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Livrologia

Livrologia

28
Jul21

Tínhamos alergia às ditaduras

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Nesta fase da leitura de Sena j√° o conhecemos suficientemente bem para adivinhar qual a sua postura perante a ditadura.

Um inconformista e um humanista Jorge de Sena chegou a envolver-se numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista em 1959 - o Golpe da Sé -  partindo voluntariamente para o exílio nesse mesmo ano, nunca mais regressando a Portugal de forma definitiva.

Jorge de Sena partiu em 1959 para o exílio, porque estava "coarctado" na sua liberdade. "Saímos para ele escrever sem pensar nos limites que lhe eram impostos", explica a sua mulher. 

Jorge de Sena exilou-se ent√£o voluntariamente no Brasil, onde chegou a 7 de Agosto. "Passou a ter condi√ß√Ķes de vida e de trabalho que potenciaram a sua criatividade", diz Jorge Fazenda Louren√ßo, especialista na obra deste autor.¬†

Nos anos seguintes, "ir a Portugal era um jogo", porque entre 1959 e 1968 "tinha ordem de prisão", conta Mécia de Sena. Saíram do Brasil por causa do golpe militar em 1964. "Tínhamos alergia às ditaduras. Saímos do Brasil também por causa da ditadura", explica Mécia.

in P√ļblico

24
Jul21

Como é que um crítico reage à crítica?

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Por que entristeço ao ler o que de meus

versos escrevem se não é de mim

que escrevem?

Ser√° que chora em mim o que meus versos foram

antes de ser meus?

Por que pergunto, se já sei por quê?

~Jorge de Sena~

 

Jorge de Sena foi um homem intelectualmente insaci√°vel, nunca se contentando, querendo sempre mais:

Senhor de uma insaci√°vel curiosidade intelectual¬†‚ÄĒ ¬ętudo quanto √© humano me interessa¬Ľ¬†(E, 441) ‚ÄĒ, Jorge de Sena sempre colocou a par¬†da poesia todos os outros dom√≠nios da sua vasta¬†forma√ß√£o cultural. Da literatura √†s artes pl√°sticas,¬†do teatro e do cinema √† m√ļsica, da hist√≥ria e das¬†ci√™ncias √† filosofia, para este humanista cr√≠tico¬†¬ęa cultura √© livre discuss√£o e esclarecimento e¬†conquista pessoal da liberdade de reflex√£o e express√£o¬Ľ (RE, 163), n√£o uma aquisi√ß√£o passiva de¬†conhecimentos, para satisfa√ß√£o pr√≥pria, e sim uma¬†articula√ß√£o de saberes, dos seus dom√≠nios aparentemente¬†d√≠spares e distantes, numa vis√£o de mundo¬†integradora de tudo.

in O Essencial sobre Jorge de Sena de Jorge Fazenda Lourenço

Homem culturalmente superior e sendo uma dos autores centrais da poesia portuguesa do século XX, Sena afastou-se das correntes literárias em voga no seu tempo, buscando inovar e inovar-se.

Lamentando-se constantemente do n√£o reconhecimento da sua obra pelos seus pares, o poeta sofre ainda hoje de uma certa invisibilidade cr√≠tica e liter√°ria. Poder√≠amos acusar a sua pr√≥pria superioridade intelectual que raiava os limites da arrog√Ęncia ou os seus coment√°rios sarc√°sticos e impiedosos que visavam tudo e todos, aniquilando assim qualquer r√©stia de venera√ß√£o que lhe poderiam votar.¬†

Com certeza que os leitores de Sena serão avessos a tudo isso, mas concordarão comigo num ponto: Sena não é um autor fácil. E ainda bem que não o é.

Tudo o que escreve é monumental e exige aos seus leitores uma condição perpétua de inquietação: a de sentirem que pouco o leram, quando o leram tanto.

22
Jul21

Quem diz a verdade n√£o merece castigo

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Sei que a Sena lhe atribuíram o epíteto de arrogante, mas ele foi acima de tudo um provocador, mais do que um rebelde, um indomável.

O sarcasmo era a sua pele, alérgica a conveniências, a interesses de ocasião e à submissão ditatorial. Não se calava e não se deixava calar. O silêncio nunca o definiu. Em 1978, o Times descreveu-o  como uma espécie de formidável touro, à solta num armazém de loiça.

Semeou ventos, colhendo muitas tempestades e nunca perdoou a vileza, as invejas, a troca de favores, os despropósitos, a mediocracia de Portugal, o Reino da Estupidez. 

Sena foi persona non grata por querer mais e melhor para o seu país e para a sua cultura, especialmente por dizer a verdade que todos queriam esconder.

18
Jul21

Sena n√£o foi um intelectual de p√ļlpito

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Jorge de Sena viveu uma fase de constantes dificuldades económicas, terminando o curso com a ajuda financeira de amigos, terminando o estágio do curso de Engenharia em 1946. 

Em 1948 entra para a Junta Autónoma de Estradas, onde trabalhará até ao seu exílio no Brasil.

Não só este trabalho lhe proporcionou a estabilidade económica que tanto necessitava, mas também lhe permitiu viajar por todo o Portugal, conhecendo todos os recantos da realidade de um país abandonado à mercê da ditadura que tanto abominava e contra a qual sempre lutou.

Sena n√£o foi um intelectual de p√ļlpito e manteve a sua profiss√£o a par e par com a sua escrita, o que lhe permitiu manter a lucidez perante uma realidade portuguesa que os intelectuais da capital recusavam conhecer. Para isso tinham que percorrer caminho que talvez fosse demasiado empoeirado e pedregoso para a sua superioridade intelectual.

As viagens pela sua terra despertaram ainda mais o espírito irrequieto e inconformista de Sena, acentuando a sua veia satírica, de escárnio e maldizer, que alimentou ao longo da sua vida, e que a elite intelectual tanto abominou.

13
Jul21

O ano da sua metamorfose, de mero ser humano a autor

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1938 foi o ano que Jorge de Sena marcou na sua vida como o ano da sua metamorfose, de mero ser humano a autor. 

Sena escreveu simultaneamente em prosa e em verso, apesar de se assumir acima de tudo poeta. Escreveu poesia, teatro, ficção e ensaio, todos eles se entrecruzando de alguma forma, daí ser tão importante ler toda a sua obra para a melhor compreender.

Aliás, a sua criatividade raia os limites do divino, não só porque Sena sempre se dedicou à experimentação em diversos géneros literários e temas, mas também porque sempre quis escrever mais além.

Situo Jorge de Sena entre os escritores, raros, que procuram a totalidade e não um ou outro dos seus aspectos. Esta procura o obrigou ao poema e à tragédia, ao conto e à farsa, à crítica e ao ensaio, e em cada uma destas formas a descobrir as diversas faces com que a totalidade o chama.

José Bento in O Tempo e o Modo, 1968

14
Mai21

Para mim o Mar foi o que deve ter sido para muito poucos

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Na vida de Sena houve sempre uma clara divis√£o, arrisco dizer um campo de batalha silencioso, entre o lado feminino, da m√£e, o das letras e da m√ļsica, e o lado masculino, do pai, o das armas.

Sena viveu em ambos, sempre preferindo o feminino. No entanto, o pai tinha já delineado a sua vida à nascença e aos 17 anos entra para a Escola Naval para seguir uma carreira militar na Marinha de Guerra.

Sabendo nós que Sena não morria de amores pela carreira militar, mesmo assim foi o primeiro classificado do seu curso e quando partiu no navio-escola Sagres, na sua viagem de instrução, ficou fascinado pelo mar:

Para mim o Mar foi o que deve ter sido para¬†muito poucos ‚ÄĒ uma realidade sonhada certa em¬†muitos anos de crian√ßa e depois vivida e perdida¬†em meia d√ļzia de meses. E perdida porque, com¬†base em raz√Ķes que eu pr√≥prio n√£o soube nem¬†pude dominar, ma fizeram perder.

Jorge se Sena sempre abominou a vida militar e acabou por ser excluído da Armada, por motivos que nunca foram esclarecidos.

29
Abr21

A paix√£o rom√Ęntica e brutal do capit√£o¬†de navios

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Os pais de Jorge de Sena tinham origens da alta burguesia: o pai de linhagem aristocrata e a m√£e descendente de comerciantes bem sucedidos.

Maria da Luz Grilo conhece Augusto Raposo de Sena num navio com destino a Angola, momento descrito por Jorge de Sena numa das suas crónicas de viagem:

Eu mesmo, na verdade, vim a nascer des[s]as √Āfricas ‚ÄĒ sem elas,¬†minha m√£e, voltando dos metropolitanos estudos¬†para Angola, menina e mo√ßa e ruiva, n√£o teria¬†conhecido a paix√£o rom√Ęntica e brutal do capit√£o¬†de navios, jovem e de bigodes retorcidos, que foi o¬†meu pai.

26
Abr21

A rebeli√£o silenciosa de m√£e e filho

sena4.pngMaria da Luz Grilo¬†vivia numa claustrofobia da qual queria libertar o seu filho.¬†Por ele e com ele foram cometidas transgress√Ķes¬†na literatura, na m√ļsica e outros devaneios art√≠sticos que provocaram muita disc√≥rdia familiar.

A mãe de Jorge de Sena sempre incentivou não só as actividades literárias do filho, mas também as musicais, sempre em segredo, em rebelião silenciosa contra o conservadorismo extremo do marido e da família:

Aprendia piano em especial e m√ļsica em geral,¬†e compunha improvisos com muitos acordes e¬†disson√Ęncias, de √™xito revolucion√°rio nas reuni√Ķes¬†de fam√≠lia ou afins, com excep√ß√£o do ramo familiar¬†paterno, que achava impr√≥prios destes tempos modernos [...] e da dignidade social tais (como outros)¬†devaneios art√≠sticos, que minha m√£e apadrinhava¬†e faziam as del√≠cias de um papagaio verde que eu¬†tinha, que andava solto pela casa, com terror de¬†toda a gente por ser uma fera.

Quanto mais leio, menos sei

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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