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Livrologia

Livrologia

30
Mar19

Manuel Bandeira, o poeta de Sophia e Clarice

Untitled.pngEnquanto lia Geografia parei subitamente nestes versos com sabor a água de coco e chinelo no pé:

Gosto de ouvir o português do Brasil

Onde as palavras recuperam sua substância total

Concretas como frutos nítidas como pássaros

 

Umas páginas adiante deparo-me com o poema Manuel Bandeira, a sua homenagem a este poeta brasileiro - nas leituras há também acasos -, com quem  Clarice Lispector trocava cartas.

A leitura de Clarice pede já poesia brasileira, poesia que pouco ou nada conheço e, que este acaso delicioso trouxe até mim.

Respeito os acasos, para mim sinais divinos, e decidi subjugar-me a este: vou ler Manuel Bandeira.

Clarice e Sophia deram-mo a conhecer, quase em simultâneo, e prometo que vou ler os seus poemas como Sophia o fez:

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa

Nos passeados campos da minha juventude

Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro

E foram parte do tempo respirado

30
Mar19

Arte Poética - II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria.

 

Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

 

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens.

 

Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

 

Geografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

30
Mar19

Arte Poética - I

Jamey Christoph, sunshine@ www.pinterest.pt

 

Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem à lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.

 

O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece.

Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante ao corpo de Orfeu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa.

 

Geografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

30
Mar19

Arte Poética - I

Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.

 

Geografia - Sophia de Mello Breyner Andresen

29
Mar19

Eu queria te dar pão para a tua fome mas tu querias ouro

Às vezes me vêm frases completas, resultado retardado de pensamentos anteriores. São misteriosas essas frases porque, ao virem, não se ligam mais a nenhuma fonte. Por exemplo, a frase seguinte chegou-me e poderia ter sido dita por tantas pessoas infelizes:

«Eu queria te dar pão para a tua fome mas tu querias ouro. No entanto tua fome é grande como a tua alma que apequenaste à altura do outro.»

 

in  Frase Misteriosa, Sonho Estranho 

A Descoberta do Mundo (Crónicas) - Clarice Lispector

29
Mar19

Clarice é a voz não silenciada e não silenciosa de todas nós

logo.jpgClarice foi sempre uma mulher misteriosa, não só pela sua privacidade que sempre fez questão de proteger dos olhares mais curiosos, mas também pela ditadura que a impedia de escrever o que queria.

 

O mistério que a envolve vem não só da sua personalidade fascinante, mas também de escrever profundamente sobre a condição feminina - tema recorrente da sua escrita - numa época marcadamente masculina, patriarcal e ditatorial.

 

Clarice não tendo sido declaradamente feminista - creio que até recusaria este epíteto - revolucionou a mudez da mulher, como forma de vida.

 

Perante a dor, a alegria, a emoção, a mulher tem de permanecer muda, como se lhe fosse exigida uma contenção de um histerismo inexistente, quando é a sensibilidade que se expressa. É sufocante não ser escutada, e o silêncio de quem não ouve é também mudez.

 

E Clarice é a voz não silenciada e não silenciosa de todas nós.

Ela sabe quem somos.

2019 foi o ano que escolhi para ler Sophia de Mello Breyner
Visitem o mundo encantado de Sophia
Em 2021 irei ler Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos Pássaros está aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog não adopta o novo Acordo Ortográfico.

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