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Livrologia

Livrologia

03
Out20

A insustent√°vel leveza dos livros

cat2.pngEste instante da minha estante √© especial e, por isso, mais longo que os pequenos instantes que geralmente partilho. Longo n√£o s√≥ em tempo, mas tamb√©m em dist√Ęncia.

Fui à Feira do Livro, mas este ano troquei Lisboa pelo Porto, num regresso às raízes, num mergulho muito aguardado nas páginas pelas quais tanto esperei abrir, ali presente, inteira, de pés no chão, em carne e osso.

A espontaneidade e o calor das gentes do norte - que s√£o tamb√©m os meus - que em mais nenhum lugar se encontra, enrolaram-se em mim num arrepio da falta que me fazem.¬†E a¬†pron√ļncia do norte, que saudade!

Os Jardins do Palácio de Cristal têm a magia de outras eras e perdemo-nos propositadamente pela sua geografia para nos reencontrarmos com o Douro.

S√£o jardins de encantar, com os fais√Ķes a caminharem ao nosso lado e o vento a dispersar as p√°ginas dos livros, ansiosos por um leitor que os leve.

Sei que os leitores est√£o felizes por se verem frente a frente com os seus livros, enfim reunidos, capa e m√£os, extasiados, e que achavam perdidos.

À medida que o tempo passava, mais insustentável o peso que me marcava o ombro pela quantidade de livros aos quais não resisti.

A hora do regresso chega.

E regressei.

Com livros, demasiados livros.

Como sempre.

02
Out20

Tomás de Mello Breyner, o médico da Casa Real

tomas.jpg@ www.geni.com

 

Um dos homens que mais marcaram o crescimento da poeta viria a ter, ele pr√≥prio, uma inf√Ęncia¬†peculiar.

Tomás Maria António d'Assis e de Borja de Mello Breyner nasce na madrugada de 2 de Setembro de 1866 na Rua da Costa do Castelo, n.o 42. Chegado depois da morte de dois irmãos num mesmo ano, vítimas de difteria, doença que no final do século XIX matava mais de metade dos contagiados (até ao aparecimento da vacina), é recebido como uma bênção.

Quando, aos tr√™s anos,¬†sofre de uma febre cerebral, os pais tornam-se excessivamente protectores. Preocupado em tirar o¬†m√°ximo partido de um futuro que podia n√£o ter chegado a acontecer, depois de resolvido esse¬†susto maior, o pai de Tom√°s decide que o menino teria falta de ¬ęmuito de comer e nenhuma¬†instru√ß√£o¬Ľ

Fica assim justificada uma vida sem obrigatoriedade de estudos e, mais importante, recheada de um convívio com acontecimentos de adultos nada comum para uma criança na época. Tomás seguirá os pais - que não o queriam perder de vista - para todo o lado. Tal incluía convívios com a realeza e brincadeiras com os príncipes D. Carlos e D. Afonso, de quem era amigo.

Certa vez, no¬†Pal√°cio da Ajuda, Tom√°s de Mello Breyner sofre com o gozo das crian√ßas mais aristocr√°ticas do¬†que ele, por aparecer com fato de carnaval de tecido menos nobre e n√£o usar col√≥nia. √Č a pr√≥pria¬†rainha D. Maria Pia que vem em seu socorro, encharcando-o no seu melhor perfume. Grato pelo¬†ref√ļgio real, Tom√°s registou mais tarde a mem√≥ria desse dia nos seus di√°rios. E, claro, nunca¬†deixaria de ser um mon√°rquico convicto.

Como a criança fosse, afinal, crescendo saudável, impunha-se a normalização da sua vida. Termina a primeira instrução apenas aos 14, mas em três anos em vez de cinco. Embora tendo entrado tarde na vida do jovem doente (que deixou de o ser), a escolaridade parece ter agradado ao filho protegido. Estuda Medicina, especializa-se em doenças venéreas e torna-se médico da casa real logo em 1893, responsabilidade que mantém até ao final da monarquia.

O mimo e as aten√ß√Ķes com que foi abonado durante a doen√ßa grave que o atingiu¬†fizeram dele um homem carinhoso e especialmente atento aos outros.

¬ęParticularmente √© o melhor dos rapazes. Possue a nobre e santa faculdade de se admirar¬†sinceramente, √© d'estes a quem um bello verso, uma figura elevada, uma ac√ß√£o grande fazem humedecer os olhos de ternura. No sentir tem a mais absoluta indiferen√ßa pelo pedantismo¬†triunfante, a mais rija indigna√ß√£o s√≥ lhe vem deante do ego√≠smo burguez. √Č uma esp√©cie de Flaubert¬†educado, tal como o descreveu o grande E√ßa.¬Ľ

Sousa Martins sobre o av√ī de Sophia, Tom√°s de
Mello Breyner, 1897


O av√ī de Sophia foi dos primeiros estudiosos de maleitas femininas numa √©poca em que a¬†sexualidade era ainda motivo de segrega√ß√£o e preconceitos, n√£o se apoquentando com o nome¬†pouco aristocrata da sua especialidade. Oficialmente das doen√ßas ven√©reas, o servi√ßo hospitalar¬†que organiza desde 20 de Mar√ßo de 1897 para v√≠timas de s√≠filis e de padecimentos sexualmente¬†transmiss√≠veis rapidamente se torna conhecido como consulta das ¬ęmol√©stias vergonhosas¬Ľ.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

02
Out20

Imagina estas coisas, Oriana

- No alto das montanhas dos Andes há cidades abandonadas, onde só vivem águias e serpentes disse outra andorinha.

- Que maravilha! Contem tudo - pediu Oriana.

- Não se pode contar tudo - responderam as andorinhas. - As maravilhas do mundo são tantas, tantas! Mas vem connosco, Oriana. Quando vier o outono nós partimos. Tu também tens duas asas. Vem connosco.

Mas Oriana olhou o vasto céu redondo e transparente, suspirou e respondeu:

- Não posso ir. Os homens, os animais e as plantas da floresta precisam de mim.

- Mas tu tens duas asas, Oriana. Podes voar por cima dos oceanos e das montanhas. Podes ir ao outro lado do Mundo. Há sempre mais e mais espaço. Imagina como seria bom se viesses. Podias voar muito alto, por cima das nuvens, ou podias voar rente ao mar azul, mergulhando a ponta dos teus pés na água fria das ondas. E podias voar por cima das florestas virgens e respirar o perfume das flores e dos frutos desconhecidos. Vias as cidades, os montes, os rios, os desertos e os oásis. No meio do Grande Oceano há ilhas pequeninas com praias de areia branca e fina. Ali, nas noites de luar, tudo fica azul, parado e prateado. Imagina estas coisas, Oriana.

A Fada Oriana - Sophia de Mello Breyner Andresen

01
Out20

As aventuras de Jan, o bisav√ī de Sophia

andresen2.png@ www.falandodevinhos.com

Abandonado pelo capitão na Ribeira ou fugitivo de um navio comandado por um dinamarquês a que a sua guelra adolescente não queria submeter-se, com apenas 14 anos, Jan vê-se apátrida, sem casa nem família, num país de língua estranha, costumes católicos e gentes de tez morena.

Com tanto de aventuroso, como de temerário. Nem por isso demora a encontrar aquilo que procurava ou aquilo que o destino lhe ofereceu para procurar -  trabalho e oportunidades de negócio.

Porque o¬†garoto fosse despachado, soubesse algum ingl√™s, com li√ß√Ķes estudadas enquanto trabalhava no¬†campo, ou atraentemente ex√≥tico nos seus olhos azuis e cabelos claros, rapidamente consegue o¬†apoio de um comerciante da Ribeira, que lhe d√° um primeiro trabalho como ajudante numa loja de¬†candeeiros na Rua de S√£o Jo√£o.

A venda em vários pontos da cidade abre-lhe as portas para outras mercancias entre as duas margens do rio Douro. O vai e vem de gentes e mercadorias num dos portos mais movimentados do país depressa lhe sussurra ideias altaneiras, logo permitindo a expansão do circuito até a Galiza e à Alemanha.

Inicialmente com laranjas de Set√ļbal e corti√ßa,¬†depois vinho e cereais, provavelmente o principal neg√≥cio nos primeiros tempos. Bastou um ano¬†para adquirir uma embarca√ß√£o √† vela, que lhe permitiu investir na aquisi√ß√£o de uma quinta na¬†R√©gua, para produzir os seus pr√≥prios vinhos do Douro." Dos armaz√©ns de vinho do Porto na Ribeira¬†de Gaia √† tanoaria e destilaria foi s√≥ mais um rasgo de empreendedor. Jan torna-se um homem de¬†neg√≥cios dedicado √† compra, venda e transporte de mercadorias entre a Europa e a Am√©rica,¬†abrindo uma firma em Manaus, no Brasil, que tornar√° mais √°gil a exporta√ß√£o de vinhos.

No outro lado do Atl√Ęntico dedica-se¬†ao com√©rcio de borracha e cria uma carreira a vapor no rio Amazonas. √Č assim que escassos¬†cinco anos depois de desembarcar no cais da Ribeira, e com apenas 19 anos, cria a Companhia de¬†Vinho do Porto Andresen, ainda hoje existente, embora h√° muito entregue a outros propriet√°rios.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

01
Out20

Os países distantes são maravilhosos

Enquanto esperava começou a conversar com as andorinhas:

- Os países distantes são maravilhosos - diziam as andorinhas.

- Contem, contem - pediu Oriana.

- O rei do Si√£o tem um¬†pal√°cio com um telhado de oiro e na China h√° torres de porcelana - disse uma andorinha. Na¬†Oce√Ęnia h√° ilhas de coral cobertas de relva e palmeiras. E nessas ilhas as pessoas vestem-se com¬†flores e s√£o todas bonitas, boas e felizes - disse outra andorinha.

- Os cangurus têm uma algibeira para guardar os filhos e o rei do Tibete sabe ler o pensamento de todos os homens - disse outra andorinha.

A Fada Oriana - Sophia de Mello Breyner Andresen

P√°g. 9/9

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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