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Livrologia

Livrologia

23
Out21

Tentei imaginar o dia-a-dia de Sena

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Tentei imaginar o dia-a-dia de Sena.

Indago pelas suas p√°ginas e interrogo-me: como seria um dia da vida dele? Com as suas rotinas, com as suas obriga√ß√Ķes como profissional, pai, marido, cidad√£o e autor?

Eu, uma mera mortal, que n√£o consegue sequer manter a sua disciplina de escrita confessional, olho para este homem t√£o atarefado, que nunca se serviu de uma desculpa para deixar de fazer o que queria e precisava de fazer.

Nunca permitiu que o cansaço ou outro motivo qualquer interferisse com a sua genialidade.

D. Mécia, a mulher que esteve a seu lado, cuidou para que a escrita do marido não ficasse esmorecida numa casa cheia de filhos, onde nem sempre havia pão e todos ralhavam sem razão. Cuidou do silêncio, cuidou da sua privacidade, apaziguou quezílias e acompanhou-o para onde quer que ele fosse.

21
Out21

A m√ļsica n√£o exprime nada sen√£o ela mesma

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E isto nos traz à questão da legitimidade destes poemas.

N√£o serie eu um como que profissional amador de m√ļsica, se n√£o soubesse, ou n√£o achasse, que a m√ļsica n√£o exprime nada sen√£o ela mesma. O que √© maneira de dizer que ela n√£o √© uma experi√™ncia an√°loga √† das artes visuais ou √†s da palavra, que vivem de representa√ß√Ķes significativas.

in Posfácio de 1969 -Poesia II de Jorge de Sena

19
Out21

A m√ļsica ocupou sempre um lugar especial

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Recebi educação musical e instrumental, e não recebi das outras artes mais educação preliminar que a do gosto (e não a prática delas, embora algumas veleidades desenhísticas e pictóricas eu tenha acalentado).

Na primeira adolesc√™ncia, imaginava-me um pianista e compositor ilustre, que dava concertos nas reuni√Ķes de √≠ntimos ou de fam√≠lias amigas, com muito estrondo de acordes e de emocionados ainda que n√£o direi emocionantes ¬ęsmorzandos¬Ľ...

N√£o fui uma coisa nem a outra, n√£o s√≥ porque a vida me distraiu de continuar os estudos, mas porque, sem d√ļvida, esse n√£o era o meu destino ¬ęart√≠stico¬Ľ.

Com efeito as contrariedades que me suprimiram essa carreira foram as mesmas que não suprimiram as outras - minhas de hoje - e que eram igualmente odiosas à minha numerosíssima família que, que eu saiba, não produziu até hoje, além de pessoas honestas e decentes, qualquer artista ou homem de cultura.

Para os meus maiores, e mesmo alguns dos menores, eu, interessando-me por m√ļsica e por letras e artes, estava aberto a todas as cat√°stroges, e nunca evidentemente seria coronel, almirante, director geral de minist√©rio, ou criatura ganhando fortunas, √ļnicas actividades que a fam√≠lia respeitava, j√° que mesmo a de professor (...) n√£o era coisa digna de cr√©dito a n√£o ser como eventual achega de or√ßamentos dom√©sticos.

in Posfácio de 1969 -Poesia II de Jorge de Sena

13
Out21

Aquela aura de inevitabilidade que só os deuses conseguem criar

21823340_Ku98b.pngSena j√° tinha confessado¬†a import√Ęncia da av√≥ na sua vida.¬†

Não só a paixão pela leitura chegou pelas mãos da mãe e da avó, as mulheres que o incentivaram a amar os livros e a literatura, mas também a escrita.

A oferta de um caderno pela av√≥, que lhe serviu de di√°rio durante a viagem de cadete da Marinha, talvez tenha sido o gesto que o ter√° despertado para a escrita. E tamb√©m a m√ļsica que¬†um dia, no r√°dio Pilot da minha Av√≥, ouvi/ uma s√©rie de acordes aqu√°ticos, que os pedais faziam pensativos,/¬†mas cujas disson√Ęncias eram a imagem tremulante/¬†daquelas fendas t√©nues que na vida,/¬†na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.

Ter√° sido este o momento inspirador que despoletou o primeiro poema de Jorge de Sena.

Desengano surgiu em 1936 ao som de Debussy - La Cathédrale Engloutie - envolto naquela aura de inevitabilidade que só os deuses conseguem criar.

A partir desse dia nunca mais parou de poetar, qual trovador que cantarola versos de louvor ao destino que se atravessou no seu ouvido.

Sena viria a confessar, rendido:

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta m√ļsica.

11
Out21

E, se não fora a poesia olhando a História, nenhuma vida em verdade conheceríamos

21823340_Ku98b.pngE acontece que o homem - se pode viver e criar abstrac√ß√Ķes - √© pelo rosto e pelos seus gestos, e pelo que ele, com o olhar transfigura, que podemos, interrogativamente, incertamente, inquietamente, angustiadamente, conhecer-lhe a vida.¬†

E, se n√£o fora a poesia olhando a Hist√≥ria, nenhuma vida em verdade conhecer√≠amos, nem a nossa pr√≥pria. N√£o adianta muito, concordarei, este saber, e √© mais do que prudente recus√°-lo. Mas s√£o precisamente as ¬ęmetamorfoses¬Ľ o que nos permite olhar a cabe√ßa da Medusa.

Jorge de Sena in Posf√°cio, 1963

Metamorfoses (1963)

in Poesia II de Jorge de Sena

07
Out21

Uma humanidade viva, gente viva, pessoas, sobretudo pessoas

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Eu sei que os povos s√≥ valem como humanidade, nunca valeram como outra coisa. E a alegria que sinto, no Museu Brit√Ęnico ou no Louvre, ante as colec√ß√Ķes onde palpita uma vida milen√°ria, n√£o provem de esta ser milen√°ria, estranha, distante, b√°rbara ou requintada, mas sim de eu sentir em tudo, desde as est√°tuas aos pequeninos objectos dom√©sticos, uma humanidade viva, gente viva, pessoas, sobretudo pessoas.

in Posfácio de 1963 - Poesia II de Jorge de Sena

06
Out21

A comovente historicidade da natureza humana

museu-national-gallery-londres.jpg

National Gallery, Londres

Ao deambular repetidamente pela National Gallery, a Wallace Collection, a Tate Gallery, o Victoria and Albert, e o British Museum, não foi, porém, a arte como actualidade perene o que me tocou apenas, mas, conjuntamente com essa ilusão cultural e de gozo estético que os museus suscitam, a comovente historicidade da natureza humana, que palpita e vibra naquelas antologias que o acaso, o bom gosto, e às vezes só a mania arqueológica, recolheram das épocas pretéritas.

in Posfácio de 1963 - Poesia II de Jorge de Sena

Quanto mais leio, menos sei

O autor português de 2021/2022 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
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