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Livrologia

by Miss X

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03
Jun19

Cecília Meireles | Antologia Poética

Creio que já esgotei todas as palavras sobre os poemas de Cecília Meireles, restando muito poucas para dizer sobre esta antologia.

Partilho as palavras de José Bento e resguardo-me no silêncio da poesia de Cecília, para perpetuar o seu eco, enquanto não abraço outro escritor ou poeta:

 

Sobre a poesia de Cecília muito se pode dizer, mas esse muito será ínfimo comparado com a sua riqueza, será talvez excessivo e marginal: o seu espírito permanecerá inviolado após cada tentativa de penetração, sobrepondo-se a qualquer ensaio que pretenda explicá-lo. O seu segredo - como o de toda a grande poesia - é tão fundo como sedutora a voz com que chama quem se debruçar sobre os seus versos. Por isso, a poesia de Cecília Meireles há-de ser profundamente amada por quem for ainda capaz de amar poesia.

José Bento in Sobre Cecília Meireles

03
Jun19

Como se Cecília não fosse especial

logo10.pngSerão os mais trágicos que conseguem escrever com esta delicadeza à tona de cada palavra? Será o trágico necessário para se escrever assim?

Esta pastora de nuvens alada que vive na ausência, distante na proximidade que mantém com os outros, tem um pouco de mim.

Exilada em si própria, numa pátria que lhe é estrangeira, sem território, em viagem constante mesmo na sua permanência.

E chega assim este momento inadiável em que retiro Cecília debaixo do braço, onde se aninhou durante meses, em todos os lugares, em todos os tempos, indo e regressando sempre.

Devolvo-o à bibliotecária que o coloca no carrinho junto dos outros livros, como se Cecília não fosse especial.

Apenas mais um livro que deve voltar para uma prateleira poeirenta de onde n√£o sair√° t√£o cedo.

02
Jun19

Falta o silêncio

Ah, falta o silêncio que estava entre nós,

e olhava a tarde também.

 

Nele vivia o teu amor por mim

obrigatório e secreto.

Igual à face da Natureza:

evidente, e sem definição.

 

in Elegia (7)

Antologia Poética - Cecília Meireles

01
Jun19

Cecília Meireles | A vida com a avó

A inf√Ęncia com a av√≥.

Como teria sido para Cecília?

Como teriam sido os seus dias de criança e os seguintes junto à mulher que a acolheu, que foi mãe, que foi pai, que foi tudo?

 

Das palavras de Cec√≠lia - quem mais? - conseguimos desenhar os contornos desta mulher que foi a sua "deusa r√ļstica":

 

Vov√≥ era uma criatura extraordin√°ria. Ex¬≠tremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: ‚ÄúPor quem voc√™ est√° rezando?‚ÄĚ ‚ÄúPor todas as pessoas que sofrem.‚ÄĚ Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a eleva√ß√£o espiritual de minha av√≥ influ√≠ram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida.

 

 

E minha avó cantava e cosia. Cantava

can√ß√Ķes de mar e de arvoredo, em l√≠ngua antiga.

E eu sempre acreditei que havia m√ļsica em seus dedos

e palavras de amor em minha roupa escritas.

 

Uma das coisas que mais me encantavam em minha vida de inf√Ęncia era o eco que vivia em casa de minha av√≥. Eu vivia procurando o meu eco. Mas tinha vergonha de perguntar. Recolhida, t√≠mida, deslumbrada, me debru√ßava no mist√©rio das palavras e do mundo. Queria saber, mas tinha imenso pudor de confessar minha ignor√Ęncia.

01
Jun19

O sorriso de uma alegria que eu n√£o tive, mas te dava

cecilia-meireles6.jpg@ www.pinterest.pt

 

Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste:

o mar com seus peixes e suas barcas;

os pomares com cestos derramados de frutos;

os jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos.

 

E aquela estrela maior, que a noite levava na m√£o direita.

E o sorriso de uma alegria que eu n√£o tive,

mas te dava.

 

in Elegia (5)

Antologia Poética - Cecília Meireles