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Livrologia

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16
Jul19

O espelho


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No caminho passou em frente de um espelho e olhou-se

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

Dos três objectos que já tinha mencionado anteriormente, o espelho é o impulsionador da História da Gata Borralheira.

No conto tradicional o espelho é praticamente inexistente, mas Sophia assimilou-o do conto da Branca de Neve, dando-lhe a soberania de resposta à eterna interrogação: Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?

Sempre que Lúcia se depara com um espelho esse momento ganha sempre uma densidade irrespirável. O seu reflexo é-lhe intolerável, angustiante, ouso mesmo dizer, repugnante. O reflexo que o espelho lhe devolve é apenas a percepção dela própria que é completamente diferente da percepção que os outros têm dela:

- Não se veja nesse espelho. Faz muito má cara.

- A sua pele é linda e branca - atalhou a rapariga, e, ali, parece cinzenta. É melhor não olhar para lá.

O espelho reflecte a sua opinião, os seus pensamentos, as suas crenças. Sempre que se contempla nele, apenas vê um vestido feio, nunca a bela mulher que o veste.