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Livrologia

Livrologia

02
Ago18

A biblioteca tem histórias para encantar

Onze horas da manh√£ na aldeia da Atalaia, trinta e cinco graus no interior da biblioteca ambulante, de portas abertas ainda corre ar fresco.

De certeza o √ļltimo suspiro da madrugada, uma lagartixa percorre o muro, de um lado para o outro, a sua pequena cabe√ßa n√£o para sossegada, talvez um qualquer buraco a fa√ßa parar.

O mini-mercado da Ilda tem freguesia e conversa para dar e vender.

A biblioteca tem histórias para encantar.

in Histórias à Beira-Rio

01
Ago18

Os livros e os papéis que vão para o lixo

Agora que ando com um grupo de amigos e volunt√°rios ‚Äúaos pap√©is‚ÄĚ, estou numa posi√ß√£o privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos v√£o parar.

 
Livros s√£o uma das coisas que nos nossos dias t√™m mais probabilidade de ir parar ao lixo. N√£o exagero, √© mesmo assim. As raz√Ķes s√£o cada vez mais habituais: despejos ou mudan√ßas de casa sob a press√£o das novas rendas e leis do inquilinato, e as novas casas por sua vez n√£o t√™m espa√ßo para os livros, div√≥rcios, falecimentos, e ‚Äúos meus filhos n√£o se interessam por isto‚ÄĚ. N√£o me cabe julgar, at√© porque estou consciente do drama que muitas vezes √© esta separa√ß√£o de algu√©m dos livros de uma vida.
 
Mesmo quando s√£o oferecidos a bibliotecas ou institui√ß√Ķes, a resposta habitual √© que n√£o os querem. Conhe√ßo muitas destas hist√≥rias e podem-se compreender algumas das raz√Ķes da recusa, e saber que, nalguns casos, n√£o existem mesmo condi√ß√Ķes para os receber ‚ÄĒ nem pessoal para os tratar, nem espa√ßo para os acolher, nem recursos para os conservar. Tudo isto √© verdade. Mas estes ‚Äún√£os‚ÄĚ s√£o tamb√©m favorecidos por uma concep√ß√£o ‚Äúmoderna‚ÄĚ do que √© uma biblioteca p√ļblica, com muita anima√ß√£o, Internet, jogos, m√ļsica e DVD, e com uma enorme dificuldade em p√īr as pessoas a ler livros. √Č um problema que transcende as bibliotecas, e que se relaciona com a dificuldade de manter, no mundo contempor√Ęneo de distrac√ß√Ķes e rapidez, actividades ‚Äúlentas‚ÄĚ e silenciosas como a leitura.N√£o √© uma quest√£o de ter qualquer fetichismo com os livros, mas a de registar uma clara desvaloriza√ß√£o do valor patrimonial das bibliotecas que explica a demasiada pressa, desleixo e pouco cuidado em responder que n√£o √†s ofertas, ou em encontrar alternativas que encaminhem os livros, em fun√ß√£o da sua natureza, para outros destinos e outras necessidades. E por isso ou v√£o de imediato para o lixo, ou ficam uns anos em caixas para depois irem tamb√©m para o lixo, para o bolor e para os bichos que os comem com mais vontade do que os humanos.¬†
 
Esta desvaloriza√ß√£o do car√°cter patrimonial das bibliotecas leva muitas vezes a consider√°-los um ‚Äúpeso morto‚ÄĚ que ningu√©m consulta. Tamb√©m n√£o tem de ser assim, porque h√° maneiras de dar vida ao ‚Äúmorto‚ÄĚ com vontade e imagina√ß√£o. Na verdade, as listas dos livros que nunca foram consultados, que alguns investigadores e bibliotec√°rios fizeram, principalmente fora de Portugal, e que jazem nas estantes h√° d√©cadas, sem nunca terem visto um olhar humano, s√£o particularmente interessantes. Tamb√©m n√£o me custa perceber que a mesma falta de imagina√ß√£o nas bibliotecas √© o espelho do conservadorismo e apatia nos temas de investiga√ß√£o nas universidades. Por exemplo, eu gostava de ler alguma investiga√ß√£o sobre a ‚Äúm√°‚ÄĚ poesia (em edi√ß√Ķes de autor, mas n√£o s√≥), que enche estantes sobre estantes, por que √© que √© ‚Äúm√°‚ÄĚ, por que √© que √© escrita, √© escrita por quem e quem √© que acha que deve gastar dinheiro a public√°-la. Suspeito que algumas respostas n√£o s√£o as que pensamos ser √≥bvias.
 
Agora que ando com um grupo de amigos e volunt√°rios ‚Äúaos pap√©is‚ÄĚ,¬†estou numa posi√ß√£o privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos v√£o parar. J√° se salvaram muitos e continuamos a faz√™-lo, mas tamb√©m j√° fomos buscar bibliotecas e arquivos literalmente ao lixo. E n√£o estamos a falar de pequenas bibliotecas, ou de livros de refugo, se √© que h√° disso. Estamos a falar de verdadeiras bibliotecas que n√£o s√£o ajuntamentos, e que cont√™m crit√©rios de selec√ß√£o e sinais da identidade de quem as fez, dedicat√≥rias, notas nos livros, coer√™ncia entre si. E, ainda mais grave, estamos a falar de arquivos e pap√©is √ļnicos, correspond√™ncia, manuscritos, etc., que, desaparecendo, fazem desaparecer com eles parte da nossa hist√≥ria. A micro, mas tamb√©m a macro. Por exemplo, o lixo diz-nos que est√£o a desaparecer arquivos e livros que pertenciam a antigos altos funcion√°rios coloniais, que est√£o a morrer e, com eles, parte da nossa hist√≥ria ‚Äúultramarina‚ÄĚ.
 
Voltaremos noutra altura aqui. 
 
Tudo isto vem a pretexto de um acontecimento desta semana. Avisados por um amigo de que estava ao ar livre num sucateiro informal, muito informal, num improvável local, uma grande pilha de livros, fomos lá ver e conseguimos falar com o homem que os recebeu, para fazer um favor a uma junta de freguesia que os despejou de uma camioneta como lixo. O seu valor para o nosso homem é o do papel, neste caso cerca de tonelada e meia.

Jos√© Pacheco Pereira in¬†P√ļblico

P√°g. 9/9

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