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Livrologia

Livrologia

27
Jul23

Autobiografia de uma Mulher Rom√Ęntica: um manual para cora√ß√Ķes partidos

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Ler a Autobiografia de uma Mulher Rom√Ęntica √© como ler um manual para cora√ß√Ķes partidos, porque um cora√ß√£o se pode partir de diversas formas na sua inteireza.

Abrimos o livro na primeira página e logo se entra no abismo da dor, através da chuva que cai, das noites longas sem fim,  dos ruídos do mundo que se tornaram ainda mais ruidosos, da paisagem cinzenta e solitária de um tempo que parou de contar.

Há uma ordem para o caos da dor e Natália Nunes descreve cada sentir da personagem como ritos de passagem para o próximo nível, até que a dor seja nada.

26
Jul23

Treze horas de viagem

NATALIA.jpg

As partidas de Lisboa para Aveiro eram verdadeiras epopeias. Partíamos às dez da noite para chegarmos no dia seguinte à uma da tarde. Treze horas de viagem.

Antes da partida havia que cumprir o ritual do banho: uma imposição da minha mãe. Mesmo quando saíamos de madrugada, as crianças tinham de ir com o banho tomado! E o trabalhão que isso lhe dava; aquecer a água em máquinas a petróleo... (...)

 Natália Nunes in Entrevista Expresso

25
Jul23

Escapismo: a sofreguid√£o pela utopia versus a realidade inescap√°vel

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Considero-me uma grande e disciplinada praticante do escapismo, a melhor forma de lidar com as adversidades da vida.

O escapismo não é uma fuga, mas antes um distanciamento intermitente que me permite escapar para o lado bom da vida, enquanto o lado menos bom acontece sem que eu nada possa fazer.

A utopia versus a realidade - a escolha não é difícil. E como escapo? Através dos livros, é claro.

Os rigores da vida di√°ria pedem fugas para o esquecimento, a desconex√£o da nossa realidade e a conex√£o com um imagin√°rio que podemos levar para todo o lado.

Um livro condensa em si tanto imagin√°rio, que quando o lemos seja em que local f√īr, esquecemos tudo o que nos rodeia.

Sem sairmos do lugar escapamos para lugares tão longínquos que estamos ali, naquele momento, sem estar.

Onde estaremos nós? Nem nós próprios sabemos e, na verdade, nem é importante sabê-lo.

No escapismo, o difícil é regressar, querer regressar, para uma realidade que não se vai embora e teima em se repetir ad infinitum.

25
Jul23

Que ninguém se intrometa no cativeiro que eu própria me criei

¬ęPrecisa de mais cobertores na cama, minha senhora?¬Ľ.

¬ęN√£o, obrigada, j√° n√£o preciso de nada¬Ľ.

Vir√° todos os dias perguntar coisas a esta hora, a criada? A esta hora queria um sil√™ncio total, uma solid√£o completa. Que ningu√©m se intrometa no cativeiro que eu pr√≥pria me criei. √Č quase bom estar a s√≥s com a dor.

in¬†Autobiografia de uma Mulher Rom√Ęntica¬†(1955) de Nat√°lia Nunes

24
Jul23

Julgo que ter escolhido casar com um homem mais velho tenha a ver com a imagem que eu retive do meu pai...

NATALIA.jpg

A parentela do meu pai ia dos mais ricos aos muito pobres. As ¬ęsenhoras¬Ľ, como se dizia das mulheres das fam√≠lias mais ricas e conceituadas, tinham lugar cativo na igreja. Naquela √©poca a Igreja estava dividida em escal√Ķes sociais.(...)

[As ¬ęsenhoras¬Ľ da fam√≠lia]¬†N√£o aceitavam isso [que a mulher do parente n√£o fosse √† missa], como tamb√©m n√£o lhe perdoavam ela sair em cabelo. No final dos anos 20, as senhoras n√£o andavam sem chap√©u. E as nossas parentes abastadas jamais sa√≠am de casa de cabe√ßa descoberta. Ora, a minha m√£e entendia que numa pequena vila de prov√≠ncia era pelo menos pretensioso usar chap√©u em desloca√ß√Ķes que n√£o ultrapassavam os 20 metros.¬†(...)

Não tinha consciência destas coisas, nem sequer do perigo de ficar órfã de pai. Eu vivia num círculo muito interessante. A casa da família ficava dentro do adro da igreja e fora construída no antigo passal (terreno anexo à residência paroquial). Tínhamos assim a casa, a igreja e a escola. Estávamos no centro de tudo... E, depois, o convívio com o meu pai. Ele explicava-nos tudo: os nomes das plantas, das árvores, dos pássaros. Quando melhorou e começou a ir à caça, eu ia com ele. A relação com o meu pai foi tão importante que criou em mim o desejo de ter sempre um pai. Julgo que ter escolhido casar com um homem mais velho tenha a ver com a imagem que eu retive do meu pai...

 Natália Nunes in Entrevista Expresso

24
Jul23

Ent√£o uma pessoa foge do mundo e da vida

Passa j√° da meia-noite. A criada bate numa porta aqui ao lado e pergunta: ¬ęChamo √†s oito, senhor Faria?¬Ľ.

Aqui ao lado h√° gente. Algu√©m que vai meter-se na cama, entre os len√ß√≥is, a descansar de um dia de trabalho. Eu n√£o irei para a cama. Quero dizer, n√£o dormirei entre os len√ß√≥is. Ent√£o uma pessoa foge do mundo e da vida, procura algures um ref√ļgio onde possa √† vontade chorar as l√°grimas que quiser, permitir que se escapem todos os suspiros ou todas as gargalhadas de desespero, bater com a cabe√ßa nas paredes ou deixar-se ficar esquecida sobre uma cadeira, e h√°-de logo no dia em que chega √† terra do ex√≠lio, voltar aos h√°bitos normais, √† rotina de todos os dias?

in¬†Autobiografia de uma Mulher Rom√Ęntica¬†(1955) de Nat√°lia Nunes

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