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Livrologia

Livrologia

26
Mar20

Giambattista Basile e o seu fascínio pela cultura napolitana

gata.pngEsta semana tenho-me refugiado exclusivamente nesta viagem pelo mundo imaginário da Gata Borralheira. Na próxima semana, logo se verá.

Enquanto as outras viagens esperam pacientemente pela sua viajante, parti em busca de pormenores equidistantes entre o mundo encantado e o mundo real. Talvez opostos, talvez complementares na sua antítese, não importa.

Fascinado pelo folclore, pelos costumes, literatura, m√ļsica e dialeto napolitanos, Giambattista Basile come√ßou a estudar seriamente a cultura napolitana, coleccionando os seus contos populares, reunindo-os numa colec√ß√£o¬†-¬†Lo cunto de li cunti - inteiramente escrita em napolitano, que viria a tornar-se na fonte de inspira√ß√£o para escritores posteriores como Charles Perrault e os Irm√£os Grimm.

25
Mar20

A m√£e do outro lado do espelho

conversatorio1.png

As madrastas têm uma presença muito forte no fabulário de vários contos, da Branca de Neve à Gata Borralheira.

Nos tempos idos a morte das m√£es no parto era frequente¬†e os vi√ļvos eram obrigados a casar novamente para n√£o terem de cuidar dos filhos sozinhos, o que implicava aceitar a inevitabilidade deles virem a ser maltratados pelas madrastas.

Apesar da palavra madrasta derivar da palavra "mãe", a primeira sílaba está muito próxima da sonoridade de "má" e "maldade". Arrisco dizer que a madrasta seria a mãe do outro lado do espelho, com todos os defeitos, todos os vícios, todas as fraquezas levadas ao extremo e que uma mãe não pode ter.

25
Mar20

Tendo o rei visto tal coisa, correu a apertá-la nos braços

Mas, terminado o bate-dente, vem-se √† prova da chinela, que mal foi aproximada do p√© de Zezolla lan√ßou-se para cal√ßar aquele ovo pintado do Amor, como o ferro corre para o √≠man. Tendo o rei visto tal coisa, correu a apert√°-la nos bra√ßos e, fazendo-a sentar-se sob o dossel, p√īs-lhe a coroa na cabe√ßa, ordenando a todos que se inclinassem e lhe prestassem rever√™ncia como √† sua rainha.

 

in A Gata Borralheira por Giambattista Basile

Gata Borralheira e Contos Similares de Francisco Vaz da Silva

24
Mar20

N√£o uma, mas duas madrastas

gata.pngA viagem pelo mundo da Gata Borralheira continua, apesar das pequenas paragens desta carruagem para a sua autora respirar.

Desta vez estou de visita a Giambattista Basile e à sua versão d' A Gata Borralheira que revela o lado perverso da maternidade de uma forma inesperada, mais do que qualquer outra versão.

Em Giambattista Basile, com a morte da mãe biológica, a Gata Borralheira ganha o seu espaço como mulher, mas por pouco tempo. O aparecimento da madrasta anula a sua afirmação feminina, lançando-a para um mundo de conflito, separação e desencontro. Nunca encontrará na madrasta a cumplicidade, a aproximação e o encontro maternal que tanto anseia, ficando orfã não só do seu poder feminino, mas também de mãe.

Não deixa de ser surpreendente e até chocante - ou talvez não! - que neste conto de Giambattista Basile a Gata Borralheira mate a primeira madrasta - sim, há duas madrastas! - escolhida pelo próprio pai e com quem não se identificava:

"Segura a tampa."

E tu, segurando-a enquanto ela estiver a vasculhar lá dentro, deixa-la cair para que lhe parta o pescoço.

 

Escolhe ela própria a segunda madrasta, a mestra costureira, alguém com quem sente afinidade maternal, convencendo o pai a casar com ela:

Mas tanto a filha porfiou que um dia acertou e ele acabou por se render à persuasão de Zerolla e tomou Carmosina, que era a mestra, como mulher e fez-se festa grande.

23
Mar20

Não apenas mudou de estatuto, como também de nome

Deixou cair do coração a própria filha; tanto que, maltratada hoje, manca amanhã, acabou por ser reduzida do salão à cozinha, do dossel à lareira, dos sumptuosos tecidos em seda e ouro às esponjas da loiça, dos cetros aos espetos.

Não apenas mudou de estatuto, como também de nome - já não lhe chamavam Zezolla, mas sim Gata Borralheira.

 

in A Gata Borralheira por Giambattista Basile

Gata Borralheira e Contos Similares de Francisco Vaz da Silva

23
Mar20

Se não posso chegar à planta, venero as raízes

¬ęToca, cocheiro!¬Ľ e eis que se p√īs a carruagem a correr com tanta f√ļria e foi t√£o grande a corrida que lhe caiu uma chinela, a mais magn√≠fica coisa que se pudesse ver. O criado, n√£o conseguindo apanhar a carruagem que voava, recolheu a chinela e levou-a ao rei, contando-lhe o sucedido.

O qual, tomando-a nas mãos, disse: 

¬ęSe o alicerce j√° √© assim t√£o belo, o que n√£o ser√° a casa? √ď belo candelabro onde foi colocada a vela que me consome! √ď trip√© do belo caldeir√£o onde ferve a minha vida! √ď bela corti√ßa presa √† linha do amor que pescou esta alma! Eis que vos abra√ßo e aperto; se n√£o posso chegar √† planta, venero as ra√≠zes e se n√£o posso ter os capit√©is beijo a base! J√° fostes epit√°fio de um alvo p√© e agora sois a armadilha de um cora√ß√£o negro. Gra√ßas a v√≥s era um palmo e meio mais alta aquela que tiraniza esta vida; e por v√≥s cresce outro tanto em do√ßura esta vida enquanto vos contemplo e possuo.¬Ľ

 

in A Gata Borralheira por Giambattista Basile

Gata Borralheira e Contos Similares de Francisco Vaz da Silva

22
Fev20

A viagem pelo mundo da Gata Borralheira pela m√£o de Sheh Hsien

gata.pngPediu-lhe que cal√ßasse o sapato. Ent√£o Sheh Hsien vestiu-se com o belo vestido azulado, p√īs os sapatos e apresentou-se ao rei.

~ Sheh Hsien ~

 

A variante d' A Gata Borralheira na China intitula-se Sheh Hsien. Surge num livro - Yu Yang Tsa Tsu - do século IX e é um dos contos d' A Gata Borralheira mais antigos que se conhece.

H√° dois pormenores que achei interessantes nesta variante.

Um deles √© a n√£o exist√™ncia de uma fada-madrinha, mas de um peixe. Na mitologia chinesa o peixe √© um s√≠mbolo de prosperidade e abund√Ęncia e, neste conto, s√£o os ossos do peixe que¬†concretizam os desejos de Sheh Hsien:

Se quiseres algo, só tens de pedir aos ossos. O teu desejo será realizado.

 

O segundo é o modo como procuram pelo pé que calçava o sapato perdido:

O rei pediu aos s√ļbditos que o experimentassem, mas o sapato era uns bons tr√™s cent√≠metros demasiado curto; ent√£o ele pediu a todas as mulheres do reino que o cal√ßassem, mas o sapato n√£o servia a nenhuma.

Era leve como uma pena e n√£o fazia barulho mesmo ao andar sobre pedra.

2019 foi o ano que escolhi para ler Sophia de Mello Breyner
Visitem o mundo encantado de Sophia
Em 2021 irei ler Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A Miss X aceitou o Desafio de Escrita dos Pássaros pela 2.ª vez!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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