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Livrologia

Livrologia

04
Jan24

Como ser√° estar contente?

Como ser√° estar contente?

Lançar os olhos em volta, 

moderado e complacente,

e tratar com toda a gente

sem tristeza nem revolta?

Sentir-se um homem feliz,

satisfeito com o que sente,

com o que pensa e com o que diz?

Como ser√° estar contente?

 

Deve haver qualquer mec√Ęnica,

qualquer retesada mola

que se solta e desenrola

no próprio instante preciso,

para que um homem de carne,

de olhos pregados no rosto,

possa olhar e rir com gosto

sem estranhar o som do riso.

 

Na minha tosca engrenagem,

de ferrugenta sucata,

h√° qualquer mola de lata

que n√£o se distende bem,

qualquer dessorada gl√Ęndula

ou nervo que n√£o se enfeixa,

qualquer coisa que n√£o deixa

deflagrar essa gir√Ęndola

de timbres que o riso tem.

 

Não ter riso é não ter casa,

nem dinheiro nem sa√ļde,

n√£o se conta por virtude

que a miséria é ferro em brasa.

 

Mas ter casa, ter dinheiro,

ter sa√ļde e n√£o ter riso,

flagelar-se o dia inteiro

como se o sangrar primeiro

fosse um tormento preciso,

tê-lo sempre forte e vivo,

espantado a todo o momento,

isso sim, ser√° motivo

de grande contentamento.

Como ser√° estar contente?

Máquina de Fogo 1961

in Obra Completa de António Gedeão

03
Jan24

Como √© que a IA est√° a afectar a literatura e ebooks nas bibliotecas p√ļblicas

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O empr√©stimo de livros electr√≥nicos em bibliotecas p√ļblicas vai mesmo avan√ßar este ano. √Č expect√°vel que a¬†plataforma que ir√° permitir a requisi√ß√£o de ebooks a qualquer pessoa inscrita numa biblioteca p√ļblica em Portugal fique operacional at√© Junho.¬†

 

O Polit√©cnico de Coimbra est√° a promover uma campanha de doa√ß√£o e partilha de livros¬†intitulada ‚ÄúA magia est√° na partilha‚ÄĚ, para dar a possibilidade de acesso aos mais variados livros a qualquer membro da institui√ß√£o.¬†At√© ao dia 07 de Fevereiro, ‚Äúos livros poder√£o ser doados voluntariamente por estudantes e trabalhadores, docentes e n√£o docentes, em pontos de recolha previamente definidos (...) e no Dia Internacional da Doa√ß√£o de Livros, 14 de fevereiro, os livros doados ser√£o recolhidos e posteriormente redistribu√≠dos por diversos espa√ßos do Polit√©cnico de Coimbra".

 

Como √© que a IA est√° a afectar a literatura?¬†Nesta era de desenvolvimento tecnol√≥gico da intelig√™ncia artificial √© imperativo saber se um¬†determinado conte√ļdo foi ou n√£o gerado com recurso a intelig√™ncia artificial e, se sim, em que medida.¬†‚ÄúUm humano, mesmo que lesse 24 horas por dia, nunca conseguiria absorver a quantidade de informa√ß√£o [√† deriva na Internet] que j√° alimentou o ChatGPT. Mas as pessoas, ao contr√°rio das m√°quinas, t√™m espessura psicol√≥gica e isso n√£o √© replic√°vel, pelo menos ainda‚ÄĚ, assevera M√°rio Figueiredo, que n√£o ignora o facto de ser poss√≠vel p√īr IA a ‚Äúcriar literatura a metro, ao estilo deste ou daquele‚ÄĚ. ‚ÄúAgora, com subst√Ęncia e consist√™ncia, duvido. Com a tradu√ß√£o √© o mesmo. D√° para despachar trabalho, mas n√£o √© bom‚ÄĚ, diz o especialista.¬†

 

H√° ainda muitas desigualdades na estante. O espa√ßo ocupado ainda √© maior para os livros assinados por homens do que para as mulheres. Por isso, em¬†2023, a Aurora -¬†uma livraria que s√≥ vende livros escritos por mulheres - abriu as suas portas em Lisboa.¬†‚ÄúSempre que se abordam as desigualdades existentes em Portugal, que uma grande fatia dos portugueses continua a ignorar porque somos um povo ainda muito patriarcal e conservador, isso gera controv√©rsia. Mas n√≥s sab√≠amos que a cr√≠tica vinha precisamente de um espa√ßo de reflex√£o e mostrava que est√°vamos a tocar nas feridas certas das nossas funda√ß√Ķes enquanto sociedade. Mas as cr√≠ticas foram passageiras e a Aurora veio fazer aquilo que era o nosso objetivo: abrir este di√°logo e aumentar a presen√ßa de vozes femininas na literatura em Portugal. E isso reflecte-se nos n√ļmeros. Nunca se publicaram tantos livros escritos por mulheres como nos √ļltimos dois anos‚ÄĚ, garante.

03
Jan24

Mas também me lançarei a mim mesma no tubo de ensaio

Agora, aquele que foi o meu amado vai tornar-se para mim um objecto de estudo. Investigarei a sua conduta como um cientista l√ļcido, rigoroso. Pegarei na d√ļvida com que ele me torturou durante ¬ęo tempo do castigo¬Ľ e ela ser√° para mim o problema que o l√≥gico divide em partes: interrogarei o passado, porei hip√≥teses, ensaiarei respostas, procurarei provas e contraprovas.

Mas tamb√©m me lan√ßarei a mim mesma no tubo de ensaio. Seremos ambos dois elementos sobre os quais correr√£o os mesmos √°cidos, os mesmos ca√ļsticos. Que produto sair√° da reac√ß√£o? Um novo √°cido corrosivo? Uma base neutra? Um precipitado negro? Branco? Um res√≠duo cristalino? Um produto vol√°til, sublim√°vel?

in A Nuvem. Estória de Amor (1970) de Natália Nunes

02
Jan24

Eram pencas de presentes, por vezes presentes de pai abastado

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Clodoaldo Pereira da Silva Morais [pai de Vinicius de Moraes] era, nas palavras de Vinícius, um homem generoso.

"Fosse ele um homem rico, e nunca filhos teriam tido mais. Sempre me lembra os Natais passados na pequena casa da Ilha do Governador, e a maratona que fazíamos, meus irmãos e eu, quando o bondinho que o trazia do Galeão, onde atracavam as barcas, rangia na curva e se aproximava bamboleante e cheio de luzes, do ponto de parada junto à grande amendoeira da Praia de Cocotá. Eram pencas de presentes, por vezes presentes de pai abastado como o jogo de peças de armar, certamente de procedência americana, com que me regalou e com que construí, anos a fio, pontes, moinhos, edifícios, guindastes e tudo o mais. E os fabulosos Almanaques do Tico-Tico, lidos e relidos, e de onde, uma vez exaurida a matéria, recortávamos as figuras queridas de Gibi, Chiquinho, Lili e Zé Macaco".

in¬†Vinicius de Moraes, cr√≠tico de cinema de¬†Afr√Ęnio Mendes Catani

02
Jan24

Adeus, John Ford

Adeus, John Ford, velho irlandês áspero de fundos sulcos no rosto macerado. Adeus, desbravador de petróleos horizontes, macho insigne do cinema, fabricante de heróis displicentes sempre a conquistar glória com um sorriso de descrença.

Adeus, intratável diretor de homens intratáveis, conquistador de terras inóspitas, violador de cordilheiras, guerreiro duro e incansável a perseguir o inimigo até ao fim, a tocaiá-lo para o cara a cara, sem meias medidas.

Acabastes, John Ford, acabastes, depois de um glorioso passado de lutas - transformado agora num anci√£o perplexo e gasto, a repetir-se no eco de velhos temas org√Ęnicos, ora esvaziados de mat√©ria.

in Cinema de Vinicius de Moraes

01
Jan24

10 anos de Livrologia

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Em 2014 criei o Livrologia sem qualquer intenção de o prolongar para além do necessário.

Nascido de um evento marcante da minha vida, o seu propósito inicial era ocupar o meu pensamento com livros e escrever sobre eles. 

E posso dizer agora, olhando por cima do ombro, que da dor podem nascer coisas bonitas, de genuína simplicidade.

O que haver√° de mais simples e genu√≠no do que abrir um livro para ler e partilhar com os outros as impress√Ķes sobre o que se leu?

O meu prop√≥sito era ler para esquecer, mas o que jamais irei esquecer nestes 10 anos de blogosfera, foram as pessoas maravilhosas que encontrei sem as sequer ter conhecido, as mesmas pessoas que apoiaram¬†o Livrologia com as suas opini√Ķes e ideias e que contribu√≠ram com a sua ajuda na minha incessante busca de livros para ler.¬†

O meu obrigada a todos o que estão aí desse lado, nestes 10 anos de amor incondicional pelos livros.

Miss X

P√°g. 3/3

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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