Um livro de auto-ajuda tenta sempre convencer-nos a mudar o nosso comportamento e raramente conhecemos as razões por detrás de quem o escreve.
De um ponto de vista puramente humanista a auto-ajuda seria um dos caminhos para equilibrar as nossas realidades individuais, colocando-as no ponto de equilíbrio perfeito entre racionalidade e transcendência, almejando assim o supremo bem-estar do ser humano como interesse prioritário. Acredito que tenha sido essa a intenção primordial da auto-ajuda, sob uma perspectiva mais humanista: oHomemcomovalorsupremoemedidadetodasascoisas. Mas não é isso que verifico nos títulos dos livros que se encontram à venda actualmente.
Aliás, vejo a auto-ajuda de hoje deturpada, clamando cada vez mais pela nossa mecanização e cada vez menos pela nossa humanização.
De um ponto de vista orwelliano, a auto-ajuda tem-se transformado numa forma de manipulação em massa, para nos convencer a adoptar comportamentos e atitudes coadjuvantes ao aumento do poder dos poucos que reinam o mundo, tranformando-nos em seres cada vez menos humanos e cada vez mais distópicos.
Os livros de auto-ajuda deixaram de ser sobre desenvolvimento pessoal do ser humano, para se tornarem em arautos da produtividade máxima, da conquista sem olhar a meios, do sucesso como a única forma de vida e do poder sem limites.
Os hábitos nunca desaparecem realmente, antes ficam codificados na nossa estrutura cerebral. E isso é muitíssimo vantajoso para nós, pois seria terrível ter de reaprender a guiar depois de cada período de férias.
O problema é que o cérebro não sabe distinguir entre bons e maus hábitos, e, por isso, se tivermos um hábito mau, ele fica lá sempre, à espreita das deixas e das recompensas certas.
(...) os hábitos podem ser ignorados, mudados ou substituídos. Mas a grande relevância da descoberta do ciclo do hábito está em que ele desvenda uma verdade fundamental: quando emerge um hábito, o cérebro deixa de participar plenamente na tomada de decisões, deixa de trabalhar com tanto empenho, ou passa a concentrar-se em outras tarefas.
Já comecei a ler o Franskenstein da auto-ajuda, aliás estou na página 42, e só por esta façanha mereço um grande aplauso.
A primeira grande revelação foi-me dada com um estalo de obviedade que até andei de lado nas minhas convições científicas. Afinal o cérebro humano é um grandesíssimo preguiçoso e "anda sempre à procura de maneiras de se esforçar menos." Constato que o cérebro e os funcionários públicos têm mais em comum do que alguma vez imaginara, derrubando assim as teorias de toda uma vida que tresandavam a complexidades inexplicáveis pelo bom senso.
Mas este livro numa só frase explicou tudo, tornando-me mais iluminada que um estádio de futebol, também ele um antro de excelência de espírito crítico e raciocínio lógico.
Fui arrancada da idade das trevas enciclopédicas para o advento iluminista da auto-ajuda. O momento de transição não está a ser fácil: o meu raciocínio ou lá o que resta dele está a bater contra as paredes do meu crâneo que nem um autista e, desta vez, as canções da Maria Leal não têm nada a ver com isso.