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Livrologia

Livrologia

28
Jan23

A ideia de que o escritor é assim um génio pela graça dos deuses

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Bem, isso vem, em grande parte, de que, em Portugal, ainda existe, e existiu, e em grande parte desde o Romantismo, a ideia de que o escritor é assim um génio pela graça dos deuses, e que quanto mais analfabeto seja mais o génio sai puro.

Acontece que quando um sujeito é analfabeto o que sai é analfabetismo, não pode sair outra coisa, porque não tem lá mais nada para dizer à gente. E mesmo que tenha para dizer à gente ele não sabe como é que há-de dizer, e sai tudo errado, sai tudo trocado, sai tudo coxo, etc. As pessoas gostam muito porque isso é precisamente o sinal do génio, mas o pior é o que acontece aos génios.

Eu lembro sempre aquela frase famosa de Fernando Pessoa que dizia assim: ¬ęEm Portugal, os poetas produzem como Deus √© servido, e Deus fica mal servido.¬Ľ

 

Excerto da entrevista Rádio Clube de Moçambique, 19 de Julho de 1972 por Leite de Vasconcelos (difusão proibida pela censura)

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

27
Jan23

Uma das fun√ß√Ķes da cr√≠tica n√£o √© apenas acreditar

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A cr√≠tica tem uma grande tend√™ncia para acreditar nas proclama√ß√Ķes dos escritores sem verificar se as proclama√ß√Ķes acertam com as obras e vice-versa. E, na realidade, uma das fun√ß√Ķes da cr√≠tica n√£o √© apenas acreditar nisso; √© verificar se essas coisas s√£o verdades. Mas a nossa cr√≠tica est√° t√£o ocupada em verificar se as pessoas cabem na bitola ou n√£o cabem na bitola, que n√£o tem tempo para verificar essas coisas.

 

Excerto da entrevista Rádio Clube de Moçambique, 19 de Julho de 1972 por Leite de Vasconcelos (difusão proibida pela censura)

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

26
Jan23

O grande drama da literatura portuguesa foi sempre um grande afastamento da realidade concreta

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Eu diria o seguinte: primeiro que tudo, eu creio que, salvo em raros momentos excepcionais, o grande drama da literatura portuguesa - e é, até certo ponto, a teoria que eu tenho dela - o grande drama da literatura portuguesa foi sempre um grande afastamento da realidade concreta, e que resulta das próprias estruturas sociais do nosso país.

Acontece, e isso vê-se até mesmo nos escritores que pretendem ser mais populistas, que, de um modo geral, as pessoas, quando se tornam escritores, imediatamente, ou automaticamente, do ponto de vista social, deixam de ser povo. E quando deixam de ser povo, automaticamente deixam de saber como é que o povo fala e vive. Daí resulta grande parte do artificialismo que mesmo o maior realismo português usualmente tem. Vem de as pessoas realmente terem perdido contacto com a realidade social imediata, para passarem a vê-la sob o prisma dos níveis oligárquicos de que passaram a fazer parte.

E isto aplica-se a toda a gente, de todas as cores e feitios, que todos sofrem ou têm sofrido da mesma doença. Só os grandes, realmente, os muito grandes, são os que conseguiram ultrapassar esse drama.

 

Excerto da entrevista Rádio Clube de Moçambique, 19 de Julho de 1972 por Leite de Vasconcelos (difusão proibida pela censura)

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

25
Jan23

A gente acaba por medir as coisas boas pelo nível da porcaria, não é?

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E se agente passar a vida todas as semanas a ler 80% de porcarias e 20% de obras boas, a gente acaba por medir as coisas boas pelo nível da porcaria, não é?

 

Excerto da entrevista Rádio Clube de Moçambique, 19 de Julho de 1972 por Leite de Vasconcelos (difusão proibida pela censura)

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

24
Jan23

Quando a gente está de longe vê-se melhor, corrigem-se melhor as coisas

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Bem, eu creio o seguinte: que quando nós estamos de longe temos pelo menos uma possibilidade que é escapar àquele problema que sempre existe de, no meio da floresta, não se ver a floresta por causa das árvores. E também aos erros de perspectiva que faz a gente julgar que uma árvore pequenina que está ao pé de nós é muito grande, e que uma árvore muito grande que está longe de nós  é muito pequenina. E é exactamente isso: quando a gente está de longe vê-se melhor, corrigem-se melhor as coisas.

Excerto da entrevista Rádio Clube de Moçambique, 19 de Julho de 1972 por Leite de Vasconcelos (difusão proibida pela censura)

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

23
Jan23

As línguas pertencem a quem as fala e a quem as escreve

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√Č uma outra verdade de que em Portugal muita gente ainda n√£o se convenceu: as l√≠nguas pertencem a quem as fala e a quem as escreve - n√£o aos gram√°ticos.

Os povos não falam bem nem mal: falam. E, se eles não falassem, a língua não havia.

 

Excerto da entrevista Notícias, Lourenço Marques, 16 de Julho de 1972 por Filipe Vieira

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

21
Jan23

De resto, o americano n√£o tem o culto da biblioteca

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A América, proporcionalmente à população, não lê tanto como Portugal. Parece uma afirmação sensacionalista, mas é assim.

O americano l√™ muitas revistas do tipo magazine e jornais locais, mas s√≥ compra livros quando estes se tornam importantes e entram no circuito das edi√ß√Ķes populares.¬†Neste caso, atingem enorme expans√£o.

De resto, o americano n√£o tem o culto da biblioteca.

Quando eu vim da Universidade de Wisconsin para Santa Barbara, pus como condi√ß√£o, no contrato, que a universidade devia encarregar-se do transporte dos in√ļmeros livros que comp√Ķem a minha biblioteca pessoal. Este meu pedido causou uma verdadeira surpresa em Wisconsin. Nunca algum professor tinha formulado semelhante pedido. E chegaram a dizer-me: mas porque n√£o vende os seus livros aqui em Madison e, depois, compra outros em Santa Barbara? √Č claro que esta atitude, que um intelectual europeu recebe com um choque, tem uma explica√ß√£o. Os americanos possuem bibliotecas p√ļblicas magn√≠ficas e em grande n√ļmero. Qualquer livro pode ser requisitado para casa pelo cidad√£o sem o menor encargo. As bibliotecas das universidades s√£o complet√≠ssimas. O americano pensa: para qu√™ ter em casa uma biblioteca que ocupa espa√ßo, se tenho todos os livros que quiser na biblioteca p√ļblica?

Nós não pensamos assim.

 

Excerto da entrevista Diário Popular, Lisboa, 30 de Junho de 1971 por Nuno Rocha

in Entrevistas 1958-1978, edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

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A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
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