Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livrologia

Livrologia

25
Out21

As aparências são tudo

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

Na página 122 de 793.

Depois do regresso a casa Anna Karénina regressa ao seu papel entediante de mãe e esposa submissa junto do seu não menos entediante marido.

Estas páginas exalam um aborrecimento tão profundo que eu, como leitora, sinto-o em cada parágrafo, tal como Anna Karénina o sente.

Ela tenta convencer-se de que tem a vida perfeita, mantendo as aparências a todo o custo. As aparências são tudo no meio em que vive, mas a desilusão com a sua própria realidade começa a adensar-se: o fogo parecia apagado, ou então profundamente escondido dela.

24
Out21

Desapareceram sem deixar rasto

A emoção e aquele sentimento de vergonha sem motivo que experimentara pelo caminho desapareceram sem deixar rasto. Nas condições habituais da vida, voltou a sentir-se firme e impecável.

in Anna Karénina de Lev Tolstoi

24
Out21

Meu amor, meu querido Jorge

864.jpg

Lisboa, 14/8/59

Meu amor, meu querido Jorge

Faz amanhã oito dias que chegaste à Bahia e ainda de lá não tive notícias tuas. É esta a última carta que te escrevo para aí e possivelmente a última que te escrevo mesmo pois não sei se vais ou não a S. Paulo e ao Rio e ao cuidado de quem, para lá, te poderei escrever.

É horroroso estar assim sem notícias tuas. Fico sem ter que dizer, e, contudo, levo o dia angustiada. Eu sei que me tens escrito todos os dias mas esses correios malditos levam séculos e quase teremos que dar uma velinha a S. António se acabam por chegar mesmo.

Ontem um incêndio destruiu totalmente a igreja de S. Domingos. Se ao menos aproveitassem a oportunidade para acabar com aquela garganta e ligassem o Rossio a Martim Moniz, não era nada mau. Mas se calhar vão pôr ali um mastronço qualquer ou fazer uma estúpida reconstituição. À noite a convite da Maria Lamas, fui ao Restelo ver a «Grande Estrela Azul». Uma coisa italiana bem feita, sem concessões de happy end mas muito lenta de acção, com interpretações boas mas não excepcionais. Uma coisa um pouco deprimente ou o meu estado de espírito é que anda deprimido.

De resto tenho andado sempre tão próxima do limite nervoso que por vezes não sei como me aguento.

Ontem veio a Revista do Livro, por sinal três exemplares do n.º 13. Calculo que um exemplar seja para dar à Sophia com quem já falei pois vem uma extensa crítica aos livros dela, do Fern. [Fernando] Mendes Viana. Diz bem, diz mal, diz muitas coisas acertadas, outras que não concordo, mas é sempre agradável uma pessoa que leu e releu cuidadosamente tudo o que está cheio de vontade de acertar. E vai dizendo que a Sophia é um dos grandes da língua portuguesa, actualmente.

O correio nada trouxe digno de menção: uns recortes, a Vértice, não sei se mais alguma coisa. Tanta curiosidade tenho em relação ao Colóquio e nada saberei, naturalmente, tão cedo.

Tenho-me visto um pouco atrapalhada com a Literatura Inglesa por causa de me teres levado o livro. Ontem tive mesmo de escrever ao Rogério para esclarecer uma dúvida.

Ando tão esgotada que só me apetecia ir para onde não visse gente. A condição humana começa a enjoar-me só porque o é, independentemente do mais que é ou não é. Tanta abjecção, tanta, luta, tanta torpeza, e ao fim e ao cabo para nada.

Se minha mãe tivesse pensado alguma vez cinco minutos em que a vida acaba em vez de viver no pavor do fim; se em vez de pensar nas gratidões aos filhos tivesse pensado na minha vida, nada disto seria, ou pelo menos tudo poderia estar simplificado, mas não, as bondades, as gratidões, as delicadezas, os subterfúgios para se não encarar a realidade da vida, e a resultante de terem outros que enfrentar realidades muito piores. – Que heresia pareceria isto às almas delicadas que fazem dos mortos múmias da perfeição, em vez de já não vivos! E contudo nada tem que ver com a saudade que as pessoas deixam, com a veneração que se lhes tribute, com o respeito que se dedique à memória. E tu sabes bem que irreparável vazio fez minha mãe na minha vida e quanto a dor de a ter perdido é ainda viva e quanto a tento iludir com a distância que por vezes tento pensar que é a normal e não a definitiva.

Perdoa, meu querido Jorge. Quando estás comigo até a dor dos que a minha estima perdeu é mais suave, mas quando estás longe tudo é negro, tenebroso. Nunca fiquei tão só e ainda por cima tão sem notícias e depois… com o pavor dos desastres que era uma coisa que não tinha, no dolce far niente em que vivia de que só aconteceria aos outros e agora me parece que é a mim que tudo vai acontecer.

Terei ainda hoje notícias tuas? Manda-as por toda a gente que venha antes de ti. O Adriano telefonou a saber se já tinhas escrito e manda-te um abraço. O Dr. lá foi hoje para Bruxelas e Paris com a Maria. Sinto-me insuportavelmente só, meu amor. Beijo-te, beijo-te cheia de saudades e de amor.

Tua sempre

Mécia

Carta de Mécia de Sena a Jorge de Sena. Bahia, 13-08-1959

Correspondência. Jorge de Sena e Mécia de Sena «Vita Nuova» (Brasil, 1959-1965)

24
Out21

Esta música existe para perguntá-lo

Se há mistério na grandeza ignota,

e se há grandeza em se criar mistério,

esta música existe para perguntá-lo.

E porque se interroga e não a nós,

ela se justifica e justifica

o próprio interrogar com que se afirma

não quintessência ela, mas raiz profunda

daquilo que será provável ou possível

como consciência, quando houver palavras,

ou quando puramente inúteis forem.

Excerto do poema Ouvindo o Quarteto Op. 131, de Beethoven

Arte de Música (1968)

in Poesia II de Jorge de Sena

23
Out21

Nos espaços que a humanidade abandonada encontra nos desertos de si

A música é, diz-se, o indizível

por ser de inexprimível sentimento

da consciência, ou um estado de alma,

ou uma amargura tão extrema e lúcida

que passa das palavras para ser

apenas o ritmo e os sons e os timbres

só pelos músicos cientes de harmonia

e de composição imaginados. Mas,

se assim fosse, eles só dos homens

saberiam mover-se nos espaços

que a humanidade abandonada encontra

nos desertos de si. Começariam

onde a expressão verbal não se articula

por impossível. Viveriam sempre

na fímbria estreita à beira da maldade

e do absurdo, como que suspensos

na solidão da morte sem palavras.

Excerto do poema Ouvindo o Quarteto Op. 131, de Beethoven

Arte de Música (1968)

in Poesia II de Jorge de Sena

23
Out21

Tentei imaginar o dia-a-dia de Sena

21823340_Ku98b.png

Tentei imaginar o dia-a-dia de Sena.

Indago pelas suas páginas e interrogo-me: como seria um dia da vida dele? Com as suas rotinas, com as suas obrigações como profissional, pai, marido, cidadão e autor?

Eu, uma mera mortal, que não consegue sequer manter a sua disciplina de escrita confessional, olho para este homem tão atarefado, que nunca se serviu de uma desculpa para deixar de fazer o que queria e precisava de fazer.

Nunca permitiu que o cansaço ou outro motivo qualquer interferisse com a sua genialidade.

D. Mécia, a mulher que esteve a seu lado, cuidou para que a escrita do marido não ficasse esmorecida numa casa cheia de filhos, onde nem sempre havia pão e todos ralhavam sem razão. Cuidou do silêncio, cuidou da sua privacidade, apaziguou quezílias e acompanhou-o para onde quer que ele fosse.

23
Out21

Tudo se cala em ti como na vida

Tudo se cala em ti como na vida.

Tudo palpita e flui como no leito

em que se morre ou se ama, já desfeito

o abraço do momento em que, sustida

a sensação da posse conseguida,

a carne pára a ejacular-se atenta.

Tudo é prazer em ti. Quanto alimenta

esta glória de existir, trazida

a cada instante só do instante ser-se,

reflui em ti, liberto, puro, aflante,

certeza e segurança de conter-se

na criação virtual o renascer-se

agora e sempre pelo tempo adiante,

mesmo esquecido. Em ti, o conhecer-se

deste possível é a paz do amante.

Excerto do poema «Requiem», de Mozart

Arte de Música (1968)

in Poesia II de Jorge de Sena

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos Pássaros está aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog não adopta o novo Acordo Ortográfico.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Estante

no fundo da estante