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Livrologia

Livrologia

08
Jan24

Continuo a perguntar se o teu ci√ļme n√£o foi uma com√©dia

Se olho mais de perto os teus actos e escuto os redemoinhos das tuas palavras contraditórias, encontro uma espécie de desespero sádico que hesita entre assassinar e suicidar. As tuas mãos não conheciam o jeito certo de tomar uma lisa esfera cristalina - o meu amor por ti - e raivosamente preferiram despedaçá-la em mil estilhas sobre um charco de lama...

Continuo a perguntar se o teu ci√ļme n√£o foi uma com√©dia. Diz-se que ele torna os homens est√ļpidos e grosseiros, maus e vingativos.

in A Nuvem. Estória de Amor (1970) de Natália Nunes

07
Jan24

O rei Egeu ao ver ao longe as velas negras, pensou que o monstro devorara o seu filho

imageedit_2_9840378961.pngAp√≥s superado o combate inici√°tico, o jovem Teseu conseguiu regressar finalmente a casa, mas, talvez por distrac√ß√£o, arriou as velas negras da¬†sua embarca√ß√£o ‚Äď o sinal combinado com o pai Egeu para anunciar a sua morte - em vez de arriar as velas brancas, sinal de vit√≥ria.

O rei Egeu ao ver ao longe as velas negras, pensou que o monstro devorara o seu filho e lançou-se ao mar, que desde esse momento passou a chamar-se Egeu em sua honra.

Desta forma, Teseu tornou-se o rei de Atenas.

07
Jan24

Reuniu numa cidade e reduziu a um corpo urbano os habitantes de toda a prov√≠ncia da √Ātica

Enfim, ap√≥s a morte do seu pai Egeu, ele empreendeu uma grande coisa maravilhosa:¬†reuniu numa cidade e reduziu a um corpo urbano os habitantes de toda a prov√≠ncia da √Ātica,¬†os quais estavam esparsos em v√°rios burgos, e nessa ocasi√£o mal azada para reunir,¬†quando se tratava de ordenar alguma coisa concernente ao bem p√ļblico, havia frequentes¬†querelas e guerras de uns contra os outros.

Mas Teseu deu-se ao trabalho de ir de burgo em¬†burgo e de fam√≠lia em fam√≠lia para dar-lhes a¬† entender as raz√Ķes pelas quais deviam assim¬†fazer: assim achou os pobres e os homens privados dispostos a obtemperar √† sua advert√™ncia, mas os ricos e os que tinham autoridade em cada burgo, n√£o; todavia, conquistou-os tamb√©m,¬†prometendo-lhes que seria uma coisa p√ļblica n√£o sujeita ao poder de um pr√≠ncipe soberano,¬†antes um governo popular ao qual se reservariam somente a superintend√™ncia da guerra e a¬†guarda das leis; e, de resto, que cada cidad√£o ali tivesse em tudo e por tudo igual autoridade.

Assim houve ali alguns que de bom grado se submeteram; os outros, que tal não ensejavam, dobraram-se contudo; por medo do seu poder e de sua ousadia, que era já grande; de tal forma que preferiram consentir de boa vontade no que ele lhes pedia a esperar que a isso fossem constrangidos pela força.

Assim, fez demolir todos os palácios para instalar a justiça e todas as salas para reunir o conselho, retirou todos os juízes e oficiais, e construiu um palácio comum e uma sala para alojar o conselho, no lugar onde agora está assentada a cidade que os Atenienses chamam de Asti, mas ao conjunto de todo o corpo da cidade chamou ele Atenas.

Excerto de Teseu e Rómulo

in Vidas Paralelas de Plutarco

06
Jan24

Natália Nunes é um desses nomes que faz falta recordar

NATALIA.jpg

Tendemos a esquecer escritores importantes, mesmo se ainda vivos, quando deixam de publicar ou de ser mencionados pela crítica.

A√≠ tem¬†a Universidade um dos seus objectivos: em vez de insistir em figuras¬†bastante estudadas, e embora reconhecendo o valor da diversifica√ß√£o¬†de abordagens, evidenciar autores para o estudo constitui variabilidade¬†que enriquece a institui√ß√£o, atentando no pa√≠s ‚ÄĒ al√©m de que o escopo¬†te√≥rico de que o ensino deve dar mostras se afina pela pluralidade dos¬†textos encarados; e consagra-se na aten√ß√£o que presta a cria√ß√Ķes p√°trias.

Nat√°lia Nunes √© um desses nomes que faz falta recordar: s√£o quase¬†sessenta anos de obra liter√°ria, em produ√ß√£o prol√≠fera de romances,¬†contos, novelas, ensaios, impress√Ķes de viagens, mem√≥rias, tradu√ß√Ķes.¬†Um vulto discreto mas que tra√ßa figura√ß√Ķes de texto apelativas, inesperadas, mordazes. (...)¬†Nat√°lia Nunes: personalidade liter√°ria mult√≠moda, ficcionista com¬†romances de originalidade marcante, estudiosa do ins√≥lito humano,¬†amea√ßador ou carente, em contos onde encontramos algumas obras--primas do g√©nero na literatura portuguesa.

 
in A nuvem turbulenta : bosquejo da obra liter√°ria de Nat√°lia Nunes¬†de Maria Alzira Seixo,¬†Col√≥quio/Letras, n.¬ļ 186, Maio 2014, p. 204-209
06
Jan24

Quando revejo essa descida aos infernos da minha alma

Ainda hoje me espanto quando revejo essa descida aos infernos da minha alma. No entanto, creio que foi uma experi√™ncia em que o meu ser chamou a si as remot√≠ssimas defesas da vida, e soube encontrar, sozinho, o narc√≥tico que o adormentou com fantasias que √†s vezes o estarreciam, outras o distra√≠am com vis√Ķes e f√°bulas, de uma inquiri√ß√£o por ent√£o insuport√°vel.

in A Nuvem. Estória de Amor (1970) de Natália Nunes

05
Jan24

O que torna um livro num cl√°ssico?

imageedit_2_9533751101.png

Quem acompanha o Livrologia sabe do meu profundo amor pelos cl√°ssicos.

Atribuir a um livro a categoria de cl√°ssico¬†pode ser um tema controverso, que pode resultar em opini√Ķes distintas, consoante a experi√™ncia de cada leitor.

Para mim um clássico terá obrigatoriamente de conter algumas características específicas, mas de uma forma geral deverá ser uma obra com qualidade, intemporal e universal.

A literatura clássica é uma expressão da vida, da verdade e da beleza, de elevada qualidade artística, considerando, obviamente, a época em que foi escrita.

Um clássico, antes de o ser, não teve obrigatoriamente de ser um sucesso de vendas. Aliás, um best seller não significa automaticamente qualidade literária.

Se um livro foi publicado num passado recente, n√£o √© um cl√°ssico, embora o termo cl√°ssico moderno possa ser aplicado a livros escritos depois da II Guerra Mundial. Um livro precisa de longevidade, de algumas gera√ß√Ķes, para alcan√ßar a designa√ß√£o de cl√°ssico.

Para ser um cl√°ssico, um livro precisa de envelhecer bem, o que significa que ter√° que fazer sentido para gera√ß√Ķes vindouras. As grandes obras liter√°rias s√£o intemporais e universais, conseguindo tocar leitores de qualquer parte do mundo e de qualquer gera√ß√£o. Temas como o amor, o √≥dio, a morte, a vida e a f√©, por exemplo, abordam algumas das nossas respostas emocionais que s√£o transversais a qualquer ser humano.

Sendo relevante para v√°rias gera√ß√Ķes, um cl√°ssico para o ser necessita de abordar temas universais √† condi√ß√£o humana de forma a que resista √† passagem do tempo. O mesmo leitor pode ler o mesmo cl√°ssico em diferentes fases da vida e descobrir diferentes perspectivas.

Um clássico será marcadamente universal e irá inspirar não só os leitores, mas também outros escritores.

05
Jan24

Uma pessoa apaixona-se, facilmente, não é?

Consegui chegar. Ou seja, consegui adormecer numa cama que me aguardava h√° algumas horas e estou bem. Frio? N√£o! N√£o tenho frio nenhum. Mas n√£o sei por quanto tempo n√£o vou ter frio.

Comer?  Como bem. Seria vulgar dizer que tenho saudades do bife e das batatas fritas ou do bacalhau com grelos mas, realmente, apaixonei-me pelas finíssimas fatias de salmão fumado e pelos lombinhos de arenque em seu molho; apaixonei-me pela batatinha redonda, bem cozida, coroada por uma sílaba de compota vermelha; apaixonei-me pelo chá fervente, desse das bagas da floresta e pelas tostas de pão e pelo café desmaiado e pelo bolo de canela e cominhos.

Uma pessoa apaixona-se, facilmente, não é?

Excerto do conto Manhãs de Vidro

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

04
Jan24

Porque lia muito, conheceu a paz que só as grandes leituras proporcionam

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Foi aqui em casa da irmã [no Porto] que Rómulo viveu três anos muito agradáveis, matriculado na faculdade de Ciências, na licenciatura em Ciências Físico-Químicas, como então se designava este curso.

A decisão de tornar-se professor, de ir para o ensino, desenhava-se agora, esplendorosamente e sem equívoco no seu pensamento.

Aqui viveu, pois, os anos letivos de 1928 a 1931. Tinha o seu quarto bem mobilado, com tudo o que precisava, desfrutava do que se chama ¬ęboa cama e boa mesa¬Ľ e, sobretudo, apreciava muito o ambiente caloroso e muito tranquilo ali na rua Antero de Quental. Nesse quarto amadureceu. Os √≠mpetos calorosos dessa inevitabilidade a que se chama ¬ęfogo da juventude¬Ľ foram-se extinguindo, quase impercetivelmente no seu esp√≠rito, alguma tranquilidade o envolveu e, sobretudo porque lia muito, conheceu a paz que s√≥ as grandes leituras proporcionam. Tinha alguns livros muito queridos que ia comprando conforme o seu modesto dinheiro permitia.

in Rómulo de Carvalho / António Gedeão - Príncipe Perfeito de Cristina Carvalho

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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