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Livrologia

Livrologia

26
Jun16

Antes se diria que emanam de outro ser oculto no interior do doente

Pareceu-lhe ent√£o que qualquer coisa se abria de s√ļbito na sua frente, uma luz interior de extraordin√°ria claridade iluminou-lhe a alma. Talvez n√£o durasse mais de meio segundo, mas o pr√≠ncipe registou uma lembran√ßa n√≠tida e consciente do tom inicial do horr√≠vel grito que se lhe escapou do peito e que todas as suas for√ßas teriam sido insuficientes para reprimir. Em seguida, a consci√™ncia extingui-se-lhe instantaneamente e achou-se mergulhado no seio das trevas.

Estava com um ataque de epilepsia, o que j√° h√° muito tempo lhe n√£o sucedia. Sabe-se com que rapidez estes ataques se manifestam. Nesse momento, o rosto e sobretudo o olhar do paciente alteram-se de maneira t√£o r√°pida como incr√≠vel. Convuls√Ķes e movimentos espasm√≥dicos contraem-lhe todo o corpo e os tra√ßos fision√≥micos. Gemidos pavorosos, que n√£o √© poss√≠vel imaginar nem comparar a nada, saem-lhe do peito, nada t√™m de humano, √© dif√≠cil, sen√£o imposs√≠vel, supor, quando se ouvem, que s√£o exalados pelo infeliz. Antes se diria que emanam de outro ser oculto no interior do doente. √Č assim, pelo menos, que muitos definem a sua impress√£o. Numerosas pessoas afirmam que a vista do epil√©ptico durante a crise produz um intraduz√≠vel efeito de terror.

Fiódor Dostoiévski-O Idiota

26
Jun16

Fiódor Dostoiévski| O Príncipe Myshkin é Dostoiévski do outro lado do espelho?

Uma das mais notáveis personagens que sofre de epilepsia é o Príncipe Myshkin n'O Idiota.

Quase podemos arriscar dizer que é uma personagem autobiográfica, baseada na própria experiência de Dostoiévski com a epilepsia. Através do Príncipe Myshkin, Dostoiévski descreve de forma vívida o que se sente antes, durante e depois de um ataque, bem como a visão da sociedade perante a epilepsia.

O Príncipe Myshkin é socialmente ostracizado, em parte pela sua doença (a "doença dos idiotas") e, com esta personagem Dostoiévski contribuiu para acabar com o estigma desta doença..

O Idiota foi escrito entre 1867 e 1868, altura em que Dostoiévski atravessava problemas financeiros. Em fuga dos seus credores, viajando de cidade em cidade, pela Europa fora, esse foi um período da sua vida em que ocorreram os ataques de epilepsia mais severos, agravados quiçá, pelos problemas que atravessava.

Tradução livre do inglês de neurophilosophy.wordpress.com

26
Jun16

Fiódor Dostoiévski| A epilepsia

Desconhece-se quando √© que os ataques de epilepsia de Dostoi√©vski come√ßaram. Uns dizem que come√ßaram na inf√Ęncia, com o primeiro ataque aos nove anos, enquanto outros reiteram que come√ßaram j√° em adulto. Ali√°s, √© comumente aceite que os primeiros sinais de epilepsia surgiram ap√≥s ter recebido a not√≠cia da morte do pai.

Diz-se também que o próprio Dostoiévski confessara que os seus ataques começaram após aquela execução encenada, numa noite, já em pleno exílio na Sibéria.

O escritor transp√īs para a fic√ß√£o a experi√™ncia com a sua pr√≥pria doen√ßa, criando personagens com epilepsia, tais como o Pr√≠ncipe Myshkin n'O Idiota e Smerdyakov n'Os Irm√£os Karamazov.

26
Jun16

Rudyard Kipling| Para L√° da Cerca

Para Lá da Cerca deixa-nos uma marca de amor. Um amor de uma tal beleza grotesca que nos deixa no abismo entre o sentir e o não-sentir.

O t√≠tulo era uma express√£o utilizada para se referir a √°reas n√£o submetidas √† autoridade militar brit√Ęnica e, portanto, n√£o regida pela lei brit√Ęnica. Quem transpusesse esse limiar estaria desprotegido, como no amor sem lei, e sujeito a todos os perigos. Por maior que o amor seja, nem sempre o choque cultural o conseguir√° manter puro e indel√©vel, como o¬†prov√©rbio hindu:

O amor n√£o tem em conta a casta

nem o sono uma cama dura. Fui

em busca do amor e perdi-me.

E Kipling interpreta logo na primeira página este provérbio, como que deixando o aviso trágico do que se passará de seguida:

Haja o que houver, um homem deve manter-se fiel à sua casta, raça e credo. (...)

Esta é a história de um homem que, deliberadamente, ultrapassou os limites seguros da vida decente em sociedade, e pagou muito caro por isso.

Em primeiro lugar, sabia demais; e, em segundo, viu demais. Interessou-se demasiado pela vida nativa; mas nunca mais o voltar√° a fazer.

Conto inserido no livro Tr√™s Contos da √ćndia de Rudyard Kipling

26
Jun16

A mensagem dizia

Uma pulseira de vidro quebrada significa vi√ļva hindu em toda a √ćndia, pois, quando o marido morre, as pulseiras s√£o partidas nos pulsos da mulher. (...)

A flor de dhak pode querer dizer "desejo", "vem", "escreve" ou "perigo", consoante os outros objectos que a acompanhem.

Uma semente de cardamomo √© "ci√ļme", mas, quando qualquer coisa √© duplicada numa carta-objecto, perde o seu significado simb√≥lico e o seu n√ļmero indica simplesmente uma dada hora (...).

Viu (...) que a bhusa se referia ao monte de feno em que tinha tropeçado (...).

Portanto, a mensagem dizia: "Uma vi√ļva, no fosso onde h√° um monte de bhusa, deseja que venhas v√™-la √†s onze horas."

Para L√° da Cerca-Rudyard Kipling

26
Jun16

Uma inocente e ininteligível epístola amorosa

Na manhã seguinte, quando ia a caminho do trabalho, uma velha atirou um embrulho para dentro da sua charrete. O embrulho continha a metade de uma pulseira de vidro, uma flor de dhak vermelho-sangue, uma pitada  de bhusa ou feno e onze sementes de cardamomo.

Aquele embrulho era uma carta - não uma desajeitada carta comprometedora, mas uma inocente e ininteligível epístola amorosa.

Para L√° da Cerca-Rudyard Kipling

26
Jun16

Rudyard Kipling| A Casa da Desolação

Kipling passou os seus primeiros anos na √ćndia e recordou-os sempre como paradis√≠acos.

"A minha primeira impress√£o", escreveu na sua autobiografia, "√© a luz e a cor do amanhecer, os frutos dourados e purp√ļras ao n√≠vel do meu ombro".

No entanto, em 1871 os pais enviam-no para Inglaterra, em parte para evitar problemas de sa√ļde, e, por outro lado, para inici√°-lo na educa√ß√£o brit√Ęnica.

Em Inglaterra, ele e a irm√£ iriam viver os pr√≥ximos seis anos com a vi√ļva de um velho capit√£o da marinha chamado Holloway numa¬†pousada chamada¬†Lorne Lodge em¬†Southsea, nos sub√ļrbios de Portsmouth.

Kipling costumava chamar à pousada "Casa da Desolação", pelo tempo de horror, de crueldade e negligência às mãos de Mrs. Holloway.

kipling100.jpg

Lorne Lodge em Southsea

Imagem fabarticles.yolasite.com

26
Jun16

Que estranha obra aquele quadro de Holbein

¬ęEste homem deve sofrer horrivelmente.¬Ľ Pretende ¬ęamar olhando o quadro de Holbein¬Ľ, n√£o porque goste de olhar para ele, mas porque sente essa necessidade. Rogojine n√£o s√≥ tem uma alma apaixonada, tem tamb√©m um temperamento de lutador, quer a todo o custo reconquistar a f√© perdida. Sente agora essa necessidade e sofre por isso... Sim, acreditar em alguma coisa! Acreditar em algu√©m! Mas que estranha obra aquele quadro de Holbein!...

Fiódor Dostoiévski-O Idiota

26
Jun16

Olhando, um crente pode perder a fé

-Gosto de contemplar este quadro - murmurou Rogojine como se tivesse j√° esquecido a pergunta.

-Este quadro! - clamou o pr√≠ncipe, tomado de s√ļbita inspira√ß√£o. - Este quadro! Mas j√° reparaste que, olhando, um crente pode perder a f√©?

-Sim, perde-se a fé.

Fiódor Dostoiévski-O Idiota

christ.jpg

O Corpo de Cristo Morto no T√ļmulo-Hans Holbein, 1520-1522

Imagem www.pinterest.com

26
Jun16

Fiódor Dostoiévski| A literatura nas veias, clamando por ser libertada

Aos 16 anos, os pais decidem enviar Dostoiévski e o irmão para São Petersburgo para estudarem no Instituto de Engenharia Militar Nikolayev, forçando-os a abandonar os estudos académicos para seguirem carreiras militares.

Dostoiévski sempre detestou o Instituto de Engenharia Militar Nikolayev. Nunca se interessou por ciência, matemática ou engenharia militar, entregando toda a sua paixão ao desenho e à arquitectura. 

Como o amigo Konstantin Trutovsky dissera, "Nunca houvera um estudante em todo o instituto com menos interesse pela engenharia que Dostoiévski. Era desajeitado, o uniforme não lhe assentava nada bem e todos os outros acessórios militares pendiam como obstáculos na sua pessoa."

A personalidade e os interesses de Dostoiévski tornaram-no num intruso entre os 120 colegas estudantes.

Sempre demonstrou bravura e um forte sentido de justiça, protegendo os recém-chegados, adaptando-se aos professores, criticando a corrupção entre os oficiais e ajudando os agricultores pobres.

Apesar de solitário e vivendo no seu próprio mundo literário, era respeitado pelos colegas. A sua reclusão e o interesse na religião granjearam-lhe a alcunha de "Monge Photius".

Após a morte do pai, Dostoiévski continuou os seus estudos, passou nos exames e conseguiu o grau de cadete-engenheiro, o que lhe permitiu viver longe da academia.

Em 1843 Dostoi√©vski aceita uma posi√ß√£o de tenente-engenheiro, mas demite-se no ano seguinte para se consagrar √† literatura e, depois de tradu√ß√Ķes - Eug√©nia Grandet¬†de Balzac √© uma delas - publica o primeiro livro: Pobres Gentes.

dosto.jpgDostoiévski vestido com a sua farda militar de engenheiro

Imagem en.wikipedia.org 

26
Jun16

Fi√≥dor Dostoi√©vski| O pai e a sua √Ęncora de culpa

Em 1828, uma cena particularmente cruel entre os pais desencadeia nele a primeira crise epiléptica.

O pai, médico pobre e desesperado, é um tirano, avaro e feroz, porque demasiadamente infeliz!

Compreendê-lo não impede odiá-lo.

¬ęQuem n√£o desejou a morte do seu pai?¬Ľ, escrever√° mais tarde Dostoi√©vski.

Ele próprio a deseja naquele dia e, onze anos depois, quando toma conhecimento de que mujiques exaltados assassinaram o velho beberrão, apercebe-se de que nunca deixou de a desejar. Outros a executaram, mas cem vezes em espírito foi ele quem vibrou o golpe; é portanto culpado!

Este remorso é tão importante para o desenvolvimento do pensamento de Dostoiévski, como para a epilepsia, à qual está posssivelmente ligado.

Alimenta o remorso como o seu complexo de inferioridade, a sua raiva por ser pobre, fraco e feio, o seu orgulho, a sua generosidade, o seu egoísmo.

Introdução de Jorge Sampaio n'O Idiota de Fiódor Dostoiévski

 dost-parents.jpg

Mikhail Andreevich Dostoevsky e Maria Ivanovna Dostoevskaya

Respectivamente pai e mãe de Dostoiévski

Imagem pages.stolaf.edu

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