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Livrologia

Livrologia

04
Out21

Que mundo ser√° o vosso

N√£o sei, meus filhos, que mundo ser√° o vosso.

√Č poss√≠vel, tudo √© poss√≠vel, que ele seja

aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,

onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém

de nada haver que n√£o seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto

o que vos interesse para viver. Tudo é possível,

ainda quando lutemos, como devemos lutar,

por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,

ou mais que qualquer delas uma fiel

dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade

n√£o tem conta o n√ļmero dos que pensaram assim,

amaram o seu semelhante no que ele tinha de √ļnico,

de insólito, de livre, de diferente,

e foram sacrificados, torturados, espancados,

e entregues hipocritamente à secular justiça,

para que os liquidasse ¬ęcom suma piedade e sem efus√£o de sangue¬Ľ.

 

Excerto do poema Carta a meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

03
Out21

O pouco

O pouco j√° contenta quem deseja tudo.

 

Excerto do poema¬†¬ęA Cadeira Amarela¬Ľ, de Van Gogh

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

03
Out21

Cam√Ķes, o poeta que mais amou e estudou

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H√° v√°rios poemas em que Jorge de Sena homenageia o poeta que mais amou e estudou, o modelo inspirador: Lu√≠s Vaz de Cam√Ķes.

Creio que se identificava com ele por ter sido tamb√©m um exilado. H√° poemas que o revelam como o¬†mon√≥logo dram√°tico ¬ęCam√Ķes¬†dirige-se aos seus contempor√Ęneos¬Ľ.

Sena quis resgatar Cam√Ķes¬†ao academismo e √† ¬ęadmira√ß√£o paral√≠tica¬Ľ e para isso estudou-o profundamente, publicando v√°rios estudos cr√≠ticos quer da sua obra l√≠rica, como tamb√©m da sua obra √©pica e dram√°tica.¬†O grande poeta da l√≠ngua portuguesa finalmente revelado na sua ess√™ncia.

03
Out21

Como um jardim

Como um jardim se emprenha de vol√ļpia,

torcendo-se nos ramos e nos gestos,

nos dedos que se afilam, e nas sombras!

Excerto do poema¬†¬ęO Balou√ßo¬Ľ, de Fragonard

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

02
Out21

O tempo que circula pelas veias

√Č muito velha. Velha, ou consumida

na serena ang√ļstia de aguardar que a vida

vá golpe a golpe desbastando os laços

de carne e de memória, de prazer, piedade,

ou do simples ouvir que os outros riem,

e choram e ciciam ou silentes

se escutam tal como ela se escutava

na calma distracção de respirar

o tempo que circula pelas veias.

Excerto do poema¬†¬ęA Morta¬Ľ, de Rembrandt

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

02
Out21

A abstenção como protesto

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Setembro j√° l√° vai, mas n√£o sem antes deixar alguns coment√°rios.¬†Um deles, relativamente √†s elei√ß√Ķes aut√°rquicas e ao seu leg√≠timo vencedor: a absten√ß√£o.

Uma democracia para o ser tem de abarcar opostos e, apesar de o voto ser um acto democrático, a sua recusa voluntária também o é. Podemos acusar os abstencionistas de irresponsabilidade democrática e por não terem votado não poderão criticar ou queixar-se do estado da nação, mas não nos podemos esquecer que um abstencionista não surge do nada.

Um voto em branco ou um voto nulo exigem que o cidad√£o se preste a sair de casa para os fazer, mas um abstencionista √© algu√©m que se encontra numa fase particular da sua vida como cidad√£o participante numa democracia. √Č algu√©m que um dia, por alguma raz√£o, decide parar. N√£o votando est√° a exercer o seu direito democr√°tico de protesto, atrav√©s da recusa e do sil√™ncio, quando todos os seus outros protestos n√£o foram ouvidos.

As promessas eleitorais e as que se seguem revestem-se cada vez mais de artifícios de ficção que vão provocando um cepticismo crónico a quem as ouve. 

Anos de governação sem atender às necessidades de um país e às dos seus cidadãos acabam por legitimar a recusa de contribuir para a aura de ficção perpetuada por quem governa.

A abstenção não é a solução e o voto tem em si todo o potencial para provocar mudanças.

Mas onde estão essas mudanças que o voto deveria provocar?

01
Out21

Podereis roubar-me tudo

Podereis roubar-me tudo:

as ideias, as palavras, as imagens,

e também as metáforas, os temas, os motivos,

os símbolos, e a primazia

nas dores sofridas de uma língua nova,

no entendimento de outros, na coragem

de combater, julgar, de penetrar

em recessos de amor para que sois castrados.

E podereis depois n√£o me citar,

suprimir-me, ignorar-me, aclamar até

outros ladr√Ķes mais felizes.

N√£o importa nada: que o castigo

será terrível. Não só quando

vossos netos n√£o souberem j√° quem sois

ter√£o de me saber melhor ainda

do que fingis que n√£o sabeis,

como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,

reverter√° para o meu nome. E mesmo ser√° meu,

tido por meu, contado como meu,

até mesmo aquele pouco e miserável

que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.

Nada tereis, mas nada: nem os ossos,

que um vosso esqueleto h√°-de ser buscado,

para passar por meu. E para outros ladr√Ķes,

iguais a v√≥s, de joelhos, porem flores no t√ļmulo.

Poema¬†Cam√Ķes dirige-se aos seus Contempor√Ęneos

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

P√°g. 10/10

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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