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Livrologia

Livrologia

13
Mar21

Devaneios artísticos que provocaram muita discórdia familiar

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As mulheres n√£o s√£o todas iguais, mas as circunst√Ęncias ainda as tornam mais desiguais. As circunst√Ęncias moldam-nas, tornando-as figurantes em hist√≥rias, quando na realidade foram personagens principais, silenciosas e silenciadas.

Maria da Luz Grilo de Sena era invisível como mulher, mas transgrediu a sua invisibilidade, criando uma das mais imponentes figuras literárias portuguesas, o seu filho, Jorge de Sena.

Maria da Luz teve s√©rias dificuldades em revelar-se como mulher. N√£o bastassem os tempos em que viveu, em que √†s mulheres lhes eram negados os direitos mais b√°sicos como seres humanos, viu-se na inevitabilidade de se restringir a um contexto familiar dominado por figuras autorit√°rias e militares. O marido sempre ausente, embarcado em miss√Ķes militares, e condicionada pelos valores patriarcais da sociedade da √©poca, Maria da Luz vivia numa claustrofobia da qual queria libertar o seu filho.

Por ele e com ele foram cometidas transgress√Ķes¬†na literatura, na m√ļsica e outros devaneios art√≠sticos que provocaram muita disc√≥rdia familiar.

03
Mar21

Sena e a avó Isabel

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Com uma inf√Ęncia t√£o solit√°ria Sena acabou por n√£o resistir ao fasc√≠nio dos livros. A leitura chegou pelas m√£os da m√£e e da av√≥, as mulheres que o incentivaram a amar a leitura e a literatura. Especialmente a av√≥ Isabel que adorava literatura policial e fazer palavras cruzadas, gostos que acabaram por contagiar o neto.

Quero crer que foi este amor pela leitura que provocou o seu acto de escrita e, por extensão, o amor à literatura que o fizeram dedicar-se ao seu estudo. E talvez aquele gesto especial por parte da avó, a oferta de um caderno que lhe serviu de diário durante a viagem de cadete da Marinha, tenha sido o gesto que terá despertado a sua genialidade.

 

Isabel, a grande figura tutelar da sua inf√Ęncia e¬†juventude e ¬ędas pessoas de quem terei sempre¬†saudade¬Ľ.

Matriarca da fam√≠lia, mulher extremamente organizada e met√≥dica, tocava e compunha¬†m√ļsica, fazia versos, era, tal como a filha, uma¬†premiada charadista, tinha lugar cativo no cinema Capit√≥lio, assinava a revista Cin√©filo, era uma¬†amante de literatura policial ‚ÄĒ tudo gostos que¬†Jorge de Sena herda, incluindo o das palavras¬†cruzadas. √Č ainda ela quem, atenta √† voca√ß√£o do¬†neto, lhe oferece um caderno, quando ele parte¬†para a viagem de cadete da Marinha, para lhe servir de di√°rio.

in O Essencial sobre Jorge de Sena de Jorge Fazenda Lourenço

02
Mar21

Um solit√°rio totalmente fascinado pelos livros

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Jorge de Sena era filho de um comandante da marinha mercante e de uma dona-de-casa, ambos de famílias da alta burguesia. O pai, descendente de uma linhagem aristocrática de militares e altos funcionários. A mãe, de comerciantes ricos do Porto.

A sua inf√Ęncia nunca a considerou muito feliz, nem vivida plenamente como crian√ßa que era e queria ser. A solid√£o levou-o pelos caminhos da introspec√ß√£o e da imagina√ß√£o, muito bem acompanhado pelos livros, a sua primeira paix√£o.

 

A sua inf√Ęncia¬†de ¬ęfilho √ļnico e tardio¬Ľ, como ele mesmo dir√°,¬†sem amigos, salvo primos e primas, com quem¬†raramente brincava, muito protegido pela m√£e¬†e com um pai largamente ausente, foi extremamente solit√°ria.

Numa entrevista¬†de 1976, a um jornal de Los Angeles, o poeta¬†confessa: ¬ęera um solit√°rio [...], totalmente fascinado pelos livros¬Ľ, cuja leitura fora¬†incentivada pela m√£e e pela av√≥ materna.

in O Essencial sobre Jorge de Sena de Jorge Fazenda Lourenço

17
Fev21

Em Pushkin corria pelas suas veias um misto de nobreza e de escravid√£o

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Muitos ainda desconhecem que houve na R√ļssia do s√©culo XIX um grande escritor de origem negra: Aleksandr Pushkin.

O cabelo crespo e os lábios grossos herdou-os da sua descendência africana. Os próprios russos ocultam esse facto e em muitas das suas biografias não se encontra mencionado.

Em Pushkin corria pelas suas veias um misto de nobreza e de escravid√£o.

Enquanto que pelo lado paterno herdou seiscentos anos de nobreza, do lado materno herdou a hist√≥ria do seu trisav√ī que em 1703 foi capturado e vendido ao Sult√£o de Constantinopla como escravo que, por sua vez, o vendeu √† corte de S√£o Petersburgo, onde foi apadrinhado pelo czar Pedro, o Grande.

Porque é tão importante mencionar a sua descendência africana? 

Porque √©¬†a hist√≥ria deste seu trisav√ī que estou a ler neste momento em¬†Peter the Great's Negro, que infelizmente permaneceu inacabada por Pushkin.

25
Jan21

A Escrava que não é Isaura versus A Escrava Isaura

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A nove p√°ginas do fim dest' A Escrava que n√£o √© Isaura que tem acompanhado os meus dias friorentos e, antes de ler a √ļltima p√°gina, queria desmistificar a coincid√™ncia (ou a n√£o coincid√™ncia) deste t√≠tulo com o do livro de Bernardo Guimar√£es A Escrava Isaura.

Aliás, não há coincidência, mas um propósito de Mário de Andrade ao intitular este seu livro com uma analogia à obra de Bernardo Guimarães.

A Escrava Isaura surgiu em 1885, oito anos antes do nascimento de Mário de Andrade que, ao escrever a sua  Escrava que não é Isaura, nunca teve qualquer intenção de criticar ou comentar a obra de Bernardo Guimarães.

O √ļnico ponto que os une √© o conceito de escravid√£o, em que para M√°rio de Andrade a escrava √© a poesia, por isso n√£o √© a Isaura, a mulher, como foi para Bernardo Guimar√£es.

Aliás, Mário de Andrade na sua parábola, que consta das primeiras páginas do livro, compara a poesia com Eva, a primeira mulher bíblica.

Segundo ele, o primeiro homem, depois da cria√ß√£o de¬†Eva, plagia¬†Deus¬†tirando da¬†l√≠ngua¬†uma¬†mulher que ficou nua no topo de um monte.¬†Ad√£o¬†envergonhou-se da sua nudez e colocou-lhe uma parra. Depois passou¬†Caim¬†e cobriu-a com um ‚Äúvelocino alv√≠ssimo‚ÄĚ.

As¬†gera√ß√Ķes seguintes continuaram a exacerb√°-la com vestes e adere√ßos in√ļteis at√© que um dia passa um vagabundo,¬†Rimbaud, que d√° um pontap√© no monte, onde estava Eva (a poesia), e f√°-lo desmoronar. E assim surgiu a poesia em toda a sua nudez e esplendor, a mulher¬†"escandalosamente nua" que os poetas modernos come√ßaram a reverenciar.

24
Jan21

Qual ter√° sido o momento exacto?

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Qual terá sido o momento exacto, aquele momento mágico, quase místico, que terá levado Sena a escrever o primeiro poema?

Segundo Jorge Fazenda Lourenço no seu O Essencial sobre Jorge de Sena, esse momento ocorreu na adolescência:

√Č proverbial o epis√≥dio da apari√ß√£o da poesia ao adolescente Jorge de Sena. Tudo aconteceu em 1936, ap√≥s a audi√ß√£o radiof√≥nica de uma pe√ßa de Debussy mais tarde evocada em Arte de M√ļsica. Decerto precedida de muitos outros contactos musicais esta experi√™ncia revestiu-se, contudo, de um car√°cter origin√°rio e singular.

Foi assim que surgiu o primeiro poema de Jorge de Sena Desengano que pode ser encontrado no livro Post-Scriptum II.

Foi todavia o momento decisivo no destino de um dos maiores poetas de língua portuguesa, porque representou, como em todo o tipo de primícias, a experiência vivida do sensível no máximo da sua glória.

20
Jan21

Telles de Abreu, o pseudónimo de Sena que poucos conhecem

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Enquanto leio os poemas de Sena a curiosidade aguça-se, de tal modo, que muitas vezes interrompo a leitura para pesquisar respostas para os meus devaneios literários. Por isso é que demoro tanto tempo - demasiado, até - a ler um simples livro.

Estou na p√°gina 49 e escondo o marcador por entre as p√°ginas e delas exala um aroma a antigo, cheiro de outros tempos que n√£o os meus.

Parto à descoberta de uma curiosidade que não me larga, que insiste em entrar pelos poemas adentro, desarrumando os versos que tento ler: porque é que Sena assinou sob pseudónimo os seus primeiros poemas?

Sena desde os 16 anos que escrevia, mas só em 1940 publicou os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia. 

Mas não assinou o nome com que o conhecemos. Assinou com o pseudónimo Telles de Abreu.

N√£o s√≥ porque eram apelidos que constavam da sua identidade -¬† Jorge¬†C√Ęndido Alves Rodrigues¬†Telles¬†Grilo Raposo de¬†Abreu¬†de¬†Sena -, mas talvez para se proteger da fam√≠lia, que com uma grande tradi√ß√£o militar considerava que a voca√ß√£o para as artes, para a literatura, para a m√ļsica, estaria reservada para o sexo feminino.

16
Jan21

O Brasil de M√°rio de Andrade

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No in√≠cio dos anos 1920, o Brasil tinha todas as condi√ß√Ķes ‚Äúpara n√£o ser moderno, a come√ßar pela mais b√°sica, a educa√ß√£o‚ÄĚ, analisa o bi√≥grafo de M√°rio de Andrade.

A sociedade, sobretudo agrária, era majoritariamente analfabeta, sustentada pela monocultura agroexportadora do café e dominada na política pelas oligarquias, principalmente de São Paulo e Minas Gerais, que, com a política do café com leite se revezavam no poder, por meio do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM).

N√£o votavam mulheres, religiosos, militares e analfabetos. E estes eram muitos: alcan√ßavam 71,2% de uma popula√ß√£o de 30,6 milh√Ķes.

Sob o impacto da Primeira Guerra, o mundo revirava ao avesso, afundado na dura realidade que enterrava o otimismo e o sonho de expansão da belle époque.

O sentimento do nacionalismo passa a ser exaltado pelos pa√≠ses envolvidos no conflito. Esse clima alcan√ßou o Brasil, que enfrentava quest√Ķes sociais agudas, greves nas principais cidades do pa√≠s com a emerg√™ncia do movimento oper√°rio.

A intelectualidade e a sociedade estavam polarizadas: em 1922, ano em que era fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB), também nascia o Centro Dom Vital, de orientação católica.

O país enfrentava a rebelião tenentista do Forte de Copacabana, assistia ao lançamento, no Planalto Central, da pedra fundamental daquela que seria a futura capital.

‚ÄúTudo isso era um novo tempo. M√°rio e seu grupo foram espectadores e agentes dessas transforma√ß√Ķes‚ÄĚ, informa T√©rcio.

Bertha Maakaroun in Entrevista a Jason Tércio, biógrafo de Mário de Andrade www.em.com.br

A leitura em todo o lado

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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