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Livrologia

Livrologia

27
Mai20

As escolhas s√£o o mais interessante deste conto

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- Nos tempos que correm - disse a cozinheira - j√° n√£o h√° Deus nem Diabo.

Há só pobres e ricos.

E salve-se quem puder.

~Sophia~

 

O Jantar do Bispo √© muito mais do que uma hist√≥ria sobre a luta entre o bem e o mal. √Č uma hist√≥ria de generosidade, de altru√≠smo, de dignidade e, acima de tudo, de escolhas.

Ali√°s, as escolhas s√£o o mais interessante deste conto.¬† O bem e o mal s√£o intemporais e inevit√°veis na sua ess√™ncia e s√£o as decis√Ķes humanas quem lhes d√° vida.

14
Mai20

O recato do seu humor tímido e refinado

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Heles dado el nombre de ejemplares, y si bien lo miras no hay ninguna de quien no se pueda sacar un ejemplo.

~Cervantes~

 

√Č assim que Contos Exemplares de Sophia se inicia, com uma cita√ß√£o do Pr√≥logo das¬†Novelas Ejemplares¬†(1613) de Cervantes.

Talvez para acautelar a objecção de como o livro seria recebido, pela crítica  socialmente implícita que continha:

Sentindo-o talvez e acautelando a objecção, parece Sophia querer tutelar-se com a autoridade de Cervantes, que intitulava também as Novelas de exemplares.

~António Ferreira Gomes~

 

A ousadia de Sophia em estabelecer um paralelo dos seus contos com as novelas de Cervantes n√£o √© arrog√Ęncia, mas o recato do seu humor t√≠mido e refinado, que exp√Ķe e questiona as conven√ß√Ķes de uma forma despojada e genu√≠na.

29
Abr20

Um panfleto político em forma de poema

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Um dos poemas mais marcantes de Pauliceia Desvairada é Ode ao Burguês, um poema-caricatura do burguês e uma crítica socialmente acérrima.

Mário de Andrade ridiculariza os burgueses, cujas barrigas crescem na mesma proporção em que os cérebros definham.

O próprio poeta declamou este poema durante a Semana de Arte Moderna de 1922, perante uma plateia que era o alvo dos seus versos:

Eu insulto o burguês!

Mário de Andrade foi vaiado pelos convidados, alguns dos quais tinham contribuído financeiramente para a realização do evento, que não aceitaram a crítica de bom grado. 

O poema foi sentido como uma violenta declaração de ódio à aristocracia e à burguesia de São Paulo, pela sua incapacidade de sonhar e de valorizar a espiritualidade. Aliás, o poema é quase um panfleto político contra a sua obsessão pelas aparências e incapacidade de humanidade.

25
Mar20

A m√£e do outro lado do espelho

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As madrastas têm uma presença muito forte no fabulário de vários contos, da Branca de Neve à Gata Borralheira.

Nos tempos idos a morte das m√£es no parto era frequente¬†e os vi√ļvos eram obrigados a casar novamente para n√£o terem de cuidar dos filhos sozinhos, o que implicava aceitar a inevitabilidade deles virem a ser maltratados pelas madrastas.

Apesar da palavra madrasta derivar da palavra "mãe", a primeira sílaba está muito próxima da sonoridade de "má" e "maldade". Arrisco dizer que a madrasta seria a mãe do outro lado do espelho, com todos os defeitos, todos os vícios, todas as fraquezas levadas ao extremo e que uma mãe não pode ter.

19
Fev20

Um poema politicamente controverso

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Derzhavin nunca teve medo de criticar abertamente todos aqueles que se sentavam  na cadeira do poder, desde os que governavam as terras até aos que julgavam as pessoas comuns.

O contexto social e antropol√≥gico do absolutismo do s√©culo XVIII permitiu a Derzhavin aplicar a sua indigna√ß√£o contra as m√°s ac√ß√Ķes cometidas em prol de uma causa.

As pr√≥prias leis dos monarcas tornaram-se nas suas armas para combater as transgress√Ķes ao sistema. Ali√°s, o conceito de lei no sentido mais lato era-lhe estranho. Para ele o dever dos governantes em fazer cumprir a lei era mais importante que a exist√™ncia da pr√≥pria lei.¬†Para ele justi√ßa nunca foi a mera cria√ß√£o de leis e a sua tranquila e intoc√°vel exist√™ncia num livro empoeirado, mas sim a sua correcta aplica√ß√£o por ju√≠zes virtuosos.

E é num dos seus poemas mais políticos (do qual tenho partilhado alguns excertos) - To Rulers and Judges - que o seu sentido crítico de justiça aparece em verso, apontando aos governantes e juízes as suas responsabilidades morais.

Catarina a Grande leu a sua antologia de poemas onde constava este mesmo poema. Leu os poemas durante dois dias seguidos e permaneceu duas semanas em silêncio sem comentar nada do que tinha lido.

Quando Derzhavin a visitou notou a frieza que lhe dirigiu. Aliás, toda a corte o evitou e ficou evidente que a Imperatriz não gostou da crítica implícita e da ousadia política do poema.

O poema tinha sido baseado num salmo da Bíblia Ortodoxa  e um amigo de Derzhavin perguntou-lhe "O que estás a fazer, irmão, ao escrever versos jacobinos?"

O poeta respondeu-lhe:

O Rei David não era jacobino; portanto, os seus salmos não podem fazer mal a ninguém.

 

Derzhavin nunca negou que escrevera o poema intencionalmente visando a Imperatriz e o seu reino. No entanto, justificou-se que, ao basear-se num dos salmos da Bíblia, a sua intenção crítica fora construtiva, jamais destrutiva:

O ensino das Sagradas Escrituras, quando realizado de maneira sensata e com boas inten√ß√Ķes, nunca pode ser desagrad√°vel.

11
Fev20

Mais do que um simples poema

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O poema God de Derzhavin é um dos mais líricos e  mais profundos poemas que escreveu.

Derzhavin começou a escrever o poema em 1780, mas apenas o finalizou em 1784.

Foi uma das odes mais traduzidas pelo mundo inteiro e corre o rumor por entre as hostes liter√°rias que foi impressa a letras douradas em cetim branco, ficando exposta no pal√°cio do Imperador da China.

Mais do que um simples poema, é uma meditação sobre a vida, sobre a morte e sobre a identidade humana.

05
Fev20

E o teatro voltou, como antigamente, a ser poesia

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Preparava-me eu para escrever algumas palavras sobre esta pe√ßa de teatro que estou a ler de Sophia - O Colar - quando o acaso me coloca perante as palavras de¬†Luis Miguel Cintra, que n√£o me roubou as palavras da boca, antes silenciando-as, porque o que escreveu sobre esta pe√ßa atingiu o √Ęmago da ess√™ncia de Sophia.

Fiquei maravilhada quando as li e aqui deixo um excerto:

 

Não sei se O Colar é mesmo uma peça de teatro.

Tanta é a leveza, tão transparentes e fugidias as personagens, tão frágil a estrutura dramática, tão previsível o esboço de intriga, que nada do pesado aparato do teatro parece que chega a estar ali. Mas está a poesia de Sophia, os seus temas, a sua limpidez, o seu saber.

A poesia aqui est√° a brincar, resolveu mascarar-se. E fingiu que era teatro. Talvez sem raz√£o. Por simples prazer. Por pura alegria. Alegria de viver.

E o teatro voltou, como antigamente, a ser poesia. Deixou por um instante de ser prosa, de p√īr tudo por extenso, como tanto do teatro que herd√°mos e continuamos a fazer.¬†Aqui tudo existe ao ser apenas aflorado.¬†

Em O Colar a poesia convoca farrapos de teatro, ligeiras evoca√ß√Ķes da com√©dia e da √≥pera, p√Ķe no centro do palco uma jovem mulher ou uma boneca com nome italiano de alguma hero√≠na de fic√ß√£o,¬†Vanina, que apostar√≠amos ser dupla, ou espelho, ou m√°scara da pr√≥pria Sophia neste jogo, nesta breve fantasia, e f√°-la conviver com personagens que tanto saem das mem√≥rias de inf√Ęncia, como da¬†commedia dell‚Äôarte, como dos teatros de marionetas, como de todas as conven√ß√Ķes, e fala da vida.

Da vida toda, ao de leve, como se de nada se tratasse, com aquela eleg√Ęncia que s√≥ sabe ter a muita arte ou uma sabedoria j√° de muita vida feita.

14
Jan20

A coragem protege os audazes

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Se tu soubesses

que em todos os portos do mundo

h√° uma m√£o desconhecida

a acenar - adeus, adeus - quando se parte pró mar;

~Manuel da Fonseca~

 

Duas das minhas histórias favoritas das Histórias da Terra e do Mar são Saga e a História da Gata Borralheira.

Ambas se entrela√ßam numa mensagem √ļnica, que √† deriva navega neste mar de tempestade e de bonan√ßa, tornando-se no apogeu clim√°tico da vida: o poder da escolha e as suas consequ√™ncias.

O confronto, o desafio, a encruzilhada e finalmente a escolha levaram L√ļcia e Hans por um caminho inesperado, imprevis√≠vel, rumo ao desconhecido e sem regresso.

A coragem protege os audazes e é nas intermitências de um acaso que o destino se desenha, é na Providência de um imprevisto que a divindade de revela.

2019 foi o ano que escolhi para ler Sophia de Mello Breyner
Visitem o mundo encantado de Sophia
Em 2021 irei ler Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A Miss X aceitou o Desafio de Escrita dos Pássaros pela 2.ª vez!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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