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Livrologia

Livrologia

18
Set19

Como quem habita nos interstícios da vida e da morte

logo10.pngN' Os Anjos de Papel Couché, Cecília escreve sobre as enfermeiras. Dito assim vulgarizei-a sem querer, mas esta crónica nada tem de vulgar.

Escreve ela sobre estas mansas meninas dos hospitais, tão alvas e reluzentes, tão aladas e fora dos assuntos terrenos que carregam com elas uma tal sobrenaturalidade que os seus passos são inaudíveis.

Como quem habita nos interstícios da vida e da morte, a essas meninas nada se deve perguntar porque a sua existência transcorre em outros planos, como se vivessem entre mundos e não pertencessem a nenhum.

Mais que tocante esta crónica é de uma extraordinária beleza.

Quero emoldur√°-la.

31
Jul19

Fui arrancada da idade das trevas enciclopédicas para o advento iluminista da auto-ajuda

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Já comecei a ler o Franskenstein da auto-ajuda, aliás estou na página 42, e só por esta façanha mereço um grande aplauso.

A primeira grande revela√ß√£o foi-me dada com um estalo de obviedade que at√© andei de lado nas minhas convi√ß√Ķes cient√≠ficas. Afinal o c√©rebro humano √© um grandes√≠ssimo pregui√ßoso e "anda sempre √† procura de maneiras de se esfor√ßar menos." Constato que o c√©rebro e os funcion√°rios p√ļblicos t√™m mais em comum do que alguma vez imaginara, derrubando assim as teorias de toda uma vida que tresandavam a complexidades inexplic√°veis pelo bom senso.

Mas este livro numa só frase explicou tudo, tornando-me mais iluminada que um estádio de futebol, também ele um antro de excelência de espírito crítico e raciocínio lógico.

Fui arrancada da idade das trevas enciclop√©dicas para o advento iluminista da auto-ajuda. O momento de transi√ß√£o n√£o est√° a ser f√°cil: o meu racioc√≠nio ou l√° o que resta dele¬†est√° a bater contra as paredes do meu cr√Ęneo que nem um autista e, desta vez, as can√ß√Ķes da Maria Leal n√£o t√™m nada a ver com isso.

22
Jul19

Não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer

con14.png

No meio liter√°rio diz-se que Servid√£o Humana ter√° sido a suprema obra-prima de Maugham, no entanto estou muito aqu√©m de o confirmar. Muito longe ainda do √Ęmago do livro para avaliar a sua suposta genialidade.
As primeiras páginas pareceram-me autobiográficas, apesar do escritor o ter negado sempre, alegando que muito do que escreveu neste livro foi apenas baseado nas suas experiências de vida. Não me convenceu, aliás não há coincidências:
Maugham ficou orfão muito cedo durante a sua meninice, vendo-se na contingência de ir viver com o seu tio em Whitstable, num ambiente absolutamente conservador e restritivo. As poucas diferenças que detectei entre este aspecto biográfico e este livro foi a mera mudança de nome do local para Blackstable, o que não deixa de ser irónico, atribuindo ao local a aura sombria e austera que sempre o repugnou.Outro pormenor que sempre atormentou Maugham e que dificultou a sua integração no ambiente escolar, foi a sua gaguez, que no livro transportou para a personagem atribuindo-lhe pé boto, incapacidade que viria a atormentá-lo durante toda a sua vida.

No que li até agora não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer.

16
Jul19

O espelho


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No caminho passou em frente de um espelho e olhou-se

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

Dos três objectos que já tinha mencionado anteriormente, o espelho é o impulsionador da História da Gata Borralheira.

No conto tradicional o espelho é praticamente inexistente, mas Sophia assimilou-o do conto da Branca de Neve, dando-lhe a soberania de resposta à eterna interrogação: Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?

Sempre que L√ļcia se depara com um espelho esse momento ganha sempre uma densidade irrespir√°vel. O seu reflexo √©-lhe intoler√°vel, angustiante, ouso mesmo dizer, repugnante. O reflexo que o espelho lhe devolve √© apenas a percep√ß√£o dela pr√≥pria que √© completamente diferente da percep√ß√£o que os outros t√™m dela:

- N√£o se veja nesse espelho. Faz muito m√° cara.

- A sua pele √© linda e branca - atalhou a rapariga, e, ali, parece cinzenta. √Č melhor n√£o olhar para l√°.

O espelho reflecte a sua opinião, os seus pensamentos, as suas crenças. Sempre que se contempla nele, apenas vê um vestido feio, nunca a bela mulher que o veste.

09
Jul19

Quem salvou a Gata Borralheira?

con1.pngNa História da Gata Borralheira de Sophia há três objectos que a marcam simbolicamente: o espelho, o vestido e os sapatos. Irei escrever sobre eles mais adiante, porém no conto tradicional apenas o sapato de cristal e o vestido que a Gata Borralheira veste para ir ao baile se tornaram nos objectos simbólicos.

Aliás, acabaram por extravasar a natureza da história, tornando-se eles próprios no símbolo deturpado de que a vitória da personagem reside no estatuto de princesa, na vaidade e na ostentação.

Se questionarmos alguém sobre o que mais se recorda desta história, serão quase sempre apontados o sapato perdido e o baile grandioso onde o vestido era um dos mais belos.

Raramente alguém se recordará de que a Gata Borralheira não ficou em casa à espera de ser salva. Rebelou-se contra a proibição da madrasta e desobedeceu-lhe. Por iniciativa própria conseguiu ir ao baile, sozinha, não para conquistar um príncipe, mas porque tinha o direito de lá estar.

Se repararem, nenhuma figura masculina a ajudou a conquistar esse direito. O pai estava ausente e mais ninguém até então reparara na sua existência. Apenas as mulheres repararam nela - a madastra e as irmãs - e temiam-na, caso contrário não a teriam ostracizado.

O príncipe aparece quando ela já está a usufruir do baile e a exercer o seu direito de lá estar. 

Ela não foi salva pelo príncipe.

Foi ela própria que se salvou.

06
Jul19

Como se o fim fosse, afinal, o princípio de tudo

con1.png A História da Gata Borralheira de Sophia começa em pleno baile, ao contrário do conto tradicional que todos conhecemos. Como se o fim fosse, afinal, o princípio de tudo.

√Č um in√≠cio bastante cinematogr√°fico, como se acompanh√°ssemos a c√Ęmara a entrar pelo jardim, a contornar a casa cheia de luzes, de risos, de m√ļsica, as janelas com vultos de namorados e depois a entrada da casa onde vemos pela primeira vez L√ļcia.

Enquanto o baile decorre Sophia vai revelando as personagens, dan√ßando connosco e a cada voltear revela mais um segredo, mais uma intimidade, mais um √Ęmago.

Tudo o que nos √© permitido ver √© pelo olhar de L√ļcia.¬†Mas h√° um pequeno momento, quase impercept√≠vel, em que ela v√™ a sua pr√≥pria inexist√™ncia perante o que acha ser a exist√™ncia:¬†

Como se elas, afirmando n√£o saber quem ela era, a atirassem para o mundo das coisas inexistentes.

Desafio dos P√°ssaros

A Miss X aceitou o desafio de escrita dos p√°ssaros. Espreitem o ninho.

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A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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