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Livrologia

Livrologia

20
Ago16

Quer queira, quer não, é aqui que tenho de viver

Torturava-me uma ang√ļstia cada vez mais atroz.

¬ęA casa dos mortos¬Ľ, repetia para comigo, observando ao crep√ļsculo, da entrada da nossa caserna, os for√ßados vindos da corveia, que erravam, ociosos, pelo p√°tio e iam e vinham entre as camaratas e as cozinhas. Conforme as atitudes e os rostos, esfor√ßava-me por adivinhar os caracteres daqueles homens que passavam e tornavam a passar diante de mim de sobrolho franzido ou afectando uma alegria ruidosa.

(...)

¬ęAgora, √© este o meu ambiente, o meu mundo¬Ľ, pensava.

¬ęQuer queira, quer n√£o, √© aqui que tenho de viver.¬Ľ

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

A vida é impossível nas trevas

Sentia, adivinhava, que, naquele ambiente, sob todos os aspectos novo para mim, me encontrava completamente às escuras e que a vida é impossível nas trevas.

Tratava-se, pois, para mim, de me adaptar. Por isso, decidi agir francamente e deixar-me guiar pelos meus sentimentos íntimos e pela minha consciência, muito embora, como também não ignorava, isto não passasse ali de um aforismo e tivesse diante de mim a mais imprevista das experiências.

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

André Jorge, editor da Livros Cotovia, deixou-nos

André Jorge, editor da Livros Cotovia, deixou-nos hoje.

Era um dos homens mais importantes da edição em Portugal, cujos critérios nunca se vergaram a modas ou lógicas de lucro.

Os nossos leitores poderiam identificar esse princípio independente que ditava o lançamento de cada novo livro.

Não precisamos ir longe, basta lembrar que há pouco mais de um mês chegaram a Portugal dois livros de um autor brasileiro nunca antes cá lido, Marcelo Mirisola, literatura de choque, que dizia ter poucas hipóteses de vender.

Mesmo assim, trouxe c√° o autor, e celebrou a liberdade de editar o que sempre ‚Äúlhe deu na gana‚ÄĚ, como tamb√©m dizia.

Era um apaixonado por gatos, e hoje, a sua Maravilhas, a gata da livraria, est√° soturna como o dia.

in Facebook-Livros Cotovia

end.jpgImagem pt.pinterest.com

20
Ago16

A realidade tem tendência para a fragmentação contínua

Estou a esforçar-me por encaixar os nossos forçados em categorias, mas isso é tarefa impossível.

A realidade √© infinitamente diversa, esquiva-se √†s engenhosas dedu√ß√Ķes do pensamento abstracto e n√£o se submete a nenhuma classifica√ß√£o estreita e precisa.

A realidade tem tendência para a fragmentação contínua, para a variedade infinita.

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

Nenhum homem pode viver sem um objectivo

Nenhum homem pode viver sem um objectivo, que se esfor√ßa por alcan√ßar. Se j√° n√£o tem objectivo nem esperan√ßa, a ang√ļstia transforma-o num monstro...

O nosso objectivo, o objectivo de nós todos, era a libertação, a saída do presídio...

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

Desabafar n√£o era moda

Tenho, no entanto, a certeza de que os mais encarniçados eram precisamente aqueles que acalentavam os sonhos mais insensatos.

Já disse que os indivíduos sinceros e os simples de espírito eram tidos por sinistros imbecis, que só mereciam desprezo.

Eram todos tão amargurados, tão susceptíveis, que não podiam deixar de odiar qualquer pobre diabo desprovido de amor-próprio.

Tirando os poucos tagarelas ingénuos e sem malícia, os restantes forçados, isto é, os taciturnos, fechados em si mesmos, dividiam-se em duas categorias distintas: os bons e os maus, os tristes e os alegres.

Os tristes e os maus constitu√≠am, sem d√ļvida, a maioria. Se, por acaso, se encontrava entre eles algum possuidor de natureza expansiva, tratava-se sempre de um maldizente inveterado ou de um invejoso.

(...)

Desabafar não era moda. Os bons - muito poucos - tinham aspecto pacífico. Dissimulavam bem as suas esperanças e, bem entendido, tinham pelo sonho uma pecha ainda mais forte do que os maus.

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

O fantasma da liberdade

A Primavera também exerceu os seus efeitos sobre mim.

Revejo-me a espiar avidamente o mundo exterior, pelas fendas da paliçada. De pé, com a cabeça apoiada a um poste, contemplava, com uma obstinação insaciável, a erva que reverdecia ao longo da vala circundante e o céu distante, cada vez mais azul.

A minha inquieta√ß√£o e a minha ang√ļstia aumentavam dia-a-dia e a pris√£o transformava-se num verdadeiro inferno. O √≥dio que a minha qualidade de nobre me granjeara, da parte dos for√ßados, nos primeiros anos de reclus√£o, envenenava-me a vida e eu n√£o a podia suportar.

Por isso pedia muitas vezes baixa ao hospital, sem verdadeira necessidade, apenas para me libertar temporariamente desse ódio teimoso e geral, que nada parecia capaz de apaziguar.

(...)

Assim, na Primavera, entrevisto o fantasma da liberdade, a alegria de toda a Natureza traduzia-se para mim numa tristeza e numa susceptibilidade ainda maiores.

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

Essa imensid√£o de ar livre que sararia a sua alma humilhada e prisioneira

Abril já começou e a Semana Santa aproxima-se.

Pouco a pouco, iniciam-se os trabalhos de Ver√£o.

O sol torna-se cada dia mais quente, mais luminoso, e o ar cheira a Primavera e perturba os nervos.

A chegada do bom tempo influencia até os homens agrilhoados, desperta neles desejos e ardores, uma tristeza nostálgica.

Pensa-se mais ardentemente na liberdade quando o sol brilha do que durante as borrascas do Inverno ou os dias chuvosos do Outono.

√Č facto comprovado entre os reclusos: um dia bonito e claro alegra-os, mas torna-os tamb√©m mais propensos √† impaci√™ncia e √† irrita√ß√£o. Verifiquei, realmente, que as querelas redobravam com a vinda da Primavera.

Havia mais barulho e mais gritos e as quest√Ķes eram mais frequentes, mas, ao mesmo tempo, a certa altura da corveia, surpreendia-se um olhar melanc√≥lico, obstinadamente fixo nas lonjuras azuis, na outra margem do Irtych, onde, numa extens√£o de mil e quinhentas verst√°s, se estendia o tapete incomensur√°vel das estepes quirguizes.

Bruscamente irrompia um grande suspiro do fundo do peito, como se o homem se sentisse puxado para essa imensid√£o de ar livre que sararia a sua alma humilhada e prisioneira.

Fi√≥dor Dostoi√©vski-Recorda√ß√Ķes da Casa dos Mortos

20
Ago16

Fiódor Dostoiévski| Vivendo com amarras

Quando Dostoiévski chega à "casa dos mortos" é classificado como um prisioneiro perigoso e, nestes casos, as mãos e os pés eram acorrentados.

O prisioneiro assim deveria viver durante toda a sua estadia na prisão, independentemente da sua duração.

Evening_-_Applying_handcuffs.PNGPintura de Aleksander Sochaczewski

A aplicação de correntes aos prisioneiros nos campos de trabalhos forçados da Sibéria.

en.wikipedia.org

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