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Livrologia

Livrologia

07
Jul19

A posteridade

Todas as pessoas que não compreendem a vida pensam que a vida é feita de sucessos.

Essas mesmas pessoas adoram Van Gogh porque ele cortou a orelha; Toulouse-Lautrec porque era an√£o; Modigliani porque era turberculoso; Rembrandt porque morreu de fome; James Dean porque morreu na estrada; Marilyn Monroe porque se suicidou.

Todas essas pessoas acreditam na posteridade porque acreditam que s√£o a posteridade.

in Quase briga entre amigos

A Descoberta do Mundo (Crónicas) - Clarice Lispector

07
Jul19

Clarice Lispector | No teatro

batom.pngClarice em ensaio de bastidores

Perto do Coração Selvagem, espectáculo de Fauzi Arap encenado entre os anos de 1965 e 1966 no teatro da Maison de France, reuniu trechos do livro homónimo (a estreia de Clarice, de 1944), A Paixão segundo GH e A Legião Estrangeira.

No elenco, Glauce Rocha, Dirce Migliaccio, um estreante Jos√© Wilker e o pr√≥prio Fauzi Arap revezam-se em pequenos mon√≥logos, classificados por alguns jornalistas como declama√ß√Ķes.¬†

in portais.funarte.gov.br

06
Jul19

Por amor à simetria

Nada mais havia a dizer. Faltava-lhes o peso de um erro grave, que tantas vezes é o que abre por acaso uma porta salvadora.

Algumas vezes eles tinham levado muito a sério alguma coisa. Eles eram obedientes.

Tamb√©m n√£o apenas por submiss√£o de pobreza de alma, mas como num soneto, era obedi√™ncia por amor √† simetria. A simetria lhes era a √ļnica arte poss√≠vel.

in Os obedientes (Conclus√£o)

A Descoberta do Mundo (Crónicas) - Clarice Lispector

06
Jul19

Como num clube de pessoas

¬ęSer um igual¬Ľ fora o papel que lhes coubera, e a tarefa a eles entregue - e que agora descobriam n√£o ser essencial. Os dois, condecorados pela vida obediente, graves, correspondiam grata e civicamente √† confian√ßa que os iguais haviam depositado neles. Pertenciam a uma casta. O papel que cumpriam, com certa emo√ß√£o e com dignidade, era o de pessoas an√īnimas, o de filhos de Deus, como num clube de pessoas.

Talvez apenas devido à passagem insistente do tempo tudo isso começara, porém, a se tornar diário, diário, diário. Às vezes arfante. (Tanto o homem como a mulher já tinham iniciado a idade crítica.)

Eles abriam as janelas e diziam que fazia muito calor. Sem que vivessem propriamente no tédio, era como se nunca lhes mandassem notícias. O tédio, aliás, fazia parte da obediência a uma vida de sentimentos honestos.

in Os obedientes (I)

A Descoberta do Mundo (Crónicas) - Clarice Lispector

05
Jul19

As rosas de Clarice

logo11.png

Quem nunca roubou n√£o vai me entender.

E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender.

-Clarice Lispector

 

Como prometido durante a visita ao jardim secreto de Clarice, escrevo agora sobre as suas rosas. As suas, as dos outros, as que roubou.

H√° inclusiv√© um ensaio da Prof. Dra. Maria Jos√© Ribeiro (FURB) sobre este tema, cuja leitura recomendo, As Rosas de Clarice Lispector: Travessia,¬†Transfigura√ß√£o e Den√ļncias da Flor:

A rosa revela o ser em seus vários contrastes, entre a completude e a fragmentação, entre a sanidade e a loucura, entre o si mesmo e o Outro. E nesse espaço entre o eu e o Outro, a rosa ajuda a revelar o mundo exterior, tendo como ponto de partida um mergulho profundo no mistério da flor.

Ainda não li todos os livros de Clarice, mas nos que li encontrei certamente rosas, cultivadas misticamente, como pequenas deusas castigadoras de espinhos, mas às quais nos submetemos hipnótica e cegamente:

Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas tem gosto bom na boca - é só experimentar. 

A páginas tantas Clarice confessa, assim mesmo, despudoradamente, que já as roubou. E o bem que soube tê-las roubado! Eram mais cheirosas, mais bonitas, mais dela.

Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só, elas não sabem viver sozinhas...
Quem quiser levar a rosa para sua vida, ter√° de saber que com elas v√£o in√ļmeros espinhos. N√£o se preocupe, a beleza da rosa vale o inc√īmodo dos espinhos...

Mas a rosa mais bonita de todas era aquela que o médico tinha no consultório. Uma rosa que viveu em água mais tempo do que todas as outras. Talvez por pura paixão.

E uma relação íntima estabeleceu-se entre o homem e a flor: ele a admirava e ela parecia sentir-se admirada. E tão gloriosa ficou, e com tanto amor era observada, que se passavam os dias e ela não murchava.
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