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Livrologia

Livrologia

12
Jan24

N√£o me perguntem quando vou, se voltarei algum dia

Não me perguntem quando vou, se voltarei algum dia. Não me perguntem nada disso. O tempo alarga-se à minha frente. E a montanha, por detrás, eleva-se de tal modo na direcção do céu que me tapa tudo aquilo que não quero ver. Sendo assim, mesmo que me telefonem, mesmo que me escrevam, me falem, me choirem, me gritem, me corram, me andem, me fujam, me prendam, me larguem, cá estarei olhando de soslaio, olhando cá do estrangeiro e sempre de dentro para fora, como planeta em movimento, para esta vida cheia de luz, de força e de esperança. Até ver.

Excerto do conto Manhãs de Vidro

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

11
Jan24

A gente do Porto é diferente, de expressão mais acentuada

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Muitas viagens a pé fez pela cidade, pela beira do rio, pensamentos e mais pensamentos, uma observação, uma intimidade, a gente do Porto é diferente, de expressão mais acentuada, notou-lhes um outro cariz, um outro semblante e as ruas mais densas, outros cheiros, outros nortes, até outro Portugal.

Da luz aleitada e transparente de Lisboa e do alto da Graça com o rio Tejo ao fundo, aquele que brilha sempre e sempre, passou para o tom mais carregado e não menos belo das ruas antigas da Ribeira do Douro ou o passeio das Cardosas.

Também esse rio com suas pontes se tornara, a seus olhos, deslumbrante. Encontrava-se num outro mundo, num ambiente encantatório, de invernos mais pesados, mais sombrios e também mais densos e concentrados de atitudes e de vida. Mais uma vez, e apesar da ansiedade e inquietação própria dos vinte e dois anos, Rómulo apercebeu-se de uma certa felicidade que os espíritos interrogativos também podem conhecer.

in Rómulo de Carvalho / António Gedeão - Príncipe Perfeito de Cristina Carvalho

11
Jan24

M√°quina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.

Intervalos, dist√Ęncias, buracos, porosidade et√©rea.

Espaço vazio, em suma.

O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,

este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,

esta fresta de nada aberta no vazio,

deve ser um intervalo.

M√°quina do Mundo

Máquina de Fogo 1961

in Obra Completa de António Gedeão

10
Jan24

Natália Nunes demonstra na sua obra uma constante interrogação sobre a vida humana

NATALIA.jpg

Esp√≠rito¬†l√ļcido, irrequieto, exigente, aberto a novidade e ao aprofundar de¬†quest√Ķes, sens√≠vel ao lado tr√°gico mas tamb√©m ris√≠vel das coisas, Nat√°lia¬†Nunes demonstra na sua obra uma constante interroga√ß√£o sobre a vida¬†humana, encarada desde os seus aspectos mais concretos at√© elocubra√ß√Ķes t√°citas de personagens movidas pela inquieta√ß√£o, mas vistas¬†de fora, em l√ļcidos manejos de uma narra√ß√£o desenvolta.

Os livros de¬†Nat√°lia mais emblem√°ticos s√£o talvez as narrativas curtas sobre eventos¬†ins√≥litos, personagens obsidiadas por vis√Ķes ou terrores persecut√≥rios,¬†casos patol√≥gicos que o livro estuda ou, em certos casos, apenas d√° a¬†ver ‚ÄĒ resultando da patologia ou dos inacostumados efeitos de rid√≠culo que alcan√ßam a fun√ß√£o c√≥mica, com aspectos de farsa divertida.
Tingida entretanto pelo melanc√≥lico veio de uma inexplicabilidade que¬†marca a sua concep√ß√£o do humano.Recorde-se que ter vinte anos em 1941, a meio da guerra e no auge¬†do salazarismo, n√£o era f√°cil a quem desejava concretizar uma rela√ß√£o¬†com a est√©tica e o pensamento; n√£o s√≥ devido √† censura e aos perigos¬†pessoais que ela implicava, mas ainda porque, arrostando com tais perigos, uma boa d√ļzia de figuras liter√°rias se agigantavam, na esteira do¬†neo-realismo, ent√£o no auge da emerg√™ncia p√ļblica, ao mesmo tempo¬†que certos vultos da presen√ßa, ou outros, incertos na escolha (ou receio)¬†de integrarem um desses dois grupos, disputavam lugares cimeiros nesse¬†per√≠odo que foi dos mais ricos das nossas Letras.

in A nuvem turbulenta : bosquejo da obra literária de Natália Nunes de Maria Alzira Seixo, 
Col√≥quio/Letras, n.¬ļ 186, Maio 2014, p. 204-209
09
Jan24

Vinícius abria o Thesouro da Juventude e ia copiando ou imitando as poesias que encontrava

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Seu pai foi um poeta inédito, pós-parnasiano, "com um pé no simbolismo".

Era conto familiar que Olavo¬†Bilac,¬†seu¬†amigo,¬†aconselhou-o a publicar seus versos. Al√©m¬†disso, o velho Clodoaldo era, tamb√©m, tocador de viol√£o e cantador de modinhas;¬†dona L√≠dia tirava tangos do piano; idem¬†quanto ao seu av√ī. E seu tio mais mo√ßo,
Henrique de Mello Moraes, bo√™mio e seresteiro, vira e mexe baixava na Ilha com¬†o grande amigo, o compositor Boror√≥ e¬†mais dois viol√Ķes.

Quando n√£o havia sarau de m√ļsica o jovem Vin√≠cius abria o¬†Thesouro da Juventude e ia copiando ou¬†imitando¬†as¬†poesias¬†que¬†encontrava.¬†Assim, os concorridos saraus musicais em fam√≠lia, bem como a intensa leitura e c√≥pia de poemas desde a inf√Ęncia,¬†marcaram-no por toda a vida.

in¬†Vinicius de Moraes, cr√≠tico de cinema de¬†Afr√Ęnio Mendes Catani

09
Jan24

Vós, cidadãos homens, representantes de um mundo

V√≥s, cidad√£os homens, representantes de um mundo a que governais e, de uma civiliza√ß√£o a que destes forma: fazeis governos homens de todas as classes e profiss√Ķes, que os derrubais, que criais culturas e as deitais por terra, que fabricais guerras e morreis nelas que vindes crescendo e vos aprimorando ser her√≥ico a perseguir a lua desde a treva das origens; v√≥s, homens do tempo, criaturas solit√°rias, donos da cria√ß√£o e escravos de v√≥s mesmos; v√≥s, inventadores do t√©dio e do ressentimento, portadores da verdade e da mentira absolutas, perseguidos da tristeza, da alegria prec√°ria e ef√©mera, sempre contingenciado, pelo vosso limite a que, no entanto, n√£o aceitais...

Vós que sufocais a mulher, que a mantendes com pulso de ferro ao nivel que gostais de chamar "a sua inferioridade física e intelectual"; vós que amais a mulher nas suas algemas, porque temeis a sua liberdade para amar; vós, que, porque temeis a realidade da mulher, a desprezais e maltratais, e porque a desprezais recebeis em paga o artifício e a traição...

in Cinema de Vinicius de Moraes

 

08
Jan24

Ter vinte anos em 1941, a meio da guerra e no auge do salazarismo, n√£o era f√°cil

NATALIA.jpg

Recorde-se que ter vinte anos em 1941, a meio da guerra e no auge
do salazarismo, n√£o era f√°cil a quem desejava concretizar uma rela√ß√£o¬†com a est√©tica e o pensamento; n√£o s√≥ devido √† censura e aos perigos¬†pessoais que ela implicava, mas ainda porque, arrostando com tais perigos, uma boa d√ļzia de figuras liter√°rias se agigantavam, na esteira do¬†neo-realismo, ent√£o no auge da emerg√™ncia p√ļblica, ao mesmo tempo¬†que certos vultos da presen√ßa, ou outros, incertos na escolha (ou receio)¬†de integrarem um desses dois grupos, disputavam lugares cimeiros nesse¬†per√≠odo que foi dos mais ricos das nossas Letras.

in A nuvem turbulenta : bosquejo da obra liter√°ria de Nat√°lia Nunes¬†de Maria Alzira Seixo,¬†Col√≥quio/Letras, n.¬ļ 186, Maio 2014, p. 204-209

P√°g. 1/3

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
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Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
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