Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livrologia

Livrologia

31
Jul19

Fui arrancada da idade das trevas enciclopédicas para o advento iluminista da auto-ajuda

CON13.png

Já comecei a ler o Franskenstein da auto-ajuda, aliás estou na página 42, e só por esta façanha mereço um grande aplauso.

A primeira grande revela√ß√£o foi-me dada com um estalo de obviedade que at√© andei de lado nas minhas convi√ß√Ķes cient√≠ficas. Afinal o c√©rebro humano √© um grandes√≠ssimo pregui√ßoso e "anda sempre √† procura de maneiras de se esfor√ßar menos." Constato que o c√©rebro e os funcion√°rios p√ļblicos t√™m mais em comum do que alguma vez imaginara, derrubando assim as teorias de toda uma vida que tresandavam a complexidades inexplic√°veis pelo bom senso.

Mas este livro numa só frase explicou tudo, tornando-me mais iluminada que um estádio de futebol, também ele um antro de excelência de espírito crítico e raciocínio lógico.

Fui arrancada da idade das trevas enciclop√©dicas para o advento iluminista da auto-ajuda. O momento de transi√ß√£o n√£o est√° a ser f√°cil: o meu racioc√≠nio ou l√° o que resta dele¬†est√° a bater contra as paredes do meu cr√Ęneo que nem um autista e, desta vez, as can√ß√Ķes da Maria Leal n√£o t√™m nada a ver com isso.

22
Jul19

Não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer

con14.png

No meio liter√°rio diz-se que Servid√£o Humana ter√° sido a suprema obra-prima de Maugham, no entanto estou muito aqu√©m de o confirmar. Muito longe ainda do √Ęmago do livro para avaliar a sua suposta genialidade.
As primeiras páginas pareceram-me autobiográficas, apesar do escritor o ter negado sempre, alegando que muito do que escreveu neste livro foi apenas baseado nas suas experiências de vida. Não me convenceu, aliás não há coincidências:
Maugham ficou orfão muito cedo durante a sua meninice, vendo-se na contingência de ir viver com o seu tio em Whitstable, num ambiente absolutamente conservador e restritivo. As poucas diferenças que detectei entre este aspecto biográfico e este livro foi a mera mudança de nome do local para Blackstable, o que não deixa de ser irónico, atribuindo ao local a aura sombria e austera que sempre o repugnou.Outro pormenor que sempre atormentou Maugham e que dificultou a sua integração no ambiente escolar, foi a sua gaguez, que no livro transportou para a personagem atribuindo-lhe pé boto, incapacidade que viria a atormentá-lo durante toda a sua vida.

No que li até agora não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer.

16
Jul19

O espelho


con1.png

No caminho passou em frente de um espelho e olhou-se

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

 

Dos três objectos que já tinha mencionado anteriormente, o espelho é o impulsionador da História da Gata Borralheira.

No conto tradicional o espelho é praticamente inexistente, mas Sophia assimilou-o do conto da Branca de Neve, dando-lhe a soberania de resposta à eterna interrogação: Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?

Sempre que L√ļcia se depara com um espelho esse momento ganha sempre uma densidade irrespir√°vel. O seu reflexo √©-lhe intoler√°vel, angustiante, ouso mesmo dizer, repugnante. O reflexo que o espelho lhe devolve √© apenas a percep√ß√£o dela pr√≥pria que √© completamente diferente da percep√ß√£o que os outros t√™m dela:

- N√£o se veja nesse espelho. Faz muito m√° cara.

- A sua pele √© linda e branca - atalhou a rapariga, e, ali, parece cinzenta. √Č melhor n√£o olhar para l√°.

O espelho reflecte a sua opinião, os seus pensamentos, as suas crenças. Sempre que se contempla nele, apenas vê um vestido feio, nunca a bela mulher que o veste.

09
Jul19

Quem salvou a Gata Borralheira?

con1.pngNa História da Gata Borralheira de Sophia há três objectos que a marcam simbolicamente: o espelho, o vestido e os sapatos. Irei escrever sobre eles mais adiante, porém no conto tradicional apenas o sapato de cristal e o vestido que a Gata Borralheira veste para ir ao baile se tornaram nos objectos simbólicos.

Aliás, acabaram por extravasar a natureza da história, tornando-se eles próprios no símbolo deturpado de que a vitória da personagem reside no estatuto de princesa, na vaidade e na ostentação.

Se questionarmos alguém sobre o que mais se recorda desta história, serão quase sempre apontados o sapato perdido e o baile grandioso onde o vestido era um dos mais belos.

Raramente alguém se recordará de que a Gata Borralheira não ficou em casa à espera de ser salva. Rebelou-se contra a proibição da madrasta e desobedeceu-lhe. Por iniciativa própria conseguiu ir ao baile, sozinha, não para conquistar um príncipe, mas porque tinha o direito de lá estar.

Se repararem, nenhuma figura masculina a ajudou a conquistar esse direito. O pai estava ausente e mais ninguém até então reparara na sua existência. Apenas as mulheres repararam nela - a madastra e as irmãs - e temiam-na, caso contrário não a teriam ostracizado.

O príncipe aparece quando ela já está a usufruir do baile e a exercer o seu direito de lá estar. 

Ela não foi salva pelo príncipe.

Foi ela própria que se salvou.

06
Jul19

Como se o fim fosse, afinal, o princípio de tudo

con1.png A História da Gata Borralheira de Sophia começa em pleno baile, ao contrário do conto tradicional que todos conhecemos. Como se o fim fosse, afinal, o princípio de tudo.

√Č um in√≠cio bastante cinematogr√°fico, como se acompanh√°ssemos a c√Ęmara a entrar pelo jardim, a contornar a casa cheia de luzes, de risos, de m√ļsica, as janelas com vultos de namorados e depois a entrada da casa onde vemos pela primeira vez L√ļcia.

Enquanto o baile decorre Sophia vai revelando as personagens, dan√ßando connosco e a cada voltear revela mais um segredo, mais uma intimidade, mais um √Ęmago.

Tudo o que nos √© permitido ver √© pelo olhar de L√ļcia.¬†Mas h√° um pequeno momento, quase impercept√≠vel, em que ela v√™ a sua pr√≥pria inexist√™ncia perante o que acha ser a exist√™ncia:¬†

Como se elas, afirmando n√£o saber quem ela era, a atirassem para o mundo das coisas inexistentes.

05
Jul19

As rosas de Clarice

logo11.png

Quem nunca roubou n√£o vai me entender.

E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender.

-Clarice Lispector

 

Como prometido durante a visita ao jardim secreto de Clarice, escrevo agora sobre as suas rosas. As suas, as dos outros, as que roubou.

H√° inclusiv√© um ensaio da Prof. Dra. Maria Jos√© Ribeiro (FURB) sobre este tema, cuja leitura recomendo, As Rosas de Clarice Lispector: Travessia,¬†Transfigura√ß√£o e Den√ļncias da Flor:

A rosa revela o ser em seus vários contrastes, entre a completude e a fragmentação, entre a sanidade e a loucura, entre o si mesmo e o Outro. E nesse espaço entre o eu e o Outro, a rosa ajuda a revelar o mundo exterior, tendo como ponto de partida um mergulho profundo no mistério da flor.

Ainda não li todos os livros de Clarice, mas nos que li encontrei certamente rosas, cultivadas misticamente, como pequenas deusas castigadoras de espinhos, mas às quais nos submetemos hipnótica e cegamente:

Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas tem gosto bom na boca - é só experimentar. 

A páginas tantas Clarice confessa, assim mesmo, despudoradamente, que já as roubou. E o bem que soube tê-las roubado! Eram mais cheirosas, mais bonitas, mais dela.

Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só, elas não sabem viver sozinhas...
Quem quiser levar a rosa para sua vida, ter√° de saber que com elas v√£o in√ļmeros espinhos. N√£o se preocupe, a beleza da rosa vale o inc√īmodo dos espinhos...

Mas a rosa mais bonita de todas era aquela que o médico tinha no consultório. Uma rosa que viveu em água mais tempo do que todas as outras. Talvez por pura paixão.

E uma relação íntima estabeleceu-se entre o homem e a flor: ele a admirava e ela parecia sentir-se admirada. E tão gloriosa ficou, e com tanto amor era observada, que se passavam os dias e ela não murchava.

Aviso à navegação

A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

A leitura em todo o lado

O que leio, capa a capa

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D