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Livrologia

Livrologia

14
Jan20

A coragem protege os audazes

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Se tu soubesses

que em todos os portos do mundo

h√° uma m√£o desconhecida

a acenar - adeus, adeus - quando se parte pró mar;

~Manuel da Fonseca~

 

Duas das minhas histórias favoritas das Histórias da Terra e do Mar são Saga e a História da Gata Borralheira.

Ambas se entrela√ßam numa mensagem √ļnica, que √† deriva navega neste mar de tempestade e de bonan√ßa, tornando-se no apogeu clim√°tico da vida: o poder da escolha e as suas consequ√™ncias.

O confronto, o desafio, a encruzilhada e finalmente a escolha levaram L√ļcia e Hans por um caminho inesperado, imprevis√≠vel, rumo ao desconhecido e sem regresso.

A coragem protege os audazes e é nas intermitências de um acaso que o destino se desenha, é na Providência de um imprevisto que a divindade de revela.

16
Dez19

O silêncio de Sophia é um grito

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Quando aqui entrei cantei o ¬ęMagnificat¬Ľ.

√Č uma casa muito bonita que eu embelezei.

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

Quando Sophia se casou mudou-se para Lisboa, onde imediatamente sentiu uma profunda saudade de mar. Ficou a viver na casa que habitou até morrer na Travessa das Mónicas.

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 que funcionou como uma cadeia de mulheres - a Cadeia das Mónicas - até 1953.

Não resisto a emoldurar o seu conto O Silêncio nessa casa que habitou, em que um dos lados estava virado para a travessa onde havia a prisão.

Tenho um conto chamado ¬ęSil√™ncio¬Ľ, onde isso aparece. Agora deixou de haver a pris√£o, a fachada do pr√©dio foi pintada e a rua est√° mais limpa.

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

O grito da mulher que se ouve neste conto, um longo grito agudo, desmedido, que abriu uma grande fenda, uma ferida, que¬†revela o seu abismo, a sua desordem, a sua treva √© muito mais que um simples grito f√≠sico e gutural. √Č um grito metaf√≥rico contra a ditadura de antanho, um grito para acordar um adormecido, abalar uma consci√™ncia impass√≠vel e, alheada, tocar o cora√ß√£o de um morto.

11
Dez19

O paraíso prometido por Manuel Bandeira

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Aqui eu n√£o sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseq√ľente...

- Manuel Bandeira -

 

Vou-me Embora pra Pasárgada é um dos poemas mais exaltados e conhecidos de Manuel Bandeira, uma espécie de autobiografia lírica, com um profundo desejo de fuga para um lugar melhor.

O¬†para√≠so prometido por Manuel Bandeira, onde n√£o existe solid√£o, tristeza, onde o entusiasmo pela vida nos √© devolvido, onde podemos viver a aventura,¬†o risco, a divers√£o, livre das obriga√ß√Ķes e das limita√ß√Ķes da vida.

Um lugar demasiado perfeito para ser real?

Talvez, mas Pasárgada existe mesmo. Manuel Bandeira contou um dia que a imagem dessa cidade nunca mais lhe saiu da cabeça desde a adolescência, inpirando-o para este poema.

Pasárgada transcendeu o próprio poema e tornou-se parte do imaginário da sua poesia, um oásis, um grito de libertação onde o poeta se refugia.

De tal modo marcante, que foi musicado por Gilberto Gil e cantado por Olivia Hime.

Sobre este poema Manuel Bandeira confessou:

Foi o poema de mais longa gesta√ß√£o em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pas√°rgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego (...) Mais de vinte anos quando eu morava s√≥ na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo des√Ęnimo, da mais aguda sensa√ß√£o de tudo o que eu n√£o tinha feito na minha vida por motivo da doen√ßa, saltou-me de s√ļbito do subconsciente esse grito estapaf√ļrdio: ‚ÄúVou-me Embora pra Pas√°rgada!‚ÄĚ

07
Dez19

Recife era um lugar assim

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Rua da Uni√£o...
A casa de meu av√ī...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo l√° parecia impregnado de eternidade
Recife...

- Manuel Bandeira -

 

Recife era o lugar de Manuel Bandeira. Um daqueles lugares que nunca mais lhe saiu do coração, que lhe batia no olhar. Por mais viagens, por mais paisagens, por mais lugares que percorresse, Recife era seu. Só seu.

Todos temos lugares assim, só nossos, que não serão de mais ninguém e Recife era um lugar assim, o lugar onde todas as ruas da sua alma se encruzilhavam.

Cidade de nascimento, cidade de descoberta, cidade de brincadeira, cidade do crescer, cidade dos sonhos, da casa do av√ī, da rua onde brincava, cidade da crian√ßa que foi.

Tot√īnio Rodrigues, Aninhas Viegas, a negra Tom√°sia, velha cozinheira da casa do av√ī Costa Ribeiro, foram os seus her√≥is, n√£o da sua imagina√ß√£o, mas das m√£os que se davam, dos abra√ßos que se aconchegaram, das risadas atiradas l√° para o alto:

Do Recife tenho quatro anos de exist√™ncia consciente, mas ali est√° a raiz de toda a minha poesia. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida √© que vejo o vazio dos √ļltimos.

Mas esses quatros anos‚Ķ Essa coisa de viver, na inf√Ęncia, num lugar e, depois, ser arrancado dele, isola essa vida dentro da vida da gente.

-Manuel Bandeira-

04
Dez19

Um sapato perdido ou encontrado?

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- Um sapato!

- Todo roto!

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

Dos três objectos que marcam simbolicamente este conto de Sophia - o sapato perdido é o mais icónico, no entanto não lhe atribuiria a mesma simbologia do conto tradicional.

Para al√©m da fealdade do vestido, os sapatos que L√ļcia cal√ßava estavam fora de moda e em mau estado com o forro azul roto nas biqueiras e aqui e al√©m manchas de bolor.

Se o vestido a aprisionava a um estatuto que considerava inferior, os sapatos impediam-na de caminhar, de percorrer o seu caminho, por estarem em t√£o mau estado e o seu aspecto mostra a realidade que L√ļcia vivia. A sua realidade era como a dos seus sapatos: pobre, √°rdua, sem futuro.¬†

Neste conto de Sophia o sapato é perdido durante a dança no baile, ficando ali exposto, incrédulo, perante os olhares de todos:

Quando a m√ļsica acabou e os pares abandonaram o espa√ßo da dan√ßa o sapato ficou sozinho no centro da sala, esfarrapado e miser√°vel sobre o ch√£o polido.

Se o vestido mostra a sua persona, os sapatos em mau estado mostram o seu poder feminino aniquilado, débil, enfraquecido.

28
Nov19

O vestido, em vez de celebr√°-la, matava-a

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- Quem é aquela rapariga com um horrível vestido lilás?

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

Dos três objectos que marcam simbolicamente este conto de Sophia - o vestido tem sido o mais incompreendido.

O vestido é a persona da Gata Borralheira, a ponte entre o seu mundo interior e o mundo que a observa, uma espécie de máscara projectada para fazer uma impressão definitiva sobre os outros e para dissimular a sua verdadeira natureza.

No caso de L√ļcia, a madrinha emprestou-lhe um vestido que era feio, antiquado e lil√°s. O vestido, em vez de celebr√°-la, matava-a e a cor lil√°s, um paramento f√ļnebre que a envolvia, simbolizando a sua condi√ß√£o j√° morta num mundo onde ela jamais seria aceite. E foi o vestido que provocou a sua derradeira decis√£o:

Tenho de escolher outro caminho. Um dia hei-de voltar aqui com um vestido maravilhoso e com sapatos bordados de brilhantes.

2019 foi o ano que escolhi para ler Sophia de Mello Breyner
Visitem o mundo encantado de Sophia
Em 2020 irei ler Jorge de Sena
Venham dar uma volta ao mundo
A Miss X aceitou o Desafio de Escrita dos Pássaros pela 2.ª vez!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices

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