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Livrologia

Livrologia

31
Mar19

É intolerável o endeusamento afoito que constrange e tira a espontaneidade

Arthur Rackham - Illustration from Maid Male

@ www.pinterest.pt

 

O meu ideal absurdo de luxo seria ter uma espécie de governanta-secretária que tomasse conta de toda a minha vida externa, inclusive indo por mim a certas festas.

Que ao mesmo tempo me adorasse - mas eu exigiria ainda por cima que me adorasse com discrição, é intolerável o endeusamento afoito que constrange e tira a espontaneidade, e não nos dá o direito de ter os defeitos natos e adquiridos nos quais tão ciosamente nos apoiamos - nossos defeitos também servem de muletas, não só as nossas qualidades.

 

in  Ideal Burguês

A Descoberta do Mundo (Crónicas) - Clarice Lispector

30
Mar19

Sophia de Mello Breyner Andresen | Geografia

Senti Sophia diferente quando li Geografia.

Não sei se pelos poemas sobre a Grécia derivados da sua viagem ao paísem 1963, se dos poemas interventivos, se da sua arte poética, descrita em algumas das páginas deste livro, encontrei uma Sophia menos etérea e mais presente:

 

Trata-se de um livro cujo carisma de perfeição tenho vindo a confirmar renovadamente através de sucessivas releituras ao longo de várias décadas: livro onde não encontro somente alguns dos momentos mais altos da obra da autora, porque nele se encontram alguns dos momentos mais extraordinários de toda a história da poesia em língua portuguesa.

Digo mais: "Geografia" contém enunciados poéticos que disputam com famosos versos de Virgílio, de Racine e de Keats a palma do verso mais belo da literatura universal.

-Frederico Lourenço

30
Mar19

Manuel Bandeira, o poeta de Sophia e Clarice

Untitled.pngEnquanto lia Geografia parei subitamente nestes versos com sabor a água de coco e chinelo no pé:

Gosto de ouvir o português do Brasil

Onde as palavras recuperam sua substância total

Concretas como frutos nítidas como pássaros

 

Umas páginas adiante deparo-me com o poema Manuel Bandeira, a sua homenagem a este poeta brasileiro - nas leituras há também acasos -, com quem  Clarice Lispector trocava cartas.

A leitura de Clarice pede já poesia brasileira, poesia que pouco ou nada conheço e, que este acaso delicioso trouxe até mim.

Respeito os acasos, para mim sinais divinos, e decidi subjugar-me a este: vou ler Manuel Bandeira.

Clarice e Sophia deram-mo a conhecer, quase em simultâneo, e prometo que vou ler os seus poemas como Sophia o fez:

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa

Nos passeados campos da minha juventude

Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro

E foram parte do tempo respirado

30
Mar19

Arte Poética - II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria.

 

Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

 

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens.

 

Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

 

Geografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

30
Mar19

Arte Poética - I

Jamey Christoph, sunshine@ www.pinterest.pt

 

Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem à lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.

 

O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece.

Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante ao corpo de Orfeu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa.

 

Geografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

30
Mar19

Arte Poética - I

Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.

 

Geografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

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