Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livrologia

Livrologia

15
Mai22

O dinheiro

21962060_NYu4a.pngJorge de Sena revelou muitos aspectos privados da sua vida não só através das cartas que trocou com Mécia de Sena e com outras figuras proeminentes, mas também através dos seus prefácios que transformou em meios de comunicação exclusiva com os seus leitores e com a sua própria obra (contos, poemas...)

Escreveu sobre v√°rios temas, mas um deles manteve-se de forma constante: o dinheiro.

Dentre os v√°rios temas rastre√°veis ao longo da obra po√©tica de Jorge de Sena est√° o do valor, associado ao dinheiro. Este, habitualmente, ligado √† necessidade de ganhar a vida atrav√©s do trabalho e de prover o sustento pr√≥prio e da fam√≠lia ‚Äď uma tarefa em geral marcada por dificuldades quando se vive num sistema onde o que importa √© o lucro, mas que pode ultrapassar o suprir de necessidades materiais.

Beatriz Helena Souza in O Dinheiro em Poesia

 

Poemas como Ode aos livros que não posso comprar, Rendimento, Tudo é tão caro, Lamento de um pai de família:

 

Ode aos livros que n√£o posso comprar

Hoje fiz uma lista de livros,
e n√£o tenho dinheiro para os poder comprar.

√Č rid√≠culo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para n√£o morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
‚Äď sem eles, tamb√©m eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de trai√ß√Ķes e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quantos sentiram, ou sós, ou mal acompanhados,
alguns outros que, se lhes falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que n√£o se perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

N√£o posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
Nem de que, em breve, se morrer√° de outra fome maior,
Do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
Ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
Capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
Uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei
Para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles
Folhe√°-lo pensativo, arrum√°-lo como in√ļtil,
E sair de casa, contando os tost√Ķes que me restam,
A ver se chegam para o carro elétrico,
Até a outra porta.

27/6/1944

 

Rendimento

Estava sentado num degrau da porta,
encostado à ombreira,
numa rua de ligação, sem montras,
onde só passam carros e as pessoas a encurtar caminho.

A face p√°lida, boca entreaberta,
barba por fazer e o cabelo em repas desoladas.

Dificilmente respirava, nada seguia com os olhos,
ora muito abertos, ora piscando muito.

No regaço, e protegido pelos joelhos agudos,
tinha um boné no qual
esmolavam os transeuntes.

Da lapela, preso por um alfinete,
pendia amarrotado e sujo um boletim
da Assistência Nacional dos Trabalhadores.

Era o cart√£o de visita, o bilhete
de identidade, a certid√£o, a carta
de curso, a apólice de seguro,
o título do Estado.
E, no boné, como se vê, caía o juro.

Lisboa, 25/6/1946

 

Tudo é tão caro

Tudo é tão caro!
Como afinal a vida.
Pedes que te dê
quanto n√£o tenho
para comprar-te.
Se nada pedes
apenas por que eu veja,
nem mesmo com possuir
eu poderei pagar-te.

27/05/1951

 

Lamento de um pai de família

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigol√ī para machos e ou f√™meas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
n√£o fazem chantage porque n√£o vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus gênios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles f√°ceis.
Antes reunir conferências de São Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distrac√ß√Ķes das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os p√™los pelos rasg√Ķes da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre est√° nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das f√°bricas de celof√Ęnicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo, Ou dem√īnio dom√©stico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-los aos filhos
da puta. Ou gato. Ou c√£o. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer.
Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que
n√£o fico l√°, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente
se distinguem das outras por n√£o terem filhos, nem desses nem dos outros?
Mas mesmo isto n√£o consola nada. A quantidade, a variedade,
gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?
E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro a quem,
para n√£o se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão, desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.

15/06/1964

10
Mai22

Uma das homenagens mais afectuosas ao Brasil

21962060_NYu4a.pngO conto Homenagem ao Papagaio Verde do livro¬†Os Gr√£o-Capit√£es¬†revela uma das homenagens mais afectuosas ao Brasil, mas em Sena nada √© simples. Quem o l√™ saber√° que tudo o que escreve revela uma complexa viv√™ncia humana, quase labir√≠ntica, quase perdida num enredar de sensa√ß√Ķes, percep√ß√Ķes, sentimentos:

Apresenta-se como uma das mais ternas e ao mesmo tempo ir√īnicas e inquietantes reflex√Ķes sobre a rela√ß√£o da ex-metr√≥pole portuguesa com o Brasil e a √Āfrica. Se √† primeira vista esse texto memorial√≠stico nos conta do abusado e opressor mundo dos adultos na vida de uma crian√ßa, da amizade entre um enclausurado filho √ļnico e um exuberante animal de estima√ß√£o, no gesto da leitura, outras narrativas rapidamente se cruzam, dinamizam esse enunciado e nos arremessam para bem longe da casa portuguesa, rumo a uma complexa trama que se constr√≥i num cambiante jogo memorial√≠stico capaz de tencionar barb√°rie e civiliza√ß√£o, o mesmo e o outro, alegria e nostalgia, amor e √≥dio, Brasil e √Āfrica.

Sabrina Sedlmayer

@ www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br

09
Mai22

Entro pela inf√Ęncia de Jorge de Sena, sem pedir licen√ßa

21962060_NYu4a.pngA ler o conto Homenagem ao Papagaio Verde do livro¬†Os Gr√£o-Capit√£es¬†e a adorar cada p√°gina. Entro pela inf√Ęncia de Jorge de Sena, sem pedir licen√ßa, e assisto ao que acontece como se tudo se estivesse a desenrolar naquele preciso momento em que leio.

O autor afirmou que o tema dos contos de¬†Os Gr√£o-Capit√£es √©¬†directa ou indirectamente autobiogr√°fica [mas] com que amargura √†s vezes ‚Äď, a estrutura que lhe √© dada √© inteiramente fic√ß√£o.¬†

O que é descrito nos contos pode ter como base factos, mas o autor decidiu refugiar-se num misto de ficção/realidade, criando uma realidade alternativa entre o facto e o sentimento. E não serão ambos reais na mesma proporção, o acontecimento em si e como nos faz sentir?

07
Mai22

Um livro indignado, sarc√°stico e duro

21962060_NYu4a.pngComecei a ler Os Grão-Capitães contos autobiográficos de Jorge de Sena que resultaram da reação e repulsa pelos tempos de repressão vividos. 

No primeiro conto que estou a ler - Homenagem ao Papagaio Verde - tenho sentido um desconforto que paira pelas páginas. Talvez se deva à repressão familiar imposta pelo pai do autor, criando um ambiente de silêncio aprisionado, como o papagaio verde enclausurado na gaiola.

Ali√°s, Jorge de Sena considerou este livro de contos como um livro indignado, sarc√°stico e duro.

03
Mai22

A cada par√°grafo que leio sei que n√£o quero estar ali

21962060_NYu4a.pngLer este conto - Defesa e Justificação de um Ex-Criminoso de Guerra - tem sido desconcertante. Desconcertante ao ponto de não o querer ler até ao fim.

A cada par√°grafo que leio sei que n√£o quero estar ali, dentro da mente de um monstro que acredita estar inocente, justificando todas as suas ac√ß√Ķes com a sua ideologia. A oportunidade que Sena me d√° como leitora de compreender a mente do outro, inicialmente apelativa, torna-se repugnante.

O conto é de tal modo extraordinário que me leva a sentir a mais pura abominação, raiva, repulsa, conduzindo-me pelo caminho oposto da compreensão que Sena tentou incutir em mim.

01
Mai22

Quando Sena procura entender a mente de alguém

21962060_NYu4a.pngAlgo que me tem surpreendido em Jorge de Sena são as suas constantes tentativas de compreender o outro, de tentar apreender os mecanismos da mente de outro ser humano, por melhor ou mais execrável que fosse. Há, aliás, um artigo de Paulo Rodrigues Ferreira no Dicionário de Historiadores Portugueses, do qual deixo aqui um pequeno excerto, sobre uma dessas tentativas de compreensão do incompreensível através do conto Defesa e Justificação de um Ex-Criminoso de Guerra que estou a ler neste momento:

O conto ‚ÄúDefesa e Justifica√ß√£o de um Ex-Criminoso de Guerra‚ÄĚ, inclu√≠do em¬†Novas Andan√ßas do Dem√≥nio¬†(1966), √© importante para apreender o pensamento de Jorge de Sena.

Embora a inspira√ß√£o seja o julgamento de Adolf Eichmann, neste conto n√£o encontramos men√ß√Ķes directas aos crimes do oficial nazi ou a massacres em campos de concentra√ß√£o. O que o escritor nos serve s√£o as suas reflex√Ķes sobre a condi√ß√£o humana.

Sena segue uma linha de pensamento explorada em ‚ÄúMaquiavel e¬†O Pr√≠ncipe‚ÄĚ para defender que, arredado da prote√ß√£o divina e sendo a √ļnica medida de si pr√≥prio, para o bem e para o mal, ¬†o homem est√° entregue a si mesmo e √© respons√°vel por todas as suas ac√ß√Ķes (Maquiavel e Outros Estudos,¬†p. 48). Por√©m, este ex-criminoso de guerra n√£o segue qualquer ideal humanista, antes se baseia na ‚Äú√©tica germ√Ęnica‚ÄĚ, na convic√ß√£o de que, com esfor√ßo e planeamento, certos povos conseguir√£o sobreviver e conquistar civiliza√ß√Ķes rivais. Por esse motivo, a mentalidade nazi e as cren√ßas no determinismo biol√≥gico e na superioridade racial contrariam essa f√© no homem que nos responsabiliza pelo que fazemos (Monteiro, ‚ÄúJorge de Sena‚Äôs ‚ÄúEichmann Story‚ÄĚ, p. 13).

Mais do que inspirar-nos a sentir repugn√Ęncia pelo nazismo, Sena procura entender a mente de algu√©m que, como observou a fil√≥sofa Hannah Arendt em¬†Eichmann in Jerusalem¬†(1963), acreditava na lei superior do F√ľhrer. O que temos ent√£o neste conto √© uma perspectiva de liberdade que contrasta com a do pr√≥prio autor, que era, como afirm√°mos, uma liberdade democr√°tica, de responsabiliza√ß√£o total dos indiv√≠duos no tocante √† intromiss√£o no espa√ßo alheio (O Reino da Estupidez-I,¬†p. 134).

16
Abr22

40 anos de servidão poética

21962060_NYu4a.pngApós a publicação da antologia Poesia I, II e III estava planeado um novo livro - Poesia IV -, mas tal acabou por não acontecer durante a vida do autor. 

M√©cia de Sena organizou esta bel√≠ssima antologia p√≥stuma, mantendo n√£o s√≥ o t√≠tulo escolhido pelo autor, mas tamb√©m muitas das indica√ß√Ķes que deixara em vida.

A leitura desta antologia não dispensa a leitura dos restantes livros de poesia de Jorge de Sena, mas para quem quer conhecer o poeta num só livro, o livro a ler será este: 40 Anos de Servidão, título que designaria os seus 40 anos de servidão poética.

27
Mar22

√Č que os g√©nios n√£o t√™m, n√£o precisam de ter¬†biografia

21962060_NYu4a.pngComo referi anteriormente sobre Super Flumina Babylonis, Sena une¬† duas realidades, a hist√≥rica e a imaginada, [recriando] alguns momentos da vida de Cam√Ķes, numa fase final, em que vive esquecido por todos, √† merc√™ da esmola alheia.

No entanto, se o autor quisesse tra√ßar a verdadeira biografia de Cam√Ķes ver-se-ia √† beira do profundo mist√©rio do desconhecido. Ningu√©m sabe muito bem quais as certezas biogr√°ficas de Lu√≠s de Cam√Ķes:
√Č certo que¬†pouco ou nada se sabe de concreto acerca desse homem, cujo¬†nascimento, cuja vida, cuja morte e cujos restos mortais s√£o duvidosos,¬†maravilhosamente duvidosos. O que √© um convite √† imagina√ß√£o.
~Jorge de Sena~
 
 
Mas os génios não precisam de biografia, porque a obra revela mais deles do que os eventos que viveram, assim o escreveu Latino Coelho:
√Č que os g√©nios n√£o t√™m, n√£o precisam de ter¬†biografia.

Quanto mais leio, menos sei

O autor português de 2021/2022 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

O que leio, capa a capa

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

Estante

no fundo da estante