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Livrologia

Livrologia

29
Mai19

Canção do Deserto

Pelo horizonte de areias,

reclina-se a voz do canto.

A moça diz, muito longe:

¬ęEu sou a rosa do campo...¬Ľ

 

O beduíno pára e escuta,

vestido de pensamento,

sozinho, entre as margens de ouro

do ar e do deserto imenso.

 

¬ęEu sou a rosa do campo...¬Ľ

E olhando para as ovelhas

sente o ch√£o verde e macio

e flores pelas areias.

 

¬ęEu sou a rosa do campo...¬Ľ

Mas tudo o que ouve e est√° vendo

é poeira, apenas, que voa:

o vento da voz ao vento...

in Inéditos

Antologia Poética - Cecília Meireles

28
Mai19

Deus respondia, no passado, mas n√£o responde, no presente

41108ef2b09036a421d5e1623e2aeccc.jpg@ www.pinterest.pt

 

Entre vozes contraditórias,

chama-se Deus omnipotente:

Deus respondia, no passado,

mas n√£o responde, no presente.

Por que esperança ou que cegueira

damos um passo para a frente?

Desarmados de corpo e de alma,

vivendo do que a dor consente,

sonhamos falar - n√£o falamos;

sonhamos sentir - ninguém sente;

sonhamos viver - mas o mundo

desaba inopinadamente.

 

in Metal Rosicler

Antologia Poética - Cecília Meireles

28
Mai19

Os dedos bordam movimentos delicados e pensativos

Os saris de seda reluzem

como curvos pav√Ķes altivos.

Nas narinas fulgem diamantes

em suaves perfis aquilinos.

Há longas tranças muito negras

e luar e lótus entre os cílios.

H√° pimenta, erva-doce e cravo,

crepitando em cada sorriso.

 

Os dedos bordam movimentos

delicados e pensativos,

como os cisnes em cima da √°gua

e, entre as flores, os passarinhos.

E quando alguém fala é tão doce

como o claro cantar dos rios,

numa sombra de cinamomo,

a√ßafr√£o, s√Ęndalo e col√≠rio.

 

(Mas quase n√£o se fala nada,

porque falar não é preciso.)

 

Tudo est√° coberto de aroma.

Em cada gesto existe um rito.

 

Excerto do poema Família Hindu

in Poemas escritos na √ćndia

Antologia Poética - Cecília Meireles

28
Mai19

Uma pergunta perfeitamente normal

Perguntava-me, há dias uma ex-aluna, se eu já tinha lido alguma coisa de Fiódor Dostoiévski.

Sendo uma pergunta perfeitamente normal, e sem deixar de acentuar o prazer de ver uma jovem de 19 anos considerar Dostoiévski um escritor fascinante, foi bastante estranho ter sido confrontado com a pergunta.

√Č como se um japon√™s, no seu pa√≠s, sabendo que sou portugu√™s, me perguntasse se conhe√ßo uma praia chamada Nazar√©. Ou um americano, na mesma situa√ß√£o, se conhe√ßo um bolo chamado pastel de nata.

A ler em Ponteiros Parados

27
Mai19

William Somerset Maugham| A paix√£o pelo teatro

theatre.png

Fila para o Teatro Plaza onde a peça de Somerset Maugham "A Carta" estava em exibição. 1930

Foto London Express/Getty Images

 

Maugham era um apaixonado pelo teatro, acima de tudo como espectador.

 

Nas minhas deambula√ß√Ķes pela sua biografia imagino-o a tornar-se dramaturgo apenas pelo privil√©gio de assistir a pe√ßas que a sua imagina√ß√£o gostaria de ver encenadas para si pr√≥prio.¬†Ali√°s, como dramaturgo ganhou esse raro privil√©gio de se tornar no primeiro espectador das suas pr√≥prias pe√ßas.

 

Adorava sentar-se numa cadeira, na escuridão da plateia ainda vazia, a assistir aos ensaios, sem interferir, em silêncio, a usufruir dos sussurros,  das idas e vindas, dos almoços apressados no restaurante da esquina onde confraternizava com algumas pessoas do elenco e do chá das quatro que a funcionária da sala lhe trazia pontualmente ao lugar onde estava sentado.

 

O √ļnico momento em que sentia a ansiedade a invadi-lo era na primeira noite de exibi√ß√£o.

Maugham sofria horrores:

I tried to go to my own first nights as though they were somebody else's, but even at that I found it a disagreeable experience...

Indeed I should never have gone to see my plays at all, on the first night or any other, if I had not thought it necessary to see the effect they had on the audience in order to learn how to write them.

27
Mai19

Pobreza

N√£o era inventado, sonhado,

mas vivo, existente,

imóvel testemunha.

 

Sua voz quase imperceptível

parecia cantar - parecia rezar

e apenas suplicava.

E tinha o mundo em seus olhos de opala.

 

Ninguém lhe dava nada.

N√£o o viam? N√£o podiam?

Passavam. Pass√°vamos.

Ele estava de m√£os postas

e, ao pedir, abençoava.

 

Era um homem t√£o antigo

que parecia imortal.

T√£o pobre

que parecia divino.

 

Excerto do poema Pobreza

in Poemas escritos na √ćndia

Antologia Poética - Cecília Meireles

27
Mai19

Cecília Meireles | Da terra, da água, do fogo e do ar

cecilia-meireles6.jpg@ juicysantos.com.br

 

Poeta da terra, do corpo das coisas, Cec√≠lia trabalha com a mat√©ria da natureza e da Hist√≥ria, reinventa o ch√£o de personagens c√©lebres e an√īnimos, fala de dentro dos lugares por onde passa, que s√£o muitos: de Montevid√©u a Karachi, de Nova York a Nova D√©lhi, de Jerusal√©m a Buenos Aires, pa√≠ses da Europa, ilhas do Atl√Ęntico. De tudo, Cec√≠lia inquire o tempo: dos homens e suas cidades, de seus parques, suas casas, seus portos, seus monumentos, suas ru√≠nas, suas flores. De tudo e de todos se fazendo pr√≥xima sendo alheia.

 

Poeta das √°guas, frequentemente. Do estado fluido da mem√≥ria e dos sonhos, das viagens contemplativas, da l√°grima melanc√≥lica, das navega√ß√Ķes no espa√ßo e no tempo, do mar na tradi√ß√£o da l√≠rica portuguesa. Poeta das √°guas no que elas t√™m de musical, origin√°rio, on√≠rico, ancestral, profundo ou especular. Cec√≠lia canta o Mississippi, o Tejo, o Nilo, o Ganges. Canta ‚Äúo caminho dos navegadores, juncado de saudades, prantos‚ÄĚ, o ‚Äúmarinheiro de mil tormentas‚ÄĚ, os barcos da Holanda, a chuva sobre os templos e as √°rvores, a chuva sobre o mar.

 

Poeta do fogo? N√£o de um fogo selvagem ou apote√≥tico ‚Äď embora em sua poesia o leitor encontre Roma ardendo ou os clar√Ķes da fogueira de Joana d‚ÄôArc ‚Äď, mas uma poeta de fogo lento, de uma intelig√™ncia paciente, solid√°ria, construtiva, interessada nas transforma√ß√Ķes de sua √©poca. √Č a parte revolucion√°ria de Cec√≠lia, ativa no movimento das reformas pedag√≥gicas na d√©cada de 1930, coordenadora da P√°gina de Educa√ß√£o no Di√°rio de Not√≠cias, pioneira na cria√ß√£o de uma biblioteca infantil (tr√™s anos depois extinta pelo Estado Novo), no Rio de Janeiro, em incans√°vel di√°logo com poetas de outras partes do mundo, como Rabindranath Tagore, Jules Supervielle, Gabriela Mistral. Esse fogo √© tamb√©m a parte solar de uma presen√ßa amiga entre seus pares, uma alegria convivial, uma energia empenhada no estudo das artes, do folclore, das l√≠nguas e das religi√Ķes.

 

Sobretudo, uma poeta do ar. Poeta dos ventos, do h√°bitat natural das ora√ß√Ķes, dos louvores e da palavra cantada, do esp√≠rito que se infunde nas coisas e as anima, da atmosfera de cada lugar visitado, do Oriente ou Ocidente. ‚ÄúPastora de nuvens‚ÄĚ, fugidia como seu pasto. Poeta do ar no que nele h√° de alento, sopro vital, press√°gio, movimento invis√≠vel acima das fronteiras, poeira suspensa no tempo, Eclesiastes. Cec√≠lia canta ‚Äúos ventos de agosto, levando tudo‚ÄĚ, a ‚Äúgente da n√©voa, apenas murmurada‚ÄĚ, a brisa que ‚Äúpenteia / a verde seda fina do arrozal‚ÄĚ, e se pergunta: ‚Äú‚Äď P√°ssaro que pelo ar deslizas, / que pensamentos s√£o os teus?‚ÄĚ..

 

Mariana Ianelli in Da terra, da √°gua, do fogo e do ar

@ cultura.estadao.com.br

27
Mai19

As leituras levam-me sempre por caminhos inesperados

 

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As leituras levam-me sempre por caminhos inesperados e, de vez em quando, deixo livros a meio. S√£o raros aqueles que n√£o li completamente, porque a eles sempre volto para os concluir e fechar a √ļltima p√°gina.

 

Um desses casos é The Secret Lives of Somerset Maugham de Selina Hastings que deixei a meio para perseguir Eliot, Duras, Clarice e Cecília. A biografia de Maugham, apesar de temporariamente esquecida, regressa pouco a pouco às minhas leituras.

Maugham não é e dificilmente será um dos meus autores favoritos, mas a vida dele agrada-me, por mais que não seja, por puro entretenimento. 

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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