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Livrologia

Livrologia

26
Jul19

Tinha passado a vida em busca de algo que não merecia ser encontrado

Era fácil imaginá-lo, apaixonado pelas teorias da igualdade e dos direitos humanos, a debater, a discutir, a lutar atrás das barricadas em Paris, a fugir à frente da cavalaria austríaca em Milão, preso aqui, exilado ali, de esperança sempre intacta erguendo bem alta essa palavra que parecia mágica, a palavra Liberdade; até que, por fim, vergado pela fome e pela doença, velho e sem outro meio de manter o corpo e a alma unos senão as lições que conseguia dar a alunos pobres, veio parar a esta cidadezinha aprumada, subjugada por uma tirania pessoal maior do que qualquer outra na Europa.

Talvez a sua taciturnidade escondesse um desprezo pela raça humana, que abandonara os grandes sonhos da sua juventude e chafurdava agora numa indiferença indolente; ou talvez estes trinta anos de revolução lhe tivessem ensinado que os homens não estão preparados para a liberdade e pensasse que tinha passado a vida em busca de algo que não merecia ser encontrado.

Servidão Humana-W. Somerset Maugham

25
Jul19

Leituras intermitentes e muito pouco disciplinadas

cafecomlivros.pngEste ano as minhas leituras têm sido intermitentes e muito pouco disciplinadas.

Propositadamente.
Em 2019 decidi que iria ser um ano de leitura mais espontânea, sem a rigidez de ciclos de leitura que muitas vezes me prendem a um só autor durante doze meses.
Autores que me apeteceram ler, li-os, só porque sim. Eliot, Duras, Lispector e Cecília Meireles, tão díspares, mas que têm sido um deleite nas minhas horas vagas.
E também Sophia de Mello Breyner Andresen, a única autora que consta de um ciclo de leitura.
Acompanhando o ano do seu centenário tenho estado a ler toda a sua obra ao longo do ano. Na Primavera li toda a sua poesia e até ao Inverno tenciono ler os contos infantis.
Não têm sido muitos os autores que li este ano, mas os poucos que li, li-os intensamente.
As minhas leituras clamam já por um pouco de descanso e, apesar de ir lendo nos bastidores do blog, as publicações no Livrologia vão tornar-se mais esparsas durante os próximos tempos de veraneio.

23
Jul19

É por ser uma nação democrática

Sabe, há duas coisas boas na vida: a liberdade de pensamento e a liberdade de acção.

Em França temos liberdade de acção: podemos fazer o que quisermos e ninguém se importa, mas temos de pensar como todos os outros.

Na Alemanha devemos fazer o que todos os outros fazem, mas podemos pensar como quisermos.

Ambas são coisas muito boas.

Pessoalmente, prefiro a liberdade de pensamento.

Mas em Inglaterra não temos nem uma nem outra: ficamos manietados pelas convenções. Não podemos pensar como nos apetece, agir como nos apetece.

É por ser uma nação democrática.

Servidão Humana-W. Somerset Maugham

22
Jul19

Não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer

con14.png

No meio literário diz-se que Servidão Humana terá sido a suprema obra-prima de Maugham, no entanto estou muito aquém de o confirmar. Muito longe ainda do âmago do livro para avaliar a sua suposta genialidade.
As primeiras páginas pareceram-me autobiográficas, apesar do escritor o ter negado sempre, alegando que muito do que escreveu neste livro foi apenas baseado nas suas experiências de vida. Não me convenceu, aliás não há coincidências:
Maugham ficou orfão muito cedo durante a sua meninice, vendo-se na contingência de ir viver com o seu tio em Whitstable, num ambiente absolutamente conservador e restritivo. As poucas diferenças que detectei entre este aspecto biográfico e este livro foi a mera mudança de nome do local para Blackstable, o que não deixa de ser irónico, atribuindo ao local a aura sombria e austera que sempre o repugnou.Outro pormenor que sempre atormentou Maugham e que dificultou a sua integração no ambiente escolar, foi a sua gaguez, que no livro transportou para a personagem atribuindo-lhe pé boto, incapacidade que viria a atormentá-lo durante toda a sua vida.

No que li até agora não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer.

21
Jul19

William Somerset Maugham| Como é que Maugham se tornou espião?

Como é que um escritor  se torna espião?

Maugham não planeou sê-lo.

De um encontro fortuito com o Major Wallinger a quem foi apresentado num acaso desencontrado, Maugham viria a trabalhar para os serviços secretos britânicos.

O facto de ser escritor era o disfarce perfeito para passar incólume enquanto viajava para outro país com a desculpa de estar a fazer um retiro para escrever.

A ideia de se tornar espião agradou-lhe. Mais do que esperaria.

Mestre da invisibilidade, Maugham nunca teve qualquer pudor em representar o papel que fosse necessário no contexto social onde se inserisse. Astuto, diria até sem escrúpulos, nem sempre olhava a meios para atingir os seus fins. Aliás, a vida dos outros sempre o fascinou e o facto de gostar mais de ouvir do que falar permitia-lhe ser um observador nato com um nível de percepção apurado.

Maugham não foi o único escritor recrutado pelos serviços secretos.

Os escritores eram valorizados pelas capacidades de observação e pelo detalhe com que reportavam as suas missões.

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