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Livrologia

Livrologia

30
Set21

À margem de alguns poemas

21823340_Ku98b.pngJá aqui tinha referido como os prefácios e os posfácios de Sena me têm fascinado. São eles que me agarram pela mão e me levam pelas profundezas da intimidade do poeta. Mas Sena tinha também outro objectivo em mente e decidiu escrever notas explanatórias à margem de alguns poemas:

Essas notas - e desde sempre poetas se anotaram, nada h√° de novo ou estranho nisso - destinam-se n√£o a exibir cultura que ali√°s √© sabido que tenho, mas a ajudar o leitor menos informado (o que n√£o √© vergonha nenhuma, j√° que toda a gente de boa f√© √© sempre muito bem informada do que mais importa: a compreens√£o da liberdade, da justi√ßa e da dignidade humana, pelas quais sempre me bati em prose e em verso, como na vida, e essa compreens√£o √© chave que muitas vezes falta aos ¬ęsabidos¬Ľ que todo lo mandam).

29
Set21

Apenas o n√£o era

Viveu, morreu, entre colunas, homens,

prados e rios, sombras e colheitas,

e teatros e vindimas, como deusa.

Apenas o n√£o era;

Excerto do poema Cabecinha Romana de Milreu

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

28
Set21

Uma leitura verdadeiramente tridimensional

21962060_NYu4a.pngComecei  a ler os poemas de Metamorfoses e desde esse momento que vivo em pura arte.

N√£o a arte objectificada de um museu que vive em perman√™ncia expectante de ser observada, mas a arte que vive das imagens e reflex√Ķes que despertam. Nestes poemas a arte n√£o √© um objecto, mas pura humanidade, n√£o √© individual, mas o resultado da cria√ß√£o humana como reflex√£o do colectivo.

Cada poema corresponde a uma obra de arte real que Jorge de Sena indica no livro. Se um dia estivermos presencialmente perante a obra de arte escolhida por Sena, conseguiremos fazer uma leitura verdadeiramente tridimensional. At√© l√° podemos observar¬†as fotografias que o poeta decidiu colocar no livro, enquanto lemos o poema correspondente. √Č uma rara oportunidade de leitura com (quase) todos os sentidos.

27
Set21

Tão indispensável como ter um chapéu

Stephen Ark√°ditch n√£o escolhia tend√™ncias nem convic√ß√Ķes, j√° que essas tend√™ncias e convic√ß√Ķes lhe surgiam por si s√≥s, do mesmo modo que n√£o escolhia os modelos de chap√©u ou de sobrecasaca, optando por aqueles que se usavam. Ora, para ele, homem de sociedade necessitando de uma certa actividade intelectual, que se desenvolve por norma nos anos da maturidade, isso era t√£o indispens√°vel como ter um chap√©u.

Se havia uma razão para preferir a tendência liberal e não conservadora, que muitas pessoas do seu círculo também seguiam, não o fazia porque achasse a tendência liberal mais razoável, mas pelo facto de ela se coadunar mais com o seu modo de vida.

in Anna Karénina de Lev Tolstoi

26
Set21

A chegada de Anna Karénina à estação

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

Nas primeiras páginas do livro assistimos ao momento mais importante da história: a chegada de Anna à estação. Com ela tudo irá mudar, não só acontecimentos, mas também as expectativas de todos.

O mais interessante nesta chegada são as diferentes perspectivas de quem está à espera.

O seu irmão Stiva espera que Anna seja a emissária que irá salvar o seu casamento. Dolly, a sua cunhada, vê a sua visita como um stress acrescido na sua vida. Vronsky imagina-a uma mulher distante e aborrecida.

E quando finalmente Anna entrar em cena todas as expectativas de desvanecer√£o no ar, porque √© uma mulher que desafiar√° todas as opini√Ķes e conven√ß√Ķes.

25
Set21

Ele próprio se não conheceu nunca

Fita-nos, como o pintor pensou,

não como jamais fitou alguém.

Ele próprio se não conheceu nunca

nesse retrato que a família, que os amigos,

sempre acharam todos parecido.

 

Excerto do poema Retrato de um Desconhecido

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

24
Set21

Cujas m√£os s√£o tantas quantas as dores de que se veste o amor

800px-Enguerrand_Quarton,_La_Pietà_de_Villeneuve-

Pietà de Avignon, séc. XV, Museu do Louvre, Paris

A todo o instante,

aos olhos marejados ou ressecos,

que a geometria acesa sob as vestes

dos que estão vivos inda e as cabeças

de todos que j√° mortos ali vivem,

fitem com desespero ou com prazer das formas,

ninguém senão o morto, que se alonga rígido

e, ao mesmo tempo, desdobrado ao colo,

tem pés, naquele quadro cujas mãos são tantas

quantas as dores de que se veste o amor.

Uns pés que não caminham nunca mais

e que libertos se balouçam sobre

a terra glutinosa em que se alastram mantos.

Excerto do poema Pietà de Avignon

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

23
Set21

Os pontos de vista alteravam-se sozinhos

Stephen Arkáditch assinava e lia um jornal liberal, que não era de orientação radical mas daquela tendência que a maioria acatava. E, apesar de, no fundo, nem a ciência, nem a arte, nem a política lhe interessarem, partilhava com firmeza, em relação a elas, os pontos de vista da maioria e do seu jornal, mudando-os apenas quando a maioria os mudava, ou antes, não os mudava - os pontos de vista alteravam-se sozinhos, imperceptivelmente, na sua consciência.

in Anna Karénina de Lev Tolstoi

P√°g. 1/4

Quanto mais leio, menos sei

O autor português de 2021/2022 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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