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Livrologia

Livrologia

13
Mai24

Os macacos e até as formigas conhecem as respostas, ignoram as perguntas

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Era j√° assim quando o conheci.

Na Faculdade, era algu√©m muito especial, reconhecido pela intelig√™ncia e pelo saber. Nos intervalos das aulas, formava-se em volta dele um grupo de rapazes ‚Äď dos poucos que l√° andavam ‚Äď e algumas raparigas interessados em escutar um colega mais velho ‚ÄĒ Augusto Abelaira andara primeiro em Direito ‚ÄĒ conhecedor de coisas com que eles nem sonhavam.

“Os verdadeiros homens, escreveu no seu livro Não Só Mas Também, são as crianças. Quando crescem deixam de perguntar, esquecem-se da sua humanidade, regressam aos macacos. Os macacos e até as formigas conhecem as respostas, ignoram as perguntas. As respostas variam com os tempos, só as perguntas permanecem, embora possam mudar de sentido“.

13
Mai24

Porquê esse pavor do desconhecido

Olha de novo.

Eva: a face deformada, gritando acerca do que n√£o conhece.

Ad√£o: o medo de abrir os olhos, de ver as coisas de frente.

Conhecem, conhecem vocês o que vos espera? Porque choras tu se não conheces, porque fechas os olhos se não viste ainda o mundo?

E aí estão os dois, os olhos cerrados para a realidade, chorando a realidade que não viram. Porquê esse pavor do desconhecido, esse pavor que nos ficou colado à pele? E abriram eles, alguma vez, os olhos, abrimos nós, alguma vez, os olhos?

Isso: eis-nos a chorar, e de olhos fechados, por um mundo que consider√°mos mau muito antes de olharmos para ele.

in A Cidade das Flores (1959) de Augusto Abelaira

04
Mai24

Porque para ele tudo poderia ser o mesmo e o contr√°rio

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Porque Abelaira, como ser √©tico que era, reconhecia aos amigos direitos mais do que deveres e nessa medida permitiu afetos, lealdades, cumplicidades. E sobretudo o prazer, cada vez mais raro neste tempo em que se privilegia a seguran√ßa da certeza e as grandes inquieta√ß√Ķes est√£o banidas, a par da partilha do gosto de discorrer, de inquirir, de p√īr em causa o √≥bvio.¬†Ou o que √© considerado √≥bvio.

Com ele tudo podia ser objeto de discussão. Porque para ele tudo poderia ser o mesmo e o contrário. No plano das ideias, considerava que era absolutamente proibido… proibir.

27
Abr24

Ternuras, mimos, palavras doces, que lhe ouvisse só para gatos

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Na rua, caminhavam lado a lado, sem dar o bra√ßo. At√© porque do bra√ßo dele pendia um guarda-chuva que mantinha uma dist√Ęncia regimental.

O namoro acabou, n√£o sei quando. Mas ao longo da vida esse guarda-chuva perdurou, n√£o como objeto utilit√°rio, mas como reserva de privacidade, resguardo de emo√ß√Ķes que Augusto Abelaira s√≥ deixava transparecer relativamente a acontecimentos ou ideias. Muito raramente em rela√ß√£o a pessoas. Ternuras, mimos, palavras doces, que lhe ouvisse s√≥ para gatos.
E, no entanto sabíamos que era um homem sensual.

Da√≠ que agora, depois do seu desaparecimento, rememorando os anos de conv√≠vio e relendo o que escreveu, n√£o resista a um pequeno exerc√≠cio mental tanto a seu gosto e me interrogue sobre se para ele os amigos foram verdadeiramente amigos, se os amores foram verdadeiramente amores ou simplesmente personagens √ļteis ao di√°logo que ele manteve com o mundo, esse mundo que ele questionou incessantemente. Personagens √†s vezes simp√°ticas, fascinantes, mesmo. Outras terrivelmente ma√ßadoras.

Augusto Abelaira não escondia o fastio do tributo a que o convívio o obrigava.

20
Abr24

Augusto Abelaira tinha na altura uma namorada

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O que era aparentemente contraditório: assumir, em muitos aspetos, uma imagem de outros tempos, sendo um homem enamorado do futuro.

E vem-me ent√£o √† mem√≥ria uma das primeiras recorda√ß√Ķes que dele guardo quando, vinda do Liceu Franc√™s, onde dominava o esp√≠rito da liberdade, mergulhei no ambiente sufocante da Faculdade de Letras de Lisboa.

Augusto Abelaira tinha na altura uma namorada, uma jovem morena de aspeto recatado que ele acompanhava no fim das aulas. Digo ‚Äúnamorada‚ÄĚ, embora entre eles n√£o se tivesse jamais notado qualquer manifesta√ß√£o de intimidade, nem sequer de ternura e menos ainda de amor.

Quanto mais leio menos sei
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