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Livrologia

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11
Dez20

Não há dúvida que os deuses gostam de si, pelo menos tanto como os mortais

A base da democracia, lembrava Sophia, não eram as eleições, mas sim os direitos individuais. «E em Portugal é dificil as pessoas fazerem valer os seus direitos.»
(...)
Entre os abalos pessoais — o acidente do filho mais novo que testa a resiliência do casal- e os abalos profissionais, como a nomeação de Sophia para vários cargos depois do 25 de Abril enquanto o marido fica de fora,76 o divórcio torna-se inevitável. Mas serão precisos quatro anos para o juiz redigir a sentença que os separa judicial e definitivamente. O amigo Soares acredita que Sophia sempre teve grande amor por Tareco. Mas apanhou-o numa situação difícil que levaria à separação. O divórcio, mal aceite numa família católica, torna-se a única saída para uma «pessoa vertical e única de carácter, que tinha princípios e cumpria-os».
(...)
Para medos maiores (na sua hierarquia muito própria) e dúvidas sobre política recorria a Mário Soares. Além dos micróbios e do cancro, o que mais atormentava a poeta eram as quezílias domésticas com as empregadas domésticas, ao ponto de, perante a notícia de uma nova distinção ter afirmado: «Mas eu não quero um prémio. Para que quero um prémio? Eu queria era uma
empregada.»

Quando o telefone tocava às quinhentas, normalmente depois das duas da manhã, em casa de Manuel Alegre, já se sabia: só podia ser Sophia E o mais provável era o tema da conversa passar pelas arrelias com as funcionárias de limpeza, que lhe davam volta à cabeça, sobretudo quando deixou de poder contar com Luísa, uma coluna de Hércules da família.
(...)
Nem os mais próximos, como Miguel Torga, de quem se diz que tinha uma paixão platónica por Sophia, escapavam ao sarcasmo da poeta. Um dia, encontrando-o em Coimbra, Torga diz-lhe que queria escrever um poema sobre ela. Na volta recebeu uma daquelas suas respostas paralisa doras: «Logo agora que está a escrever tão mal!?»
(...)
O autor de Contos da Montanha acompanhara o crescimento da poeta enquanto jovem e conhecia-a bem. Em carta de 1957 escreve-lhe: «Não há dúvida que os deuses gostam de si, pelo menos tanto como os mortais.» Em entrevista de 2001, Sophia recorda como Torga lhe dizia que ela era sensível demais e isso lhe provocava sofrimento. No final dos anos 1970, Sophia listava o médico escritor entre os autores que mais admirava. Juntamente com Herberto Hélder, Luísa Neto Jorge. E Jorge de Sena.
(...)
Também Saramago era admirador confesso da poeta. «Olha a beleza disto», disse um dia o escritor a Pilar del Rio, quando estava no hospital, depois de uma operação. «lam e vinham e davam o nome às coisas», era o poema de dois versos de que Saramago tinha gostado. Mas nem a troca de galhardetes inibia Sophia de reagir com obstinação a todos e qualquer um que fizessem observações sobre o seu vício do tabaco. Notado por Saramago, valeu-Ihe um dos comentários arrasadores de Sophia: «Caro amigo, enquanto estou a fumar tenho os dedos ocupados e não estou a escrever patacoadas como muitos fazem.»

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

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