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Livrologia

Livrologia

16
Abr21

N√£o subscrevo a divis√£o do mundo em Bons e Maus

conversatorio3_1.pngNos prefácios de Sena tenho tido oportunidade de o conhecer melhor não só como autor, mas também como pessoa.

Nos seus prefácios Sena chega a escrever em tom confessional, revelando as suas crenças mais profundas. Uma revelação tão ou mais inesperada, considerando a privacidade que advocava, no entanto a vontade de comunicar com os seus leitores era suprema:

Religiosamente falando, posso dizer que sou cat√≥lico mas n√£o um crist√£o ‚ÄĒ o que apenas¬†significa que respeito na Igreja Cat√≥lica todo o velho paganismo que conservou nos rituais, nos¬†dogmas, etc., sob v√°rios disfarces, tal como a Reforma protestante n√£o soube fazer.

Acredito que¬†os deuses existem abaixo do Uno, mas neste Uno n√£o acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu¬†que, de uma maneira de certo modo hegeliana, p√īs a sua vida e o seu destino nas m√£os desse¬†Deus cuja exist√™ncia ou n√£o-exist√™ncia s√£o a mesma coisa sem sentido.

Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou qualquer antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito.

Mas, politicamente, sou contra qualquer esp√©cie de ditadura (quer das maiorias, quer de minorias), e em favor da democracia representativa. NńĀo tenho quaisquer¬†ilus√Ķes acerca desta ‚ÄĒ pode ser uma m√°scara para o mais impiedoso dos imperialismos. Mas isso¬†tamb√©m o podem ser outros sistemas.

Sou a favor da paz e do entendimento entre as na√ß√Ķes, e¬†espero que o socialismo prevalecer√° em toda a parte, mantendo todas as liberdades e a¬†democracia representativa.

N√£o subscrevo a divis√£o do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o¬†Diabo (estejam de cada lado estiverem). Apesar da minha forma√ß√£o hegeliana e marxista, ou¬†tambńóm por causa dela, os contr√°rios s√£o para mim mais complexos do que a aceita√ß√£o¬†oportunista de manique√≠smos simplistas.

13
Abr21

A um poeta não se pede nunca que o seja de facto, mas que pareça que o é

conversatorio3_1.pngNeste Poesia I que me encontro a ler re√ļnem-se poemas seleccionados dos livros¬†Persegui√ß√£o (1942),¬†Coroa da Terra¬†(1946), Pedra Filosofal (1950), As Evid√™ncias (1955) e¬† Post-Scriptum (1960).

Esta antologia é uma proposta de leitura cheia de cumplicidade que Sena quis criar com os seus leitores e no meu imaginário criei esta imagem de Sena, a compilar esta antologia, enquanto ia anotando pensamentos que viria a partilhar no prefácio.

E um desses pensamentos é dedicado aos seus leitores e não-leitores:

√Č talvez ingratid√£o diz√™-lo,¬†mas eu n√£o vejo que muitos dos que admiram os meus versos de hoje usem de uma simpatia¬†mais atenta que a antipatia dos que n√£o leram nunca, com um m√≠nimo de boa vontade, versos¬†meus.

E que, leitor amigo, em poesia, ao contrário mais do que com outro tipo de comunicação se passa, nós só entendemos verdadeiramente aquilo que estamos dispostos a entender.

E s√≥¬†estamos dispostos a entender o que venha ao encontro dos nossos gostos e tend√™ncias do¬†momento, o que se integre no quadro, √†s vezes heter√≥clito e contradit√≥rio, da cultura que nos¬†form√°mos, o que obede√ßa (ou pelo menos n√£o traia) aos princ√≠pios que aceit√°mos para nossa paz¬†ou nosso entusiasmo intelectual ‚ÄĒ em suma, tudo aquilo que se haja conformado, ing√©nua ou¬†habilmente, a uma semelhan√ßa com a nossa ideia de poesia.

A um poeta não se pede nunca que o seja de facto, mas que pareça que o é.

10
Abr21

Como foi Filoctetes ferido

greek1.png

O abandono de Filoctetes na ilha de Lemnos deve-se √† sua ferida no p√© e h√° v√°rias vers√Ķes que a tentam explicar.

Uma versão indica que Filoctetes chefiava um contingente de sete naus com cinquenta arqueiros, mas não chegou a Tróia com os outros chefes, porque durante a escala em Ténedo, foi mordido no pé por uma serpente, enquanto procedia a um sacrifício. A ferida infectou de tal modo que exalava um odor de putrefacção insuportável e por isso, Ulisses e os outros chefes abandonaram-no em Lemnos, onde permaneceu dez anos.

Outra vers√£o conta que Filoctetes foi ferido n√£o por um animal, mas por uma flecha de H√©racles envenenada, atingindo acidentalmente o seu p√©, como vingan√ßa de H√©racles, que quis desse modo punir o perj√ļrio cometido por Filoctetes ao revelar o local onde ardera a pira erguida no Eta.

Outra versão ainda indica que os gregos abandonaram Filoctetes na ilha para que ele curasse a ferida. Em Lemnos exista um culto a Hefesto cujos sacerdotes eram conhecidos pelos seus conhecimentos no tratamento de mordidas de serpente. O herói ter-se-ia curado, chegando mais tarde a Tróia, para se reunir com o exército grego.

No entanto, para Sófocles o herói feriu-se na pequena ilha de Crise, onde foi mordido por uma serpente escondida nas ervas altas, no momento em que limpava o altar de Crise.

08
Abr21

O tr√°gico esbofeteia-nos, agarra-nos pelos ombros e olha-nos pela alma adentro

greek1.png

Por detrás de cada tragédia grega há sempre uma história e personagens tão ou mais reais que a própria realidade.

Aliás, na tragédia grega a ficção e a realidade entrecruzam-se de tal maneira que é difícil dela sair incólume. O trágico esbofeteia-nos, agarra-nos pelos ombros e olha-nos pela alma adentro, sem qualquer pudor.

Nesta trag√©dia que leio s√£o tr√™s os homens que a vivem:¬†Filoctetes, um homem abandonado √† solid√£o e ao sofrimento, mas cujo abandono n√£o lhe destruiu a sensibilidade humana; Ulisses, um homem sem escr√ļpulos morais que se rege pelo oportunismo e pelos interesses e que n√£o olha a meios para atingir os seus fins; e¬†Neopt√≥lemo, um homem bom e generoso, cuja ingenuidade ir√° sofrer uma transforma√ß√£o irrevers√≠vel.

No confronto de cada um destes homens, uma contradi√ß√£o insol√ļvel - moral, social e educativa - mas s√≥ no final¬†descobriremos se a justi√ßa vencer√°.

06
Abr21

O Sr. Lello ficou gelado

conversatorio3_1.png

Já aqui tinha referido o quão difícil foi o nascimento do primeiro livro de Jorge de Sena. 

No pref√°cio de Poesia I¬†-¬†Haver√° melhor forma de conhecer um autor? -¬†j√° Sena confessa, na primeira pessoa, as dores que¬†Persegui√ß√£o lhe causara. Conta tamb√©m um epis√≥dio peculiar, √† guisa de tert√ļlia liter√°ria, que nunca mais esqueceria:

Mas h√° outras coisas mais relevantes que quero dizer, em rela√ß√£o a Persegui√ß√£o. Naqueles idos¬†de 1942, e nos dif√≠ceis anos que se seguiram em Lisboa ou no Porto, eu era sem d√ļvida dos mais¬†esfomeados poetas portugueses, sem met√°fora, no sentido literal do termo.

(...)

Desses poemas de 1941-44 havia sido vivida e escrita no Porto, cidade que amo tanto como a minha natal Lisboa, pois que nela nela passei, terminado o curso de Engenharia Civil, dos anos mais livres e também mais duros da minha vida (como será claro aos leitores atentos dos meus livros de contos).

(...) 

Est√°vamos junto da lauta mesa, o Couto, eu, e um dos membros da fam√≠lia Lello, e administrador¬†da casa, n√£o recordo qual, e menos sei se vive ainda. Este senhor desfazia-se em amabilidades¬†ante o poeta brasileiro, e declarava-se disposto a fazer editorialmente o que ele quisesse. Ribeiro¬†Couto, que se deliciava de pregar partidas e entalar as pessoas, e era al√©m do mais uma alma¬†generosa e transbordante de afabilidade, fitou no Sr. Lello aqueles olhos de goraz, com verruma¬†dentro, que eram dele nas ocasi√Ķes, enquanto um breve sorriso mal lhe apertava os l√°bios, e¬†perguntou (tratando o Sr. Lello de tu, como fazia com toda a gente, excepto, suponho, nos¬†momentos mais ridiculamente solenes da sua vida de diplomata, e quando queria realmente¬†marcar um tento):

‚ÄĒ √ď Lello, tu fazes mesmo o que eu pedir?

‚ÄĒ Tudo, tudo, Senhor Ministro.

E Ribeiro Couto, cravando no Sr. Lello os olhos de goraz e um dedo espetado, disse com o ar mais natural do mundo:

‚ÄĒ Ent√£o, vais publicar um livro de poemas aqui do Jorge de Sena.

O Sr. Lello ficou¬†gelado, e como que se ouviu passar em volta nas hostes do conservantismo liter√°rio portuense¬†(salazarista, ou anti-salazarista, l√° como em toda a parte, n√£o esque√ßamos), um frisson de¬†suspense, tanto mais que, na verdade, quem diabo era eu? No entanto, ap√≥s os instantes da¬†surpresa ag√≥nica, o Sr. Lello subiu dignamente ao calv√°rio das circunst√Ęncias:

‚ÄĒ Publico, sim¬†senhor.

Que publicassem o livro levou tempo, e até deu carta minha que existirá nos arquivos da casa, se não a deitaram às urtigas, e em que eu, queixando-me da falta de provas e de que não faziam caso algum de mim, lhes dizia que a forma de tratarem-me não era realmente estranha, já que estavam habituados a lidar só com defuntos (o Eça,o Junqueiro, etc.) que não protestavam do gato e sapato que faziam deles. Mas finalmente o livro saiu e até mo pagaram.

07
Mar21

O que é que um gato sabe sobre voar?

logo.jpgPara além da consciencialização ambiental e do seu carácter pedagógico, esta fábula é, acima de tudo, uma história sobre promessas.

Promessas de um gato a uma gaivota e, uma delas, a mais especial de todas: ensinar uma gaivotinha a voar.

O que é que um gato sabe sobre voar? Nada. E se não sabe, arranja maneira de o saber para cumprir a promessa que fez.

Para este gato e todos os outros gatos uma promessa não é uma simples frase miada, mas um juramento solene, um acto a ser cumprido.

As palavras não são apenas sons que nos saem pela boca, carregam um significado com efeito borboleta. Shakespeare, um dos grandes pensadores da alma humana, descreveu-as melhor que ninguém:

As palavras s√£o como patifes desde o momento em que as promessas os desonraram.

William Shakespeare

05
Mar21

Porque raio Pushkin iria escrever sobre os chefes de estação?

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

Estas histórias que estou a ler de Pushkin surpreendem-me a cada página que viro. 

Esta que comecei a ler - The Station-Master - colocou imediatamente um ponto de interrogação ao meu pensamento: porque raio Pushkin iria escrever sobre os chefes de estação?

Obviamente que alguém como ele pode dar-se ao luxo de escrever sobre o que quiser, ainda assim decidi pesquisar pela estranheza do tema e prontamente fui esclarecida pelo próprio, que revela a sua empatia por quem exerce a profissão:

A few words more: during twenty years in succession I have travelled up and down Russia in all directions; I have been on almost all the posting routes; I have known several generations of drivers; there are few station-masters whose faces are not familiar to me and with whom I have not had something to do; I hope to publish in the near future an interesting collection of my travelling impressions; meanwhile I shall only say that the class of station-masters has been grossly misrepresented to the public.

in The Station-Master de Alexander Pushkin

27
Fev21

Com um punhado de versos de Pushkin

CONVERSATORIO_RUSSIA.png

Sabem aquela linha ténue, quase proibida, de que vos falei?

Atravessei-a com coragem e sem medo. Sem medo e sem culpa, com um punhado de versos de Pushkin.

Querendo descobrir o que se esconde por detrás das palavras que escreve, de onde vêm elas, como as escreve, roubei o direito proibido de extrapolar os versos do poeta para o seu dia-a-dia de escrita.

Se nestes versos Pushkin n√£o escreve sobre o seu processo de escrita, quero fingir que sim:

And I forget the world, in blissful peace

I am sweetly lulled by my imagination,

and poetry awakens in me then;

my soul, hard pressed by lyric agitation,

trembles, resounds and seeks as if in sleep

to surface finally in free expression - 

and I receive a host of guests unseen,

old-time acquaintances, fruits of my dreams,

and in my head thoughts spring into existence,

and rhymes dance out to meet them, and the hand

stretches towards the pen, the pen to paper,

and unimpeded verse comes pouring out.

So a ship, motionless in motionless water,

lies dreaming, then suddenly the sailors, the vessel

moves slowly out, bow cutting through billows,

and sails away. Where shall we sail to...?

A leitura em todo o lado

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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