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Livrologia

Livrologia

25
Fev16

Ler é...

Ler √© observar as estrelas atrav√©s de um telesc√≥pio de papel. √Č observar quem por n√≥s n√£o passa, falar com quem n√£o nos responde e sentir tudo o que os outros, que n√£o existem, sentem.

Ler é um nada que se transforma em tudo.

x.jpgImagem www.pinterest.com

23
Fev16

Nikolai Gogol| Perseguido pelos seus próprios pensamentos

Enquanto observo as fotos antigas de Gogol decido imediatamente que n√£o gosto dele.

Apesar da sua genialidade como escritor, com a qual tenho de concordar, sinto-me desconfort√°vel perante o olhar deste homenzinho que me observa do outro lado dos tempos.

Li que Gogol sempre teve predisposi√ß√£o para o negativismo, para o pessimismo, para pensamentos depressivos, deixando-se abalar, em demasia, em compara√ß√£o com outros escritores seus conterr√Ęneos, pelas cr√≠ticas, deixando-o num estado nervoso de tal modo exacerbado que se reflectia fisicamente em¬†dist√ļrbios card√≠acos e crises respirat√≥rias. A sua constante era a ansiedade e o medo, como se se sentisse perseguido pelos seus pr√≥prios pensamentos.

Pergunto-me se ele seria neurótico. Se a sua genialidade terá derivado da concentração exasperada nos males da sociedade?

Pergunto-me como é que um homem assim consegue introduzir o humor na literatura de um país.

Talvez n√£o seja assim t√£o paradoxal, se atentarmos que o humor n√£o √© o oposto, mas um complemento do pessimismo que assim desagua em cinismo e¬†sarcasmo, sendo estes √ļltimos, n√£o os √ļnicos, mas parte do valor liter√°rio de Gogol.

Até na forma de morrer se revela ele mesmo.

Gogol não morreu, simplesmente deixou-se morrer, prostrando-se no seu leito, esperando a morte que se fez anunciar passados dez dias.

Mal sabe ele que nem na morte foi bem-sucedido, tornando-se assim imortal.

gogol_crop.jpg

Imagem theamericanreader.com

22
Fev16

Fiódor Dostoiévski| A inspiração

Quanto mais páginas devoro de Crime e Castigo, mais me convenço que Dostoiévski era não só um vanguardista, mas também um profeta.

Prefiro¬†pensar que n√£o teve nenhuma musa inspiradora e que a √ļnica inspira√ß√£o que teve foi a divina.

Porque palavras tão sublimes, quase sobrenaturais, não podem ser unicamente humanas.

19
Fev16

Bem diferente é a sorte do escritor que ousa remexer a vasa imunda das baixezas em que se afunda a nossa vida

Bem diferente √© a sorte do escritor que ousa remexer a vasa imunda das baixezas em que se afunda a nossa vida; que desce aos abismos das naturezas frias, mesquinhas, vulgares que a cada instante encontramos no decurso da nossa peregrina√ß√£o terrena, por vezes bem amarga e rude, e que em tra√ßos impiedosos sublinham o que os olhos indiferentes se recusam a ver. Tal escritor n√£o pode contar com os aplausos populares, as l√°grimas de reconhecimento, os √≠mpetos dum entusiasmo un√Ęnime; em nenhuma virgem de dezasseis anos os seus escritos conseguir√£o despertar uma paix√£o her√≥ica; n√£o ter√° t√£o pouco o prazer de se entusiasmar com as pr√≥prias palavras; enfim, n√£o evitar√° que o julgamento hip√≥crita e superficial dos seus contempor√Ęneos considere inferiores ou insignificantes ¬†as suas mais queridas cria√ß√Ķes, lhe atribua os v√≠cios dos seus her√≥is e lhe negue alma, esp√≠rito e a chama divina do g√©nio. Sim, porque esses contempor√Ęneos negam-se a admitir que as lentes atrav√©s das quais se espiam os movimentos dos insectos mais impercept√≠veis valem tanto como aquelas que permitem observar o Sol e os planetas; n√£o admitem tamb√©m que √© necess√°rio um grande poder de penetra√ß√£o e compreens√£o para iluminar um quadro arrancado √† vida abjecta e fazer dele uma obra-prima; enfim, n√£o admitem que uma gargalhada poderosa valha tanto como um belo movimento l√≠rico e que um abismo a separa do riso grotesco dos palha√ßos. Ao negarem estas verdades, os cr√≠ticos contempor√Ęneos p√Ķem a rid√≠culo os m√©ritos do escritor desconhecido que ficar√° sozinho no meio da estrada, sem que nenhum eco responda √† sua voz. Austera √© a sua carreira, amarga a sua solid√£o.

Nikolai Gogol-Almas Mortas

19
Fev16

Feliz também o escritor que não perde tempo com personagens medíocres

Feliz tamb√©m o escritor que n√£o perde tempo com personagens med√≠ocres, cuja banal realidade impressiona e entristece, e se consagra unicamente √† pintura das almas nobres, orgulho do g√©nero humano; que na sucess√£o das imagens que passam continuamente diante dos seus olhos, apenas escolhe as naturezas excepcionais; que jamais falseia o tom elevado da sua inspira√ß√£o nem desce ao n√≠vel dos humildes mortais, e pode planar sempre longe da terra, nas regi√Ķes do sublime. O seu destino magn√≠fico √© duplamente invej√°vel: encontra-se como em sua casa no meio desses seres de elei√ß√£o a ao mesmo tempo os ecos da sua gl√≥ria ressoam em todo o universo. Lisonjeia e encanta os homens encobrindo-lhes a realidade, dissimulando as taras do g√©nero humano, para lhes mostrar somente o que √© grande e belo. As multid√Ķes aplaudem-no, escoltam o seu carro de triunfo, proclaman-no o maior poeta entre os poetas, afirmam que o seu g√©nio voa mais alto que todos os outros g√©nios do mundo, tal como a √°guia plana acima de todas as aves da cria√ß√£o. As jovens de cora√ß√£o ardente perturbam-se ao ouvir o seu nome e l√°grimas de simpatia brilham em muitos olhos. Ningu√©m o iguala em poder, √© um Deus!

Nikolai Gogol-Almas Mortas

Quanto mais leio menos sei
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