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Livrologia

Livrologia

31
Mai20

Gente que est√° em todo o lado, n√£o estando

bookinices_spring.png

O cor-de-rosa social está tão desbotado de tédio que me diverte mais este misto de  stand up comedy e Mr. Bean dos nossos políticos, que é gente que está em todo o lado, não estando. 

Antes de mais fiquei ofuscada com os cal√ß√Ķes do nosso presidente que davam todo um outro colorido √† sua nudez palradora, que raramente se cala, mesmo quando ningu√©m faz perguntas.

Mal tinha recuperado do trauma e dou de caras com o nosso primeiro a roer uma maçã ao lado da sua Eva em pleno pecado de desconfinamento, no areal capariquenho.

Declaro-me com todo o despudor trumpítica e quero também bloquear não o Twitter, mas políticos seminus que andam a poluir a beleza das praias deste país.

Quero abolir a democracia dos decretos à mostra, dos bronzeados eleitorais e dos mergulhos refrescantes na inconsistência ditatorial de regras confinadas a um sentido há muito perdido.

30
Mai20

A escola continua a fingir que ensina e os alunos a fingir que aprendem

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Foi inevit√°vel n√£o ouvir a troca de palavras entre alunos e professora, numa das poucas aulas s√≠ncronas que o meu filho teve ao longo destes meses de ensino √† dist√Ęncia.

O meu sarcasmo estava preparado para atacar esta hipocrisia que tem sido as aulas √† dist√Ęncia, mas o meu sarcasmo foi imediatamente aniquilado pela saudade que a professora confessou aos seus alunos, pelos conselhos que deu para o pr√≥ximo ano, pelas penas que sente por estarem assim distantes e pela adapta√ß√£o nem sempre perfeita dos conte√ļdos √†s circunst√Ęncias.

O meu sarcasmo pode continuar a atacar, mas apenas aqueles cujo amor pela educação não cabe nem no perto, nem no longe.

Porém, a oportunidade perfeita para a escola, como instituição, se reinventar tem sido descaradamente desperdiçada. Naufragada em burocracia e incapaz de se erguer das cinzas, sejam elas pandémicas ou todas as outras em que se encontra mergulhada, tem permanecido surda e muda perante os apelos dos educadores que a querem mudar e os anseios dos alunos que a querem diferente.

No reinventar-se é que está a inovação, mas como sempre, a escola continua a fingir que ensina e os alunos a fingir que aprendem.

29
Mai20

√Č o prazer que espreita na pr√°tica de cada uma das virtudes

Mas eu falo de prazer porque vejo que os homens o ambicionam e n√£o vejo que ambicionem a felicidade. √Č o prazer que espreita na pr√°tica de cada uma das virtudes. O homem age porque essas ac√ß√Ķes s√£o boas para ele e quando tamb√©m s√£o boas para outras pessoas passam a ser virtudes.

Se tem prazer em dar uma esmola é caridoso; se tem prazer em ajudar os outros é benevolente; se tem prazer em trabalhar em prol da sociedade é um filantropo; mas é para o seu próprio prazer que você dá dois pence a um pedinte assim como é para meu prazer privado que bebo mais um whisky com soda.

 

Servid√£o Humana-W. Somerset Maugham

29
Mai20

A minha m√£e tinha raz√£o

cafe3.pngNeste post o café não tem livros a adoçá-lo, mas memórias.

A minha mais forte e recorrente memória de leitura é a minha mãe constantemente a gritar da cozinha "pára de ler, rapariga, que isso faz-te mal".

Sorria sempre quando a ouvia dizer isto, porque era certo e sabido eu estar com um livro na m√£o.

Teimosamente insatisfeita, vinha pé ante pé, espreitar-me o sono para ter a certeza de que ele não era feito de páginas de insónia, mas de sonhos que voassem para longe daqueles livros feios e pesados que faziam tão mal à vista e aos quereres de uma mulher, que cada vez mais se afastava do matriarcado tradicional.

A minha mãe tinha razão. Ler fez-me mal, não só aos olhos, mas também à alma.

Tornei-me numa míope inconformista e, para mal dos meus pecados, maior o mal que um livro me provocasse, mais o queria ler, maior a descoberta de absurdo do mundo, mais o amor-ódio aos livros crescia.

O descaramento daquelas páginas de me lerem na face, o espanto pela ausência de sentido da existência.

Aos livros, odeio-os de tanto os amar.

28
Mai20

Desafio do Conto | Clariana

A Ana endereçou-me este belíssimo convite para escrever no seu Desafio do Conto e eu aceitei.

A Clariana fez-me companhia durante alguns dias e escrevemos as duas um pouco mais da sua história. Podem encontrá-la no final do conto a pastorear as minhas palavras.

Obrigada Ana pelo convite e por esta excelente ideia de um conto escrito a v√°rias m√£os.

clariana.jpeg

INTRODUÇÃO POR ANA DE DEUS

Era uma vez uma jovem mulher, de seu nome Clariana, que pastoreava gansos. Ela era o primeiro ser vivo que os gansos reconheciam, desde tenro ber√ßo, e eram lhe totalmente fi√©is. Aprendera com o av√ī todos os segredos desta mestria.

PRIMEIRA COLABORA√á√ÉO POR: AMOR L√ćQUIDO

Clariana era a mais velha de tr√™s irm√£os, todos eles filhos de Izabel e Jo√£o Bernardo. Uma fam√≠lia de origens humildes que ocupava os seus dias na tranquilidade do campo, entre a lavoura do trigo, da batata, e a agropecu√°ria. Izabel ocupava-se de todos os assuntos relacionados com a atividade econ√≥mica do que produziam, contando com a ajuda de Clariana no terreno, junto dos animais, e Juca, a forma carinhosa como o pai era tratado, debru√ßava-se sobre a contabilidade da fam√≠lia. Os g√©meos Tiago e Guilherme eram ainda pequenos, pelo que o seu maior contributo era a alegria constante que ofereciam √†quela herdade. Constru√≠da em 1950, tinha sido herdada pela filha do av√ī Eurico.¬†

COLABORAÇÃO DA BII YUE

A vida era pacata, a rotina de vida campestre pouco variava até um dia, que Clariana estava a alimentar os seus gansos e vê um vulto a esconder-se por entre as árvores. Com o coração a bater de medo, mas com a sua faceta corajosa a vir ao de cima, começa a caminhar devagar e numa tentativa de fazer barulho. O vento fazia com que as folhas batessem umas nas outras, os gansos grasnavam baixinho. O vulto parecia estático e Clariana tentava movimentar-se silenciosamente, sentia o suor frio a escorrer pela sua pele, o seu corpo tremia com o medo e adrenalina. Estava bastante perto do vulto quando os gansos começam a grasnar alto e entram em luta uns com os outros, com o susto ela manda um grito, olha na direção dos gansos e quando volta o seu olhar para as árvores não podia acreditar no que via.

COLABORA√á√ÉO DO JOS√Č DA X√É

Uma velha muito velha, baixa, de faces lavradas pelos anos e quiçá pelas demasiadas intempéries, olhava com curiosidade para a pastora. Nas mãos, magras e engelhadas, balançava um cajado preto da sujidade e assaz puído do uso.

Trajava uma roupa suja, aqui e ali deveras esfarrapada. O cabelo cinza encontrava-se escondido por debaixo de um len√ßo, tamb√©m ele vi√ļvo de cor e lavagens. No entanto os olhos pequenos e escuros permaneciam muito atentos ao que se passava em seu redor.

Entre o susto e o espanto Clariana encheu o peito de ar e enfrentou a anci√£:

- Quem é vossemecê?

A idosa pareceu querer sorrir, mas a √ļnica coisa que conseguiu mostrar foi uma boca desdentada. Aproximou-se e passou os dedos sujos pelo cabelo bonito da jovem. Depois pela face. Esta desviou-se para tr√°s alguns passos.

Curioso é que os gansos, sempre tão barulhentos, haviam-se silenciado por completo.

- Diga l√° quem √© vossemec√™? ‚Äď insistiu em tom perempt√≥rio, sem denunciar qualquer receio.

Novo sorriso da idosa que mais parecia um esgar‚Ķ Por fim endireitou-se, abriu os bra√ßos e aproximou-se novamente da mi√ļda, como se a quisesse envolver nos seus trapos rotos e nojentos.

 Disse então numa voz rouca e cavernosa:

COLABORA√á√ÉO DA Z√Č

- Como assim, quem sou eu?!... que raio de pergunta é essa Clariana?!...

- Vossemec√™ n√£o se fa√ßa de desentendida e diga-me quem √©, que eu j√° come√ßo a perder a paci√™ncia!!! ‚Äď disse, franzindo o sobrolho, em sinal de desagrado.

- Eu sou tu!... bem-vinda ao futuro! ‚Äď disse a velha, abrindo os bra√ßos na sua direc√ß√£o e soltando uma estridente gargalhada!

Clariana empalideceu, as pernas tremeram-lhe e caiu desamparada no ch√£o.

Os gansos, agitados, começaram a grasnar de forma intempestiva, gerando um ruído ensurdecedor que atraiu a atenção de quem passava.

Clariana sentiu uma mão macia a afagar-lhe o rosto, abriu os olhos lentamente e foi surpreendia pela imagem de um belo jovem ajoelhado a seu lado, que lhe perguntava:  - a menina está a ouvir-me?!...

Assustada, e sem perceber o que havia ocorrido, tentou levantar-se rapidamente mas a sua tentativa foi infrutífera… a cabeça pesava-lhe e parecia que tudo girava à sua volta…

O rapaz disse-lhe, com voz doce: - fique calma e n√£o tente levantar-se‚Ķ a menina caiu e perdeu os sentidos‚Ķ vamos lev√°-la ao hospital para fazer alguns exames e garantir que est√° tudo bem. Eu acompanho-a na ambul√Ęncia!

COLABORA√á√ÉO DA LU√ćSA DE SOUSA

Clariana n√£o queria acreditar na beleza do jovem rapaz. Louro, elegante, bem vestido e cheio de modos da cidade. Nunca tinha visto um rapaz t√£o bonito! E queria acompanh√°-la ao hospital!

- N√£o se preocupe, eu estou bem, foi s√≥ uma queda. Em vez de irmos ao hospital poder√≠amos ir ver como est√£o os meus gansos! Tenho a certeza que v√£o simpatizar consigo! ‚Äď disse Clariana.

O jovem rapaz concordou, pois achou a ideia maravilhosa. Como vivia na cidade, nunca tinha visto gansos. Esta seria uma oportunidade maravilhosa para escrever sobre animais de quinta na sua tese de mestrado.

Assim que se aproximaram da casa de Clariana, os gémeos vieram a correr abraçar a irmã. O jovem rapaz ficou encantado com a cumplicidade que reinava naquela família.

Izabel, assim que viu a filha a aproximar-se com o belo rapaz, pensou que seria um bom partido para "desencalhar" Clariana, e, amavelmente veio cumpriment√°-lo.

Juca, ao contr√°rio, n√£o gostou nada de ver a sua Clariana com um estranho, ainda mais um rapaz da cidade, que com certeza queria aproveitar-se da jovem do campo. Foi ao armaz√©m buscar a ca√ßadeira e saiu a disparar, ‚Äúque nem um louco‚ÄĚ, por todos os lados ‚Ķ

COLABORAÇÃO DA ISABEL

Alguns pardais, apanhados desprevenidos pelos tiros, desalvoraram pelos céus a pensar no que se teria passado.

 -Oh paizinho, pelo amor de Deus, este simpático rapaz ajudou-me depois de eu ter desmaiado e nem queiras saber porquê, ainda estou para saber se encontrei uma bruxa ou se alucinei.

 - Oh homem tem calma, não há razão para isso tudo, olha se tens acertado em alguém, tinhamos a vida desfeita - disse Izabel - E o senhor desculpe esta reação do meu marido, mas quando diz respeito à filha, perde as estribeiras.

 - Claro, compreendo. Já agora o meu nome é Rodrigo, Rodrigo Mendonça. Peço desculpa pela intromissão, mas assustei-me quando vi a sua filha desmaiada.

 - E tu filha, estás bem? Tens a certeza que não é preciso ir ao hospital?

 - Estou bem mãe, não passou de um susto. Convidei o Rodrigo para vir ver os gansos. Não fiz mal, pois não?

¬†- Claro que n√£o filha, e Rodrigo, o almo√ßo est√° quase pronto, gostaria de nos fazer companhia? √Č um agradecimento pelo que fez.

 - Bem, realmente não tenho pressa de seguir caminho, por isso, aceito com muito gosto.

Aí, João Bernardo viu-se na obrigação de pedir desculpas, que foram imediatamente aceites pelo jovem.

Mas foi quando...

COLABORAÇÃO DA OLGA CARDOSO PINTO

Rodrigo se virou, para ir acomodar-se à mesa, eis que Juca se apercebeu de algo a remexer-se sob a gabardina. E agora que reparara com mais pormenor, o rapaz caminhava de um jeito estranho. Tentou aproximar-se, mas Rodrigo acabara de se sentar, tinha perdido a oportunidade.

A tarde foi decorrendo num lento remanso, só se ouvia a passarada lá fora e a voz melodiosa de Rodrigo. Talvez fosse do tempo ameno ou da conversa desfiada, em tom relaxado e levemente sibilado pelo jovem, todos estavam a ficar ensonados. As pálpebras pesavam aos pais, não conseguiam evitar o bocejo constante. Porém, Clariana estava embevecida, sorvendo as palavras de Rodrigo que lhe pareciam mel, num encanto que a envolvia numa dormência irresistível. Juca e Izabel não resistiram e acabaram adormecendo de cabeças encostadas, em ligeiros roncos e desfalecidos, pesadamente recostados no banco arca da cozinha.

A noite caíra. O céu adornado pelo pontilhado brilhante das estrelas, refulgiu quando as nuvens revelaram uma imensa lua cheia. Clariana acordou sobressaltada, não sabia onde estava. Sentia frio. Olhando em volta levantou-se, perguntando assustada:
‚ÄĒ Onde‚Ķ Onde estou? ‚ÄĒ ouviu passos no cascalho e apercebeu-se que estava numa gruta ao ouvir o eco da sua voz.

COLABORAÇÃO DA SARIN

Um gemido respondeu ao eco ecoando quando Clariana se ergueu, os olhos procurando quem assim plangente. Não era gente mas a Noite, dorida da queda antecipada pela voz dourada de Rodrigo, Clariana amargando o mel que lhe escorrera nos ouvidos e tentando encontrar um norte ou um sul para aquele tão sem sol onde se encontrava. A Noite percebeu-a perdida e um sorriso iluminou-lhe os brancos dentes perfeitos na cara de lua cheia, o traje de lua nova esvoaçando no estender de mão daquela criança.

- Nada temas, Clariana, eras esperada. Mas n√£o te sabia t√£o perto e precipitei-me...
- Est√°s magoada?
- Estou, mas melhorarei, agora que tu aqui. Vem, adentremos a Gruta dos Tempos e ou√ßamos Eurico, o presb√≠tero que a habita. O Av√ī vai adorar receber-te!
A saudade em Clariana suspirou, cheia de penas.
- O meu Av√ī tamb√©m era Eurico. Foi quem me ensinou a amar os gansos e‚Ķ
E a Noite, impaciente, cortando:
- Sim, eu sei, o Av√ī j√° me contou. E por te saber t√£o boa aluna enviou o Ganso Rodrigo para te trazer‚Ķ o nosso Futuro precisa de tal arte!
Clariana olhou-a e percebeu nela um espelho, as semelhanças luzindo e as (...)

COLABORAÇÃO DO FILIPE VAZ CORREIA

As entrelaçadas rugas que uniam, uniriam naquele instante, memórias da velha bruxa de outrora, desta noite que ali a espera, da menina que ali se encontra.

No meio das d√ļvidas, das vozes, da luz trancada naquela gruta, algo maior se levantava, por entre o assobio do vento que parecia correr por aqueles t√ļneis, num rebuli√ßo constante e permanente.

- Para onde vais, Clariana? -Por que trilhos te leva este presente, futuro?

Palavras que ecoavam em sua mente.

No meio da estreita gruta, um lago profundo, repleto de cristais-de-rocha, num fumegar de √°guas t√£o azul como intenso.

Os sons dos Gansos que ali n√£o estando, pareciam se perpetuar...

- Clariana! Parecia a voz de seu av√ī.

-Av√īzinho? Questionava emocionada a jovem menina.

Do fundo daquele lago, daquele local especial, repleto de uma estranha e intrigante magia, algo parecia surgir...

Um suspirar intenso, imenso...

Cores e luzes misturadas com o agitar de √°guas...

Uma cabeça, um focinho, dois olhos desmesuradamente gigantes, num reflexo penetrante e asfixiante.

Um drag√£o...

- Quem sois vós?

 Clariana caiu com o tamanho susto, o medo que lhe tocara a alma.

- Quem sois vós? Insistia a pequena Clariana.

- N√£o tenhais medo! Expressava aquele Drag√£o chegando cada vez mais perto, da menina, o seu focinho.

Aquela voz...

- Av√ī?

COLABORAÇÃO DO TRIPTOFANO

- AV√Ē√Ē√Ē?!?!

Clariana ergueu-se da cama acordada pelo seu próprio grito, encharcada em suor.

Demorou alguns minutos para perceber onde se encontrava, no seu quarto no centro do Porto. A cabeça latejava e quase que ia jurar que tinha febre. Será que estava infectada com o Covid?

Enquanto bebia um s√īfrego gole de √°gua come√ßou a recordar as √ļltimas horas. A sa√≠da √† noite com as amigas, a insist√™ncia delas para experimentar um comprimido de LSD, a liberta√ß√£o do corpo ao som da m√ļsica e depois‚Ķum sonho mirabolante com grutas e drag√Ķes, velhas enrugadas e uma vida no campo a cuidar de gansos.

Logo ela, filha de médica e advogado perdida numa fantasia de agrobeta.

Clariana não conseguiu conter uma gargalhada de escárnio, que foi imediatamente interrompida por um ataque de tosse. Se calhar tinha mesmo apanhado o Covid!

Quando finalmente deixou de tossir sentiu que algo lhe tinha vindo parar à boca, uma coisa que lhe provocava pequenas cócegas nas bochechas. Cuidadosamente retirou o corpo estranho e incrédula deparou-se com uma pena de ganso, que não era da almofada.

Ser√° que o sonho n√£o tinha sido um sonho?

 

COLABORAÇÃO DA MARIA ARAÚJO

Rodrigo Mendonça voltou para a cama, não sem antes praguejar por ter que a fazer, de tão empolgados estavam os lençóis e o edredão.
Deitou-se. Às voltas na cama, e de tão cansado que estava, o sono parecia não querer nada consigo. Finalmente, chegou.
Acordou com uma ténue dor de cabeça, sentia-se cansado, mas não tanto como na véspera,tinha de se levantar,não podia adiar, queria voltar lá.
Espreguiçou-se, como de costume, o suficiente para sair da cama, tomar o duche, e o pequeno-almoço, tipo brunch, pois não tinha horas para o almoço, que era quando a fome apertava.
Abriu o frigorífico,não tinha nada de jeito. O que lhe acontecera no dia anterior, e aquele rosto lindo de Clariana, fizera-o esquecer de ir ao supermercado.
Saiu, passou no café perto de casa, pediu o costume, como quando não tinha nada em casa, ou tempo, para o fazer: salsichas com batatas fritas, ovo estrelado, um verdadeiro british breakfats, com umas boas fatias de pão ainda quentinhas, e um sumo de laranja, ou um chá, que o senhor Ernesto, o dono do café, preparava muito bem.
Devorou tudo com satisfação. Estava,agora, preparado para lá voltar. 
Queria fazer alguma coisa por aquela jovem pastora, de gansos...

 

COLABORAÇÃO DE MISS X

Os pensamentos de Clariana pastoreavam os gansos, guardando-os em palavras, que depois libertava em verdes ecos pelos montes assustados de tanto pensar. 

Num desses pensamentos imaginava o mar. Nunca o vira. Diziam que ia e vinha, brincando com os pés, fazendo-os rir de tanto frio e de tanto azul.

Da maresia surgia um b√ļzio que contava futuros de pertos e de longes.

Sussurrava-lhe ao ouvido: Clariana... Clariana... O seu nome perdido pelas intermitências da maresia. 

Era Rodrigo que a chamava num aceno despenteado, beijando o seu nome na dist√Ęncia.

- Clariana... Clariana... - a sua boca cheia de vogais doces e de consoantes cantadas em abraços que nunca mais chegavam.

Clariana guardava Rodrigo no seu rebanho, junto aos pensamentos que pastoreava.

Ela sabia que as pessoas já não conseguem viver dentro de pássaros. Não conseguem sair do chão. Mas Rodrigo vivia num pássaro que andava sempre nas nuvens e levava o coração dela nos seus voos. 

Ela deixava, mas ele n√£o sabia.

- Clariana... Clariana... - Rodrigo alcançou-a e deu-lhe a mão cheia de estrelas roubadas.

Talvez ele j√° soubesse.

P√°g. 1/9

2019 foi o ano que escolhi para ler Sophia de Mello Breyner
Visitem o mundo encantado de Sophia
Em 2021 irei ler Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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