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Livrologia

Livrologia

03
Out23

Regresso ao Caos, uma alegoria da criação artística

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Segundo Teresa Sousa de Almeida, no seu artigo Capelinhas e candeias acesas Natália Nunes e a reflexão sobre o universo da arte:

O romance Regresso ao Caos, publicado em 1960, é uma alegoria da criação artística e uma crítica implacável à maneira como funciona o comércio e a difusão da cultura no nosso país.

Natália Nunes tem necessidade de apresentar a sua concepção de arte, inserindo uma perspectiva de género, num país que, ainda hoje, silencia a produção escrita das mulheres do século passado.

27
Set23

O olhar de Kavafis está tingido de indiferença de tudo aceitadora

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Não cremos que, por tudo isto, possamos considerar como pessimista a sua poesia: antes umas vezes estóica, outras vezes epicurista, outras vezes sarcástica, mas sempre fundamentalmente resultante da indiferença de quem se limita já a rememorar.

Afirmámos ser o desejo, o mais intenso, em qualquer situação, o seu principal fio condutor. Contudo, o olhar de Kavafis está tingido de indiferença de tudo aceitadora.

Por vezes refere intransigências sobre comportamentos, mas é com ironia e desenfado que delas imediatamente se alheia. Como se nos dissesse: há os que tudo fazem pelo e com o desejo, esses interessam-me; há os que nada fazem pelo desejo, esses dão-me dó, qual o velho já alheio à vitalidade, meio adormecido num café.

in Prefácio de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis 

in Os Poemas de Konstantinos Kavafis

22
Set23

A poesia não é nele uma meditação sobre a poesia

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Kavafis tem esse dom raro dos que conseguem cruzar a intemporalidade no temporal, o espaço perdido no espaço que volta, sem sequer se deter em pensar estas suas formas de transmissão.

A poesia não é nele uma meditação sobre a poesia, mas um ingrediente do instinto da libido que atravessa épocas e pessoas, o confuso dia a dia e o evanescente histórico.

 

in Prefácio de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis 

in Os Poemas de Konstantinos Kavafis

19
Set23

Uma vasta opini√£o sobre a realidade, uma vis√£o de quanto tudo comparece em tudo

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Tudo na obra afirmada como sendo para publicar pelo pr√≥prio Kavafis pertence a um continuum onde se distinguem e misturam hist√≥rias mitol√≥gicas, hist√≥rias da Hist√≥ria, hist√≥rias da condi√ß√£o humana, hist√≥ria dos corpos, hist√≥ria das emo√ß√Ķes (dentro deste √ļltimo campo cabendo o dom√≠nio do especulativo a que n√£o nos parece chamar de filosofia, embora ¬ęfilos√≥ficos¬Ľ lhes chame o pr√≥prio poeta, por n√£o nos parecer surgirem como tal o modo dos seus cogitamentos: julgamos ficar claro o que o poeta entende por filosofia quando, em ¬ęDario¬Ľ, afirma ¬ęneste ponto/√© necess√°rio filosofia¬Ľ e logo se segue um conjunto de implica√ß√Ķes quase t√£o-s√≥ psicologizantes e moralizadoras; talvez se possam entender como filos√≥ficos no sentido antigo da filosofia - a vontade de saber - que, num certo sentido, pode abranger tamb√©m a psicologia).

Se cada poema pode parecer, e de facto também o é, separado e diverso dos restantes, o conjunto da obra lembra-nos que se trata sobre todas as coisas de uma vasta opinião sobre a realidade, uma visão de quanto tudo comparece em tudo: as lágrimas, as vitórias vãs, os desejos que, embora tentassem o contrário, um destino adverso quase sempre torna impermanentes.

in Prefácio de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis 

in Os Poemas de Konstantinos Kavafis

15
Set23

A escolha de uma voz é para criar um ténue distanciamento

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Aquilo que verdadeiramente nos parece ser significativo no poeta grego √© serem as personagens, nos seus poemas n√£o directamente auto expressivos, antes do mais vozes √≠ntimas, vindas da ru√≠na, a do tempo, a do quotidiano, a do desejo, tentando atravessar essa ru√≠na tantas vezes em incita√ß√£o da pr√≥pria voz autoral, atrav√©s de sonhos f√ļteis de grandeza, de tensas paix√Ķes que sabem encaminhar-se para o arruinamento.

Contudo, todas essas vozes brilham, por muito que sejam baços, inglórios, derrotados os tempos e os momentos que procuravam a glória de um império, de um fim grandioso no perecimento, de um amor imenso tornado passageiro pelo destino.

Sempre a escolha de uma voz é para criar um ténue distanciamento, um envolvimento em presença indirecta, mas nunca pretende criar aravés desse processo uma autonomia de máscara; sempre reconhecemos a figura e o esquema interior que em toda a sua obra percebemos como seu, como interioridade ou como meditação suas.

in Prefácio de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis 

in Os Poemas de Konstantinos Kavafis

11
Set23

Cavafy & Oscar Wilde: as afinidades do processo criativo

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[No capítulo I de The Picture of Dorian Gray de Oscar Wilde encontram-se] semelhanças da mesma visão do processo criativo [de Cavafy].

O que nos importa, por√©m, √© transcrever os pequenos passos que evocam essas afinidades, as quais, repetimos, prov√™m da s√≠ntese que Wilde realiza desde as concep√ß√Ķes de arte de Th√©ophile Gautier.

ao ambiente de v√°rios dos seus poemas de tem√°tica hist√≥rica directa ou imagin√°ria: ¬ęthere is a fatality about all physical and intellectual distinction, the sort of fatality that seems to dog through history the faltering steps of kings¬Ľ;

aa no√ß√£o da impot√™ncia da velhice: ¬ęif old men are ever capable of any emotion¬Ľ;

ao esteticismo ligado a muitas figuras masculinas: ¬ęthis young Adonis, who looks as if he was made out of ivory and rose-leaves¬Ľ;

aa for√ßa da entidade autoral que √©, enfim aquilo a que tudo num poema reverte, mesmo que s√≥ √† sua mem√≥ria imaginativa, e que permeia a descri√ß√£o de tanta figura dos seus versos: ¬ęevery portrait that is painted with feeling is a portrait of the artist, not of the sitter¬Ľ;

ao envolvimento de muitos dos poemas onde uma concep√ß√£o do amor pode ser insinuada: ¬ęthose who are faithful know only the trivial side of love: it is the faithless who know love's tragedies¬Ľ;

a¬†e, para finalizar, a forma de tentativa de sombreamento em personagens po√©ticas que, embora possam transmitir a interioridade do pr√≥prio autor, surgem como v√©u estil√≠stico a que se convencionou chamar dramatiza√ß√£o e modo indirecto de transmitir os sentidos mais pessoais: ¬ęI really can't exhibit it. I have put too much of myself into it¬Ľ.

in Prefácio de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis 

in Os Poemas de Konstantinos Kavafis

07
Set23

Fado inglório para alguém que toca tão fundo

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De Kav√°fis tamb√©m s√≥ os s√°bios pareciam ter entrevisto o seu talento em vida, j√° que Kav√°fis, que h√° muitos anos n√£o visitava a Gr√©cia e passara toda a sua vida trabalhando no Minist√©rio Eg√≠pcio das Obras P√ļblicas, morreu de cancro da laringe em 1933, aos setenta anos, com a sua reputa√ß√£o enquanto poeta ainda obscura, partilhando o caminho de tantos outros que s√≥ na posteridade alcan√ßaram o relevo que teriam certamente gostado de ter em vida.

Fado inglório para alguém que toca tão fundo.

in O efémero da beleza e a evocação da memória na poesia de Konstantinos Kaváfis 

de Joaquim Miguel Fernandes Duarte 

in Comunidade, Cultura e Arte

03
Set23

A poesia de Kaváfis é sempre uma de distanciamento e evocação

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Abertamente homossexual, Kaváfis aborda com despudor a paixão. Mas é uma paixão que vive do efémero (...)

A poesia de Kaváfis é sempre uma de distanciamento e evocação, um olhar sobre a juventude a partir da velhice, um foco nos detalhes que a memória reteve, um olhar para o passado tanto quando os poemas tratam a intimidade como quando pegam na antiguidade clássica.

A√≠ vemos o outro lado de Kav√°fis, o do poeta-historiador, debru√ßando-se sempre sobre per√≠odos hist√≥ricos de decl√≠nio ou decad√™ncia, onde, podendo at√© estar a festejar-se um feito de grandeza, est√° subjacente a decad√™ncia por vir.¬†√Č o lado tr√°gico da vida que Kav√°fis nos traz atrav√©s dos epis√≥dios que faz ressoar pelo tempo.¬†

in O efémero da beleza e a evocação da memória na poesia de Konstantinos Kaváfis 

de Joaquim Miguel Fernandes Duarte 

in Comunidade, Cultura e Arte

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