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Livrologia

Livrologia

22
Out21

Tolstoi n√£o define her√≥is nem vil√Ķes

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

Tolstoi n√£o define her√≥is nem vil√Ķes.¬†

Quem é verdadeiramente o bom ou o mau da história? Esta visão simplista não existe com ele.

Todos são bons e maus e, havendo heroísmo ou vilania, Tolstoi reserva-os para o colectivo, não para o indivíduo. 

A tranquilidade e a presun√ß√£o de Vr√īnski colidiram - para vil√£o, vil√£o e meio - com a fria sobranceria de Aleksei Aleks√Ęndrovitch.

Por isso, quando Tolstoi deixa atr√°s de si esta pequena subtileza de que Aleksei e Vr√īnski possivelmente s√£o ambos vil√Ķes, sei que esta vilania estar√° repleta de ac√ß√Ķes desprez√≠veis e abjectas que ambos provavelmente ir√£o perpetrar em prol da sua posi√ß√£o na sociedade.

Individualmente talvez a maldade não os defina, mas a sociedade despertará o que há de pior em cada um deles.

20
Out21

A realidade de Anna e¬†Vr√īnski come√ßa a alterar-se irremediavelmente

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

√Č interessante como Anna e Vr√īnski t√™m as mesmas sensa√ß√Ķes quase em simult√Ęneo, sendo por enquanto, nestas p√°ginas do livro, praticamente dois desconhecidos.

Uma das cenas em que o senti de uma forma mais acentuada foi a do regresso de Anna Karénina, enquanto caminha em direcção ao marido que a espera na estação.

Quando ela o observa já não o vê da mesma maneira, aliás começa a sentir uma certa aversão por ele.

¬ęAh, meu Deus! Porque √© que as orelhas dele ficaram assim?¬Ľ, pensou, olhando para a sua figura fria e imponente, e sobretudo para a cartilagem que, sustentando-lhe as abas do chap√©u redondo, a impressionaram de repente.

E Vr√īnski revela uma avers√£o mais animalesca quando o v√™:

Ao ver Aleksei Aleks√Ęndrovitch com a sua fresca cara petersburguense e a sua figura rigorosa e segura de si, com chap√©u de coco e costas um pouco salientes, acreditou nele e experimentou uma desagrad√°vel sensa√ß√£o, semelhante √† que teria experimentado uma pessoa cheia de sede que chegasse finalmente a uma nascente e descobrisse nesse manancial um c√£o, uma ovelha ou um porco a beberem e a turvarem a √°gua.

√Č aqui que a realidade de Anna e¬†Vr√īnski come√ßa a alterar-se irremediavelmente.

Já não vêem o mesmo que todos à sua volta vêem.

16
Out21

Todas as artes me são necessárias à vida como o ar que respiro

21962060_NYu4a.pngArrisco dizer que Arte de M√ļsica √© semelhante a Metamorfoses na inten√ß√£o, na sua tridimensionalidade.

Enquanto que em Metamorfoses cada poema corresponde a uma obra de arte real, em Arte de M√ļsica cada poema corresponde a uma m√ļsica. Enquanto lemos cada poema podemos ouvir a m√ļsica que o inspirou.

E porquê escrever poesia inspirada pela arte, seja ela estética ou musical?

A explica√ß√£o disto estar√° em que, se todas as artes me s√£o necess√°rias √† vida como o ar que respiro, a m√ļsica ocupou sempre, entre elas, e em rela√ß√£o a mim, um lugar especial.

15
Out21

Dois vazios cósmicos em colisão

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Na p√°gina 117 de 793.

A atrac√ß√£o que come√ßa a despontar entre Anna e Vr√īnski √© daquelas fatalidades incompreens√≠veis at√© para os pr√≥prios deuses.

Dois vazios cósmicos em colisão prestes a explodir numa contradição absoluta. 

Ainda não sei neste momento o que acontecerá a seguir, mas desconfio que aquilo que têm em comum será o mesmo que os irá separar.

Enquanto Anna regressa a casa, o comboio embala a sua existência de um lado para o outro, questionando tudo o que sabia ou pensava saber, lançando-a num conflito: se morri para a vida ou se a quero viver; a prisão de quem sou ou a liberdade de quem quero ser.

12
Out21

Os poemas "incompreensíveis" de Jorge de Sena

21962060_NYu4a.png

Jorge de Sena nunca escondeu a sua veia experimental, que nunca teve medo de colocar em prática e fê-lo descaradamente, quando escreveu os Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena. 

Partilhei um deles - Pandemos - a título exemplificativo.

Quando os lemos n√£o compreendemos absolutamente nada, porque est√£o escritos numa linguagem incompreens√≠vel.¬†Sena confessou que nestes seus quatro sonetos¬†muitas das palavras [s√£o] ¬ęinventadas¬Ľ, visto que se tratava de experimentalismo.

Decifrá-los é impossível, mesmo com a ajuda do próprio poeta:

Para o leitor comum que n√£o est√° iniciado (menos por sua culpa, que pela da ignor√Ęncia ou petul√Ęncia de quem o inicia, que ou n√£o sabe, ou acha que o p√ļblico n√£o merece nem necessita essas coisas para adquirir consci√™ncia de si mesmo) nestes mist√©rios sem mist√©rio algum, adiante se indicam os significados de v√°rias dessas palavras usadas ou deformadas nos sonetos:

  • pandemos - o amor vulgar, o amor como e de toda a gente
  • ur√Ęnia - Afrodite como o amor celeste
  • anadi√≥mena - a que emerge das √°guas
  • (...)

A lista de significados é muito parca para compreendermos na íntegra os poemas.

Creio que para melhor apreciar estes poemas basta ler cada um deles sem a preocupação de os compreendermos, deixando-nos levar pelos sons e possíveis significados que provocam em nós.

√Č como decifrar um enigma e a solu√ß√£o est√° no sentir, n√£o no significado.

10
Out21

Jorge de Sena quis com os seus poemas conversar com as obras de arte

21962060_NYu4a.pngJá no fim da leitura dos poemas seleccionados de Metamorfoses, poemas que são mais do que uma reverência às obras de arte, homenageando o espírito humano.

Porque a arte é acima de tudo humana, um meio de expressão da visão do mundo real ou imaginário do ser humano que a cria.

Jorge de Sena quis com os seus poemas conversar com as obras de arte que escolheu, dando-lhes voz, resgatando-as do esquecimento e imortalizando-as através das suas próprias palavras. 

09
Out21

As ironias deliciosas de Tolstoi j√° se fizeram sentir

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

Estou neste momento na página 97 de Anna Karénina e as ironias deliciosas de Tolstoi já se fizeram sentir.

Anna chegou e est√° na casa dos Obl√īnski com uma miss√£o: tentar convencer Dolly, sua cunhada, a perdoar as indiscri√ß√Ķes do marido.

At√© que ponto este conselho √© genu√≠no sem estar contaminado pelas conven√ß√Ķes sociais? E o que seria de Dolly, uma mulher a s√≥s com os filhos em pleno s√©culo XIX? E at√© que ponto o dito perd√£o n√£o ser√° apenas uma mera aceita√ß√£o do ciclo repetitivo a que o marido ir√° exp√ī-la no futuro?

Mas Anna √© uma mulher cheia de contradi√ß√Ķes e o conselho que d√° talvez n√£o o seguisse ela pr√≥pria.

08
Out21

√Č um poema cheio de fome, a mesma fome de que sofre a humanidade

21962060_NYu4a.png

O que é que o poema - A Morte, o Espaço, a Eternidade - tem de especial, para além de ser um dos meus favoritos de Jorge de Sena?

√Č um poema cheio de fome, a mesma fome de que sofre a humanidade.

Fome de infinito.

A morte ou qualquer outro fim n√£o √© um fim em si mesmo e question√°-lo √© um acto de rebeli√£o, mais do que de protesto, que Sena manifesta em verso. √Č rebelar-se contra o interdito, em que o medo e a sedu√ß√£o se unem em nega√ß√£o do inevit√°vel. A aceita√ß√£o da finitude humana n√£o √© pac√≠fica, nunca o foi e nunca o ser√°. A humanidade procura constantemente perpetuar-se atrav√©s da tecnologia e da ci√™ncia, semi-deuses √† procura da eternidade, de outras √≥rbitas, de outros mundos, da imortalidade.

Não terá sido por acaso que ao acompanhar este poema se encontra uma foto de Sputnik I, o primeiro satélite artificial lançado da Terra, em 1957.

Quanto mais leio, menos sei

O autor português de 2021/2022 é Jorge de Sena
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