esp√≠rito e a chama divina do g√©nio. Sim, porque esses contempor√Ęneos negam-se a admitir que as lentes atrav√©s das quais se espiam os movimentos dos insectos mais impercept√≠veis valem tanto como aquelas que permitem observar o Sol e os planetas; n√£o admitem tamb√©m que √© necess√°rio um grande poder de penetra√ß√£o e compreens√£o para iluminar um quadro arrancado √† vida abjecta e fazer dele uma obra-prima; enfim, n√£o admitem que uma gargalhada poderosa valha tanto como um belo movimento l√≠rico e que um abismo a separa do riso grotesco dos palha√ßos. Ao negarem estas verdades, os cr√≠ticos contempor√Ęneos p√Ķem a rid√≠culo os m√©ritos do escritor desconhecido que ficar√° sozinho no meio da estrada, sem que nenhum eco responda √† sua voz. Austera √© a sua carreira, amarga a sua solid√£o.

Nikolai Gogol-Almas Mortas

19
Fev16

Feliz também o escritor que não perde tempo com personagens medíocres

Feliz tamb√©m o escritor que n√£o perde tempo com personagens med√≠ocres, cuja banal realidade impressiona e entristece, e se consagra unicamente √† pintura das almas nobres, orgulho do g√©nero humano; que na sucess√£o das imagens que passam continuamente diante dos seus olhos, apenas escolhe as naturezas excepcionais; que jamais falseia o tom elevado da sua inspira√ß√£o nem desce ao n√≠vel dos humildes mortais, e pode planar sempre longe da terra, nas regi√Ķes do sublime. O seu destino magn√≠fico √© duplamente invej√°vel: encontra-se como em sua casa no meio desses seres de elei√ß√£o a ao mesmo tempo os ecos da sua gl√≥ria ressoam em todo o universo. Lisonjeia e encanta os homens encobrindo-lhes a realidade, dissimulando as taras do g√©nero humano, para lhes mostrar somente o que √© grande e belo. As multid√Ķes aplaudem-no, escoltam o seu carro de triunfo, proclaman-no o maior poeta entre os poetas, afirmam que o seu g√©nio voa mais alto que todos os outros g√©nios do mundo, tal como a √°guia plana acima de todas as aves da cria√ß√£o. As jovens de cora√ß√£o ardente perturbam-se ao ouvir o seu nome e l√°grimas de simpatia brilham em muitos olhos. Ningu√©m o iguala em poder, √© um Deus!

Nikolai Gogol-Almas Mortas

19
Fev16

Depois de lhe dar t√£o s√°bios conselhos, o pai separou-se do filho

-Escuta, Pavliucha, aprende bem as li√ß√Ķes, n√£o fa√ßas tolices nem travessuras; sobretudo, procura agradar aos teus mestres e aos teus superiores. Se assim procederes, mesmo que n√£o sejas um aluno brilhante, mesmo que Deus n√£o te tenha dotado com qualquer esp√©cie de talento, conseguir√°s triunfar, deixando todos os outros para tr√°s. N√£o te ligues demasiado aos teus camaradas: da√≠ pouco ou nenhum proveito te vir√°. Mas se tal acontecer, escolhe os mais ricos, para ao menos te poderem ser √ļteis quando deles precisares. N√£o convides ningu√©m, n√£o ofere√ßas nada; ao contr√°rio, coloca-te sempre na posi√ß√£o de te convidarem e de receberes ofertas. Enfim, economiza, n√£o gastes mal o dinheiro, lembra-te que o dinheiro √© o que h√° de mais importante na vida. Um camarada ou um amigo √© capaz de te abandonar se te suceder alguma desgra√ßa, mas o dinheiro, se o tiveres, nunca te abandona, aconte√ßa o que acontecer. Com dinheiro, tudo se consegue...

Nikolai Gogol-Almas Mortas

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