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Livrologia

Livrologia

30
Nov23

Já tenho chegado a perder o sentimento da minha própria existência

¬ęAgora j√° durmo quase bem, e estou mais calma, mas ao mesmo tempo vejo-me como se andasse a procurar reconhecer o s√≠tio em que nos acontece √†s vezes me encontro, como quando acordamos e n√£o sabemos nem em que lugar nem em que tempo deste mundo somos n√≥s, nem sequer se somos n√≥s, realmente, sim, j√° tenho chegado a perder o sentimento da minha pr√≥pria exist√™ncia...¬Ľ

in O Caso de Zulmira L.  (1967) de Natália Nunes

29
Nov23

Natália Nunes não desvenda o humano numa fórmula matemática

NATALIA.jpg

A novela O Caso de Zulmira L. cont√©m as sess√Ķes de psican√°lise de¬†Zulmira L.

Personagem fictícia ou pessoa real?

O livro é-lhe dedicado e, como tal, assumo que Zulmira L. teve uma existência de carne e osso. Logo na primeira página Natália Nunes escreve:

 

Quando acabei de me formar, resolvi dedicar-me à Psicologia. Creio que a isso me levou o meu interesse pelo desvendamento do humano.

 

O Caso de Zulmira L. é esse desvendamento do humano que Natália Nunes tanto aprecia, de uma perspectiva pouco científica e mais literária e metafísica:

Por meu lado, comecei tamb√©m a evidenciar propens√Ķes inconvenientes, pouco cient√≠ficas, por exemplo: enquanto para os psiquiatras um louco √©, em √ļltima an√°lise, um doente, para¬† mim era e √©, antes, um alienado fatalmente volunt√°rio da exist√™ncia, concep√ß√£o paradoxal que de facto demonstrava da minha parte mais pendores liter√°rios e metaf√≠sicos. Em resumo: n√£o me satisfazia a descri√ß√£o formular dos casos, o seu enquadramento dentro de r√≥tulos e a sua disseca√ß√£o em quadros estat√≠sticos.

Natália Nunes não desvenda o humano numa fórmula matemática, mas como uma filosofia, apresentando a natureza e a estrutura da realidade de Zulmira L., analisando o tempo, o espaço, as causas e os efeitos da sua existência.

29
Nov23

O que me seduzia era a reconstitui√ß√£o, a capta√ß√£o do caso √ļnico de cada um deles

Eu n√£o queria perde de vista nem de ouvido a hist√≥ria pessoal e concreta dos doentes ou dos ¬ęsujeitos¬Ľ: o que me seduzia era a reconstitui√ß√£o, a capta√ß√£o do caso √ļnico de cada um deles, o caso imediato, como viv√™ncia, precisamente para poder comunic√°-lo assim a outras pessoas, na sua espontaneidade e realidade totais - at√© onde me fosse poss√≠vel. E enveredei ent√£o pela Literatura.

√Č claro que a princ√≠pio, quando comecei a minha nova ¬ęcarreira¬Ľ, estava ainda muito hesitante quanto √† maneira liter√°ria de comunicar aos outros os casos que conhecia e que me haviam impressionado.

in O Caso de Zulmira L.  (1967) de Natália Nunes

28
Nov23

O Labirinto de Creta

imageedit_2_9840378961.pngCom a consumação da paixão de Pasífae (a esposa de Minos) e o touro de Creta nasce um terrível monstro, o Minotauro. 

Minos, preocupado com as consequências que o Minotauro poderia provocar ao seu povo e à sua cidade, resolve construir um labirinto na cidade de Cnossos, no subsolo do Palácio de Minos, criado pelo arquitecto e inventor Dédalo.

O labirinto com apenas uma entrada e concebido como uma série de caminhos entrecruzados, a maior parte dos quais levam a becos sem saída e uma passagem que leva a um destino que é o centro do labirinto, é uma representação do mundo do Além, guardado pelo Minotauro que era necessário dominar para atingir o final do percurso, um provável ritual de morte e renascimento.

28
Nov23

Teseu foi lançado por uma tormenta à ilha de Chipre, tendo então consigo Ariadne

Ora, quanto ao que se l√™ de mais honesto nas f√°bulas dos poetas, n√£o h√° ningu√©m que n√£o o¬†cante, por maneira de dizer; mas certo F√™non, natural da cidade de Amatunte, recita-o de¬†forma inteiramente diversa dos outros, dizendo que Teseu foi lan√ßado por uma tormenta √† ilha de Chipre, tendo ent√£o consigo Ariadne, que estava gr√°vida e t√£o trabalhada pela agita√ß√£o do¬†mar que n√£o mais p√īde suport√°-lo, de tal maneira que ele foi constrangido a p√ī-la em terra e¬†depois reentrou no seu navio para cuidar de o defender contra a tormenta, mas foi¬†novamente atirado longe da costa, em pleno mar, pela viol√™ncia dos ventos.

As mulheres do país recolheram humanamente Ariadne e, para reconfortá-la (porque ela se desconfortou extraordinariamente, quando se viu assim abandonada), contrafizeram cartas, como se Teseu lhas tivesse escrito, e, quando ficou prestes a dar à luz o filho, tudo fizeram para socorrê-la: ela, todavia, morreu no sofrimento, sem jamais poder dar à luz, e foi inumada honrosamente pelas damas de Chipre.

Excerto de Teseu e Rómulo

in Vidas Paralelas de Plutarco

27
Nov23

Margin√°lia, quando um leitor conversa com um livro

imageedit_3_2439485458.png

Sublinhar e tomar notas nos  livros é uma prática antiga e agora há leitores anónimos a oferecer, a trocar e até a vender os seus próprios exemplares anotados.

Escrever nas margens de um livro tem um nome, chama-se margin√°lia.

O termo surgiu com o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge que praticou a marginália em mais de 450 livros ao longo da sua vida. Outros lhe seguiram os passos como Jean-Paul Sartre, Jack Kerouac, Vladimir Nabokov, William Blake, Edgar Allan Poe e Mark Twain que foram ávidos anotadores.

Desde rabiscos, reac√ß√Ķes a acontecimentos do livro, notas sobre as personagens, coment√°rios anal√≠ticos ou cr√≠ticos, esta √© a forma de um leitor conversar com um livro.

Apesar de muitos considerarem um sacrilégio escrever nas páginas de um livro, como eu, podemos escrever em post-its ou em notas de papel que deixamos ficar por entre as páginas. Muitas das minhas notas são partilhadas aqui no blog, outras mantém-se privadas.

Ler pode ser um acto solitário, mas não significa que no seu silêncio não haja conversa.

H√° muito conversa entre um leitor e o seu livro.

27
Nov23

Um alienado fatalmente voluntário da existência

Por meu lado, comecei tamb√©m a evidenciar propens√Ķes inconvenientes, pouco cient√≠ficas, por exemplo: enquanto para os psiquiatras um louco √©, em √ļltima an√°lise, um doente, para mim era e √© antes, um alienado fatalmente volunt√°rio da exist√™ncia, concep√ß√£o paradoxal que de facto demonstrava da minha parte mais pendores liter√°rios e metaf√≠sicos que cient√≠ficos.

Em resumo não me satisfazia a descrição formular dos casos, o seu enquadramento dentro de rótulos.

in O Caso de Zulmira L.  (1967) de Natália Nunes

26
Nov23

A ética do ghostwriting no filme The Wife de Björn Runge

imageedit_3_2439485458.pngO ghostwriter - escritor fantasma - é uma escolha cada vez mais frequente pelas clebridades quando decidem publicar as suas autobiografias.

Ghostwriting¬† √© a escrita de um determinado conte√ļdo para outras pessoas, que o publicar√£o como se fosse seu.¬†√Č uma pr√°tica comum n√£o s√≥ em autobiografias de celebridades, mas tamb√©m em livros t√©cnicos, gui√Ķes cinematogr√°ficos, artigos de revistas e muito mais.

 O ghostwriter é um escritor profissional que é contratado para escrever em nome de outra pessoa. Geralmente, são escritores experientes em vários estilos e géneros de escrita e escrevem em estreita colaboração com os seus clientes de modo a compreender as suas ideias, os seus objectivos e os resultados que pretendem.

E quanto à ética? Até que ponto é desonesto e enganador apresentar um livro com o seu nome na capa e ter sido escrito por outra pessoa?

Tudo se resume a uma questão de transparência.

Se o objectivo √© enganar propositadamente o p√ļblico √© claramente anti-√©tico, mas se o leitor √© informado de que o livro foi escrito com a colabora√ß√£o do ghostwriter, n√£o me parece desonesto.

Nem todas as pessoas têm talento para a escrita e quem quiser, por exemplo, partilhar a história da sua vida, em estreita colaboração com um ghostwriter, poderá fazê-lo de uma forma íntegra e transparente.

No caso espec√≠fico retratado no filme The Wife realizado por¬†Bj√∂rn Runge - que aconselho vivamente a verem - o ghostwriting √© utilizado para enganar o p√ļblico, o que levanta s√©rias quest√Ķes √©ticas.

P√°g. 1/8

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