Depois de ter lido as crónicas de Clarice, quando cheguei à s páginas encantadas de CecÃlia senti-me Alice a espreitar pela fechadura para o outro lado do mundo liliputiano de Gulliver.
Cada crónica uma fotografia de pássaros, de cidades, de longes galácticos, de orientes só seus, de fantasmas, de surpreendentes sem fim.
Como se a primeira palavra chamasse as seguintes, todas correndo ao nosso encontro, adivinhando o sabor do próximo parágrafo e este, sempre surpreendido por existir naquelas páginas.
Ela escreve como eu gostaria de escrever. Aquela suavidade como quem nada diz, dizendo tudo, dedilhando as cordas do coração de quem a lê, criando diferentes melodias em cada leitor, fazendo-os sentir únicos como se ela escrevesse só para eles.
Poderia escrever sobre todas as razões que a levam a escrever assim, mas seria redutor. Só ela saberia delas ou talvez nem soubesse.
Os livros sempre vêm ter comigo mesmo que nada faça para os encontrar.
E desta vez pela mão dos meus pais, que me levaram por caminhos inesperados e supreendentes.
Dei por mim a deambular por uma Feira de Antiguidades de uma pequena cidade e eis senão quando me deparo com um Dom Quixote solitário, a capa ainda brilhante, a lombada perfeita, tão novo que só poderia ter pertencido a um amante de livros como eu.
Ergo os olhos e encontro um velhote catita e sorridente, de olhos vivos - que a alma não envelhece quando se lê -, e diz-me que vende os livros que já leu, sabendo que não os irá reler. A irrequietude de viver os dias que faltam antes da morte e o muito que já leu levam-no por outras aventuras.
Confessou-me o grande leitor que fora outrora, mas que a leitura o entristece desde que perdeu a mulher da sua vida. Vive agora em busca de quem ame os livros como ele. Tem sido uma busca difÃcil.
Ao senhor catita e sorridente fica a promessa de que estes dois estão nas mãos certas:
Apesar de tudo, Maugham (ainda) não me conquistou. Talvez Servidão Humana seja o derradeiro livro que me irá convencer da sua mestria.
Veremos.
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@ A leitura experimental foi um impulso laboratorial a que não consegui resistir. As mesas cheias de livros de auto-ajuda nas livrarias incomodam-me e não poderia escrever sobre este incómodo sem ler um deles. E esta experiência está a ter ainda mais graça, porque tenho estado a aplicar todos os ensinamentos à minha vida real. Depois conto tudo!