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Livrologia

Livrologia

05
Nov20

A poesia é, vive ou paira, existe ou não existe

franc.jpg@ Página do livro Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

Uma cr√≠tica do futuro marido e pai dos cinco filhos que podia ser ela mesma um ensaio sobre esse¬†dom do verbo que s√≥ uns raros bafeja ¬ęNunca se definiu, nem definir√° poesia. A poesia √©, vive ou¬†paira, existe ou n√£o existe. E acompanha a vida. E talvez um acr√©scimo de vida como toda a arte.¬†Uma maneira √≠ntima de adivinhar as coisas, de fundir o ritmo do mundo com o ritmo da nossa alma,¬†numa pura e estranha intui√ß√£o da verdade.¬Ľ

Tal como Sophia, tamb√©m Francisco via nesse modo de¬†escrita √©tica uma liga√ß√£o simbi√≥tica. ¬ęTodo o mundo √© po√©tico quando visto em verdade. Todas as¬†coisas s√£o maravilhosas quando as compreendemos. E a poesia limita-se afinal a iluminar a¬†verdade, a beleza secreta que h√° em tudo aquilo que existe.¬Ľ

Sophia de Mello Breyner surge a Sousa¬†Tavares como aquele autor raro que √© simplesmente poesia, que diz humildemente o que sentiu¬†quando um dia lhe aconteceu a vida. ¬ęAlgu√©m que n√£o quis fazer versos: mas que precisou de dizer¬†as vis√Ķes maravilhosas que trazia, o entendimento misterioso do universo que nela cantava num¬†ritmo intenso.¬Ľ

O futuro marido recorre a uma das palavras preferidas da poeta para descrever a sua¬†escrita ¬ęduma pureza inexced√≠vel¬Ľ, sem teorias, nem gestos in√ļteis. ¬ę√Č uma inten√ß√£o, uma¬†revela√ß√£o de beleza. Sofia Andresen escreveu o seu mundo e o mundo que lhe entrou pelos olhos¬†extasiados, tudo fundido naquele ritmo de m√ļsica e dan√ßa, de harmonia clara que √© para ela uma¬†exig√™ncia e um estilo.¬Ľ

O primeiro livro de Sophia era para Francisco um ¬ęcaso original√≠ssimo¬Ľ de¬†uma autora ¬ęin√©dita na viol√™ncia e na verdade alucinante com que sente o mundo f√≠sico¬Ľ, capaz de¬†ressuscitar ¬ęqualquer coisa de per dido na poesia¬Ľ, em que ¬ęs√≥ o que √© belo √© essencialmente¬†verdadeiro¬Ľ. Inexprim√≠vel, inexplic√°vel, dolorosamente pessoal, sereno, ¬ęDe algu√©m que se advinha,¬†adivinhando o mundo, para al√©m das apar√™ncias, atinge o ritmo secreto, verdadeiro e universal da¬†vida.¬Ľ

Na an√°lise da obra da autora que se estreava, apenas uma cr√≠tica: ¬ęH√° poemas que n√£o¬†deviam ter sido publicados., Por n√£o estarem √† altura daquele que considerou o mais belo:

Homens à Beira-mar 

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, v√£o-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O cora√ß√£o crescente da dist√Ęncia,
E long√≠nqua lhes √© a pr√≥pria √Ęnsia.

√Č-lhes long√≠nquo o sol quando os consome,
√Č-lhes long√≠nqua noite e a sua fome.
√Č-lhes long√≠nquo o pr√≥prio corpo e o tra√ßo,
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol n√£o os consome,
Porque o frio da noite n√£o os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
As aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

01
Nov20

Sophia & Francisco

tareco.jpgFrancisco e Sophia @ www.sabado.pt

Na exclusiva Granja, Sophia era Xixa, como ficara conhecida entre a fam√≠lia e os amigos, aquela que¬†ia sozinha para a praia dizer poesia enquanto comia uvas e ananases. Dela se dizia, j√° em jovem,¬†que se alimentava de versos. Ningu√©m a via fazer refei√ß√Ķes. S√≥ beber ch√° e, mais tarde, fumar¬†cigarros.

(...)

Francisco já teve influência no primeiro livro da namorada, em 1944. A mãe da poeta consultou-o e ele defendeu a publicação imediata. Depois, escreveu uma crítica elogiosa no semanário Acção, mas considerou: "Há poemas que não deviam ter sido publicados, menos felizes na essencialidade de vida que revelam ou na forma por que foram exprimidos; e não o deviam ter sido principalmente para que mais nítida e indiscutível ressaltasse a beleza dos outros."

(...)

O casal passou a viver na Travessa das M√≥nicas, √† Gra√ßa, e Francisco candidatou-se a subinspector do trabalho, no Minist√©rio das Corpora√ß√Ķes. "Nada se apurou em seu desabono tanto moral como pol√≠tico", registou a PIDE. Mas j√° tinha uma milit√Ęncia cada vez mais activa no movimento mon√°rquico, cujos encontros eram vigiados atentamente pela pol√≠cia pol√≠tica. Os agentes ficaram fascinados com as qualidades ret√≥ricas do pai de Miguel Sousa Tavares. No fim do banquete dos 10 anos de D. Duarte, o informador da PIDE escreveu sobre Francisco: "√Č inteligente, ambicioso, h√°bil e excelente orador. N√£o h√° igual na Assembleia Nacional."¬†

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

30
Out20

A vida na casa Andresen

sophia002.jpg

A Quinta do Campo Alegre em 1937

@ Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery


Mais uma vez, o conto ¬ęSaga¬Ľ retrata com realismo a hist√≥ria da fam√≠lia Andresen, relatando uma¬†casa que em tudo corresponde √† do Campo Alegre.

Impedido de estabelecer comunica√ß√£o com o¬†pai, em Vig, a personagem Hans compreendeu que nunca regressaria √† terra natal. Por isso,¬†passados alguns meses comprou uma propriedade, que, do alto de uma pequena colina, descia at√©¬†ao cais. ¬ęEntrava-se na quinta, pelo lado dos campos, por um port√£o de ferro que, depois de o¬†passarmos, ao fechar -se batia pesadamente. Em frente, surgia a casa, enorme, desmedida, com¬†altas janelas, largas portas e a ampla escadaria de granito, abrindo em leque. Na parte de tr√°s,¬†corria uma longa varanda debru√ßada sobre os roseirais do poente.¬Ľ

√Č f√°cil imaginar que uma¬†crian√ßa se perca aqui em hist√≥rias e contos m√°gicos. Mais a mais pensando que na altura, no in√≠cio¬†do s√©culo xx, n√£o se ouviria o zunzum de fundo vindo dos carros a passar na auto estrada. Cada¬†canto do jardim e da casa podiam ser o in√≠cio de uma hist√≥ria. Assim houvesse imagina√ß√£o. E em¬†Sophia havia.

(...)

A vida no Campo Alegre, uma esp√©cie de col√≥nia, nas palavras de Ruben A.," com a exuber√Ęncia dos¬†seus jardins e os lagos que gelavam no inverno, era um o√°sis no Porto, que permitia √†s crian√ßas da¬†fam√≠lia uma sensa√ß√£o de liberdade absoluta, sem limites, protegidas dentro de muros. A quinta¬†aliava natureza e liberdade," duas traves-mestras da obra- e vida de Sophia.

(...)
A vida social era intensa na Casa Andresen, sendo frequente a presen√ßa de escritores, pintores e¬†m√ļsicos, al√©m dos homens de neg√≥cios. Mas a maior festa do Campo Alegre era o Natal,¬†permanecendo toda a vida a √©poca favorita de Sophia.
(...)
O ambiente da quadra natal√≠cia na Casa Andresen, entre as tradi√ß√Ķes n√≥rdicas e os s√≠mbolos¬†cat√≥licos, haveria de refletir-se em hist√≥rias infantis como A Noite de Natal e O Cavaleiro da¬†Dinamarca, agregando no imagin√°rio o passado e o presente da fam√≠lia.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

26
Out20

1919, ano do nascimento de Sophia

sophia001.jpg

Natal de 1919 na Quinta do Campo Alegre, no ano de nascimento de Sophia, um dos bebés da foto

@ Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

 

Conspira√ß√Ķes, atentados, tiroteios nas ruas e cenas de pugilato na Assembleia faziam parte do¬†quotidiano dos portugueses em 1919, ano do nascimento de Sophia.

Desse ambiente de guerra civil¬†d√° conta o av√ī Tom√°s, que registava a sua revolta e discord√Ęncia pela situa√ß√£o do pa√≠s nos¬†cadernos pessoais. Um deles tem a capa gravada com o t√≠tulo Agenda Memorial-Di√°rio -1919. A√≠¬†escreveu, riscou e rabiscou com caneta preta de tinta permanente logo no in√≠cio do ano, a 11 de¬†janeiro:¬†¬ęA noite foi agitada. Muita tropa nas ruas. As patrulhas de vez em quando disparam.¬Ľ¬†Logo¬†no m√™s seguinte,a 22 de fevereiro anota a vermelho, no canto da p√°gina, ¬ęmotins graves¬Ľ.

(...)

Sophia nasce num país que fugia e morria. Em 1919, Portugal atinge um pico de 69 mil emigrantes e faz o luto de quase outros tantos habitantes (60 mil) levados pela pneumónica. No ano de batismo da poeta perdiam-se milhares de vitimas de doenças infectocontagiosas como o tifo, sintoma de miséria: 2282 mortes contabilizadas só nesses doze meses.

(...)
Mas não há escombros, ameaças nem guerra eminente que possam impedir certas urgências da natureza. Tal como a morte, o nascimento não se adia, nem se atrapalha com momentos históricos mais ou menos atribulados. Simplesmente acontece. E a Sophia aconteceu-lhe às 11 horas e 20 minutos do dia 6 de novembro de 1919, em casa dos pais, na Rua António Cardoso, n.o 170, no Porto.

(...)

√Ä hora a que Sophia nasceu, o av√ī Tom√°s viajava no comboio de Lisboa para o Porto e o pai¬†preparava-se para erguer perante a matilha dos seus c√£es de ca√ßa a primeira filha. Sem mais¬†delongas, e apesar do frio agreste de um novembro no Norte do pa√≠s, Jo√£o Henrique Andresen¬†entendeu urgente levar a rec√©m-nascida ao alpendre para a apresentar ao universo. Talvez um¬†momento premonit√≥rio da rela√ß√£o quase m√≠stica que a poeta viria a acalentar com a natureza, uma¬†constante na sua obra e um tra√ßo marcante da sua personalidade.

(...)

Rendido ao amor pela mais nova Mello Breyner - ¬ęEstive muito tempo com a rica neta ao colo.¬†Querida e que amor ela √©! Que ternura me faz!¬Ľ

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

02
Out20

Tomás de Mello Breyner, o médico da Casa Real

tomas.jpg@ www.geni.com

 

Um dos homens que mais marcaram o crescimento da poeta viria a ter, ele pr√≥prio, uma inf√Ęncia¬†peculiar.

Tomás Maria António d'Assis e de Borja de Mello Breyner nasce na madrugada de 2 de Setembro de 1866 na Rua da Costa do Castelo, n.o 42. Chegado depois da morte de dois irmãos num mesmo ano, vítimas de difteria, doença que no final do século XIX matava mais de metade dos contagiados (até ao aparecimento da vacina), é recebido como uma bênção.

Quando, aos tr√™s anos,¬†sofre de uma febre cerebral, os pais tornam-se excessivamente protectores. Preocupado em tirar o¬†m√°ximo partido de um futuro que podia n√£o ter chegado a acontecer, depois de resolvido esse¬†susto maior, o pai de Tom√°s decide que o menino teria falta de ¬ęmuito de comer e nenhuma¬†instru√ß√£o¬Ľ

Fica assim justificada uma vida sem obrigatoriedade de estudos e, mais importante, recheada de um convívio com acontecimentos de adultos nada comum para uma criança na época. Tomás seguirá os pais - que não o queriam perder de vista - para todo o lado. Tal incluía convívios com a realeza e brincadeiras com os príncipes D. Carlos e D. Afonso, de quem era amigo.

Certa vez, no¬†Pal√°cio da Ajuda, Tom√°s de Mello Breyner sofre com o gozo das crian√ßas mais aristocr√°ticas do¬†que ele, por aparecer com fato de carnaval de tecido menos nobre e n√£o usar col√≥nia. √Č a pr√≥pria¬†rainha D. Maria Pia que vem em seu socorro, encharcando-o no seu melhor perfume. Grato pelo¬†ref√ļgio real, Tom√°s registou mais tarde a mem√≥ria desse dia nos seus di√°rios. E, claro, nunca¬†deixaria de ser um mon√°rquico convicto.

Como a criança fosse, afinal, crescendo saudável, impunha-se a normalização da sua vida. Termina a primeira instrução apenas aos 14, mas em três anos em vez de cinco. Embora tendo entrado tarde na vida do jovem doente (que deixou de o ser), a escolaridade parece ter agradado ao filho protegido. Estuda Medicina, especializa-se em doenças venéreas e torna-se médico da casa real logo em 1893, responsabilidade que mantém até ao final da monarquia.

O mimo e as aten√ß√Ķes com que foi abonado durante a doen√ßa grave que o atingiu¬†fizeram dele um homem carinhoso e especialmente atento aos outros.

¬ęParticularmente √© o melhor dos rapazes. Possue a nobre e santa faculdade de se admirar¬†sinceramente, √© d'estes a quem um bello verso, uma figura elevada, uma ac√ß√£o grande fazem humedecer os olhos de ternura. No sentir tem a mais absoluta indiferen√ßa pelo pedantismo¬†triunfante, a mais rija indigna√ß√£o s√≥ lhe vem deante do ego√≠smo burguez. √Č uma esp√©cie de Flaubert¬†educado, tal como o descreveu o grande E√ßa.¬Ľ

Sousa Martins sobre o av√ī de Sophia, Tom√°s de
Mello Breyner, 1897


O av√ī de Sophia foi dos primeiros estudiosos de maleitas femininas numa √©poca em que a¬†sexualidade era ainda motivo de segrega√ß√£o e preconceitos, n√£o se apoquentando com o nome¬†pouco aristocrata da sua especialidade. Oficialmente das doen√ßas ven√©reas, o servi√ßo hospitalar¬†que organiza desde 20 de Mar√ßo de 1897 para v√≠timas de s√≠filis e de padecimentos sexualmente¬†transmiss√≠veis rapidamente se torna conhecido como consulta das ¬ęmol√©stias vergonhosas¬Ľ.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

01
Out20

As aventuras de Jan, o bisav√ī de Sophia

andresen2.png@ www.falandodevinhos.com

Abandonado pelo capitão na Ribeira ou fugitivo de um navio comandado por um dinamarquês a que a sua guelra adolescente não queria submeter-se, com apenas 14 anos, Jan vê-se apátrida, sem casa nem família, num país de língua estranha, costumes católicos e gentes de tez morena.

Com tanto de aventuroso, como de temerário. Nem por isso demora a encontrar aquilo que procurava ou aquilo que o destino lhe ofereceu para procurar -  trabalho e oportunidades de negócio.

Porque o¬†garoto fosse despachado, soubesse algum ingl√™s, com li√ß√Ķes estudadas enquanto trabalhava no¬†campo, ou atraentemente ex√≥tico nos seus olhos azuis e cabelos claros, rapidamente consegue o¬†apoio de um comerciante da Ribeira, que lhe d√° um primeiro trabalho como ajudante numa loja de¬†candeeiros na Rua de S√£o Jo√£o.

A venda em vários pontos da cidade abre-lhe as portas para outras mercancias entre as duas margens do rio Douro. O vai e vem de gentes e mercadorias num dos portos mais movimentados do país depressa lhe sussurra ideias altaneiras, logo permitindo a expansão do circuito até a Galiza e à Alemanha.

Inicialmente com laranjas de Set√ļbal e corti√ßa,¬†depois vinho e cereais, provavelmente o principal neg√≥cio nos primeiros tempos. Bastou um ano¬†para adquirir uma embarca√ß√£o √† vela, que lhe permitiu investir na aquisi√ß√£o de uma quinta na¬†R√©gua, para produzir os seus pr√≥prios vinhos do Douro." Dos armaz√©ns de vinho do Porto na Ribeira¬†de Gaia √† tanoaria e destilaria foi s√≥ mais um rasgo de empreendedor. Jan torna-se um homem de¬†neg√≥cios dedicado √† compra, venda e transporte de mercadorias entre a Europa e a Am√©rica,¬†abrindo uma firma em Manaus, no Brasil, que tornar√° mais √°gil a exporta√ß√£o de vinhos.

No outro lado do Atl√Ęntico dedica-se¬†ao com√©rcio de borracha e cria uma carreira a vapor no rio Amazonas. √Č assim que escassos¬†cinco anos depois de desembarcar no cais da Ribeira, e com apenas 19 anos, cria a Companhia de¬†Vinho do Porto Andresen, ainda hoje existente, embora h√° muito entregue a outros propriet√°rios.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

28
Ago20

O conto ¬ęSaga¬Ľ¬†foi inspirado em Jan, o bisav√ī de Sophia

con1.png

Isabel Nery na biografia que esceveu sobre Sophia e que estou a ler neste momento conta que o conto Saga¬†foi inspirado em Jan, o bisav√ī de Sophia:

 

Al√©m de uma hist√≥ria de fam√≠lia, j√° passada de gera√ß√£o em gera√ß√£o, a aventura de Jan com o urso e a expuls√£o do navio inspiraram um dos textos mais claramente autobiogr√°ficos de Sophia, o conto ¬ęSaga¬Ľ, publicado no livro Hist√≥rias da Terra e do Mar, em 1984.

(...)

Em entrevista de 1985, Sophia admite que o conto ¬ęSaga¬Ľ nasceu de uma hist√≥ria de fam√≠lia:

O meu bisav√ī veio realmente de uma ilha na Dinamarca, embarcado √† aventura e foi assim que acabou por chegar ao Porto. O epis√≥dio da saga com o capit√£o, o do n√ļmero de circo com a pele de urso no cais, o abandono do navio - tudo isso aconteceu de facto.Tamb√©m s√£o verdadeiras as palavras que ele disse, mais tarde, a uma das netas: "O mar √© o caminho para a minha casa".

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

26
Ago20

Jan não só permaneceria em terra, como se fixaria nesse imprevisto apeadeiro

1024px-Porto_ships_c1835.jpg

Movimento de navios no rio Douro em 1835 @ pt.wikipedia.org

 

Sem surpresa, portanto, também Jan escolheu o mar. Talvez contra a vontade dos pais, talvez clandestino. Em 1840 embarca no navio Fanni que o fará acostar pela primeira vez o Porto, numa manhã de Verão.

Nem deveria ter pisado solo portugu√™s, impedido que estava pelas regras a que as embarca√ß√Ķes estrangeiras eram sujeitas. Mas, atra√≠do pela curiosidade ou levado por aquela energia que √© dada em demasia √†s mentes p√ļberes, arriscou sair. N√£o seriam mais de dois ou tr√™s passos a distar entre o solo de madeira da embarca√ß√£o e o ch√£o de pedra do cais. Mas mudaram-lhe o destino.

(...)

Nada disso podia imaginar o jovem insubordinado de 14 anos que, segundo reza a lenda familiar, acabaria expulso do barco pelo capitão, zangado com as habilidades e excentricidades do garoto. Debaixo de uma pele de animal selvagem, e sem saber falar português, gesticulou o que seria a encenação de uma caça ao urso. Os transeuntes gostaram tanto que foram atirando moedas. Não se sabe se as terá conseguido guardar ou se foi mesmo sovado pelo capitão, enraivecido com o espectáculo que encontrou de regresso ao navio. Sabe-se, sim, que Jan não só permaneceria em terra, como se fixaria nesse imprevisto apeadeiro. Até morrer.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
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Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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