Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livrologia

by Miss X

Livrologia

by Miss X

15
Jun19

Clarice com flores

logo11.pngAgora vou falar da dolencia das flores para sentir mais a ordem do que existe.

-Clarice Lispector

 

A páginas tantas percebo que as flores fizeram desabrochar eventos místicos nos acasos de Clarice. Especialmente as rosas às quais irei brevemente dedicar um conversatório. Por agora escrevo sobre aquela Clarice com flores,  abraços delas, não as contendo, mas deixando-as cair atrás de si enquanto caminha.

Numa das suas crónicas escreve sobre elas.

N√£o lhes imprime uma qualquer defini√ß√£o vegetal, ali√°s nega-a. Humaniza-as das p√©talas ao caule, com emo√ß√Ķes, sentidos, personalidade.

Do cravo ao girassol, da violeta √† margarida, passamos por elas como transeuntes que se olham olhos nos olhos, nesta rua de pequenas impress√Ķes curiosas.

Partilho um pequeno excerto florido deste jardim secreto de Clarice:


Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa iritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela?


O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho que é masculina.


A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer. A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro.


A margarida √© florzinha alegre. √Č simples e √† tona da pele. S√≥ tem uma camada de p√©talas. O centro √© uma brincadeira infantil.

A formosa orqu√≠dea √© exquise e antip√°tica. N√£o √© expont√Ęnea. Requer redoma. Mas √© mulher esplendorosa e isto n√£o se pode negar. Tamb√©m n√£o se pode negar que √© nobre porque √© ep√≠fita. Ep√≠fitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutri√ß√£o. Estava mentindo quando disse que era antip√°tica. Adoro orqu√≠deas. J√° nascem artificiais, j√° nascem arte.


Tulipa s√≥ √© tulipa na Holanda. Uma √ļnica tulipa simplesmente n√£o √©. Precisa de campo aberto para ser.


Flor dos trigais s√≥ d√° no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal √© b√≠blica. Nos pres√©pios da Espanha n√£o se separa os ramos de trigo. √Č um pequeno cora√ß√£o batendo. Mas ang√©lica √© perigosa.Tem perfume de capela. Traz √™xtase. Lembra a h√≥stia. Muitos tem vontade de come-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.


O jasmim é dos namorados. Dá vontade de por reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços, e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jardim.


Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e o seu canto. Só que não espera pela aurora. A violencia de tua beleza.

03
Jun19

Como se Cecília não fosse especial

logo10.pngSerão os mais trágicos que conseguem escrever com esta delicadeza à tona de cada palavra? Será o trágico necessário para se escrever assim?

Esta pastora de nuvens alada que vive na ausência, distante na proximidade que mantém com os outros, tem um pouco de mim.

Exilada em si própria, numa pátria que lhe é estrangeira, sem território, em viagem constante mesmo na sua permanência.

E chega assim este momento inadiável em que retiro Cecília debaixo do braço, onde se aninhou durante meses, em todos os lugares, em todos os tempos, indo e regressando sempre.

Devolvo-o à bibliotecária que o coloca no carrinho junto dos outros livros, como se Cecília não fosse especial.

Apenas mais um livro que deve voltar para uma prateleira poeirenta de onde n√£o sair√° t√£o cedo.

13
Mai19

Clarice e Cecília, diferenças na sua semelhança

logo10.pngE devagar girava o mundo

entre as suas pestanas

 

- Cecília Meireles

 

Ao ler Clarice e Cecília em conjunto descubro entre as duas diferenças na sua semelhança.

 

Agora, com as minhas leituras ao ar livre ou√ßo os seus sussurros, frases inteiras de vento. Encontrei uma que as une: quando nasces j√° perdeste. Nas inf√Ęncias marcantes destas duas mulheres a vida nasceu-lhes como uma derrota.

 

E na mesma √°rvore onde escrevem, abrem-se em dois ramos distintos:

Clarice nega a existência, diz-lhe não, constantemente e, para ela, a vida é demasiado grande.

Cecília aceita a existência, mas já derrotada, pois para ela a vida é tão pequena.

02
Mai19

E um desses brevíssimos instantes em que se tocam é na tirania da ausência


logo.jpg

Desde que comecei a ler alternadamente Clarice e Cecília, ambas se passeiam pelo meu pensamento, como se não as conseguisse dissociar.

 

Não se contagiam uma à outra, nem se complementam, pelo contrário, existem em diferentes universos paralelos, tocando-se por brevíssimos momentos da mesma existência. E um desses brevíssimos instantes em que se tocam é na tirania da ausência.

 

Estas duas mulheres nasceram de ausências biográficas e viveram em ausência na escrita, elevando-se como deusas nos seus próprios termos.

01
Mai19

Se eu pudesse confessar-me seria este o poema

logo10.pngSão tantos os poemas que gosto de Cecília, que um dia vou emoldurá-los. Restará apenas o colorido dos seus versos na minha parede branca. Vou ter de equacionar esta ideia seriamente e decorar as paredes com poemas.

 

Ah, se eu pudesse confessar-me seria este o poema da minha Confissão.

 

Ali√°s, mais do que uma confiss√£o √© a s√≠ntese dos √ļltimos anos que tenho vivido. N√£o sei como cheguei aqui, a este momento, ao agora, mas cheguei s√£ e salva e √© tudo o que importa.

 

De tanto querer ser boa,

misturei o céu com a terra,

e por uma coisa à-toa

levei meus anjos à guerra.

 

Onde errei?

Errei ao tentar ser alguém que não eu.

 

Talvez o mundo nascesse certo/ mas depois ficou errado.

 

Sou mais eu agora, do que fui.

E prometo não deixar de o ser, por nada nem ninguém.

Pus caleidoscópios de estrelas

entre cegos de ambas as vistas.

Geometrias imprevistas,

quem se inclinou para vê-las?

25
Abr19

A eterna busca pela perfeição do mundo da moda

logo10.pngOs versos de Cecília são tão intemporais e transversais a todos os tempos do mundo, que podemos cometer esta ousadia de olhar através deles os nossos próprios tempos.

 

Não diminuindo o poema onde os versos se inserem, nem descaracterizando a mensagem original nele contida, quando os li vi a eterna busca pela perfeição do mundo da moda, que deixa cicatrizes sem misericórida em quem por ele passa.

 

Pobres serpentes sem lux√ļria,

que são crianças, durante o dia.

Dez anjos anémicos, de axilas profundas,

embalsamados de melancolia.