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Livrologia

Livrologia

20
Fev24

Ficas preso no meu olhar esverdeado que se funde com o mar

Foi por causa do teu cheiro que eu me apaixonei por ti, naquela tarde, já no fim da tarde, no paredão junto ao mar, em Marselha, o sol tão perto no fundo do mar, a inacreditável cor roxa do horizonte, o sol baixa por detrás da mancha da nuvem, um corredor de gaivotas atarefadas atravessa o meu passeio e tu passas rente à minha sombra que já foge, passas e olhas para mim, para o meu cabelo e ficas preso no meu olhar esverdeado que se funde com o mar.

√Č mar. √Č precip√≠cio. Fatalidade.

Excerto do conto Suzanne, Querida Suzanne

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

13
Fev24

Cristina Carvalho e a sua construção literária híbrida

imageedit_5_5942465162.png

Pela primeira vez leio Cristina Carvalho e as primeiras impress√Ķes que tenho dos seus primeiros contos, inseridos na colect√Ęnea¬†At√© j√° n√£o √© adeus¬†(1989), √© a de uma constru√ß√£o liter√°ria h√≠brida.

Uma construção baseada na não existente, mas implícita, escrita confessional das personagens, fundindo-a numa história contada por uma terceira voz, aquela mesma que terá subrepticiamente lido as páginas íntimas e secretas, transformando-as numa história aparentemente trivial.

Esta t√©cnica √© absolutamente fascinante para o leitor, que se deixa confundir, raramente sabendo se est√° perante escrita confessional, se perante uma narrativa paralela, acabando ambas por mergulhar numa miscel√Ęnea de tempos e espa√ßos simult√Ęneos.¬†

13
Fev24

Esta figura sabe tudo da vida, garanto-vos

Hoje em dia, quem olhar para a velha Zefa poderá achar que ninguém, que não sabe nada sobre fodas e outras coisas assim, mas engana-se: esta figurinha baixa e gorda, redonda e rija como uma noz, quando fala mal se ouve, tão discreta a sua palavra é, esta figura sabe tudo da vida, garanto-vos.

Excerto do conto Suzanne, Querida Suzanne

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

12
Jan24

N√£o me perguntem quando vou, se voltarei algum dia

Não me perguntem quando vou, se voltarei algum dia. Não me perguntem nada disso. O tempo alarga-se à minha frente. E a montanha, por detrás, eleva-se de tal modo na direcção do céu que me tapa tudo aquilo que não quero ver. Sendo assim, mesmo que me telefonem, mesmo que me escrevam, me falem, me choirem, me gritem, me corram, me andem, me fujam, me prendam, me larguem, cá estarei olhando de soslaio, olhando cá do estrangeiro e sempre de dentro para fora, como planeta em movimento, para esta vida cheia de luz, de força e de esperança. Até ver.

Excerto do conto Manhãs de Vidro

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

05
Jan24

Uma pessoa apaixona-se, facilmente, não é?

Consegui chegar. Ou seja, consegui adormecer numa cama que me aguardava h√° algumas horas e estou bem. Frio? N√£o! N√£o tenho frio nenhum. Mas n√£o sei por quanto tempo n√£o vou ter frio.

Comer?  Como bem. Seria vulgar dizer que tenho saudades do bife e das batatas fritas ou do bacalhau com grelos mas, realmente, apaixonei-me pelas finíssimas fatias de salmão fumado e pelos lombinhos de arenque em seu molho; apaixonei-me pela batatinha redonda, bem cozida, coroada por uma sílaba de compota vermelha; apaixonei-me pelo chá fervente, desse das bagas da floresta e pelas tostas de pão e pelo café desmaiado e pelo bolo de canela e cominhos.

Uma pessoa apaixona-se, facilmente, não é?

Excerto do conto Manhãs de Vidro

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

13
Dez23

Uma espécie de reconciliação do coração com a cabeça

Não esteja tão desoladamente triste porque eu não sei o que lhe hei-de dizer nem o que lhe hei-de fazer. Sabe? A tristeza pode ser uma espécie de reconciliação do coração com a cabeça, se é que assim o podemos dizer, é um despertar lento da alma, nuvem clara que nos trespassa os olhos sem doer, é um sentimento indefinível e misterioso que até nos pode aconchegar e fazer-nos pensar em coisas inesperadas e importantíssimas à nossa volta.

Excerto do conto Até já não é adeus ou

A triste história de Luís desde que nasceu até que morreu

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

06
Dez23

O tempo é baralhado como um jogo de cartas

imageedit_5_5942465162.pngNos contos de Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho há um caleidoscópio de vivências interiores que teimam em quebrar a opacidade vítrea, para se revelarem em pequenos pedacinhos coloridos de mundos íntimos.

Nestes contos o tempo é baralhado como um jogo de cartas, e cada carta que sai do baralho é um fragmento da realidade. O passado, o presente e o futuro, espalhados pela nossa leitura, num jogo em que não há vencedores, nem vencidos.

06
Dez23

Passados muitos, muitos anos, voltei a essa rua

Passados muitos, muitos anos, voltei a essa rua. Queria ver a casa onde tinha vivido. Queria lembrar-me de mim, do meu pai, novo, sempre coberto de livros e de pap√©is, engolindo livros inteiros como fazem certos p√°ssaros que com rapidez de rel√Ęmpago pescam e engolem peixes vivos, numa calma pr√≥pria, justificada pela pr√≥pria Natureza.

Da minha mãe, queria lembrar-me dela como se ela ali estivesse ainda, atrás de nós ou à nossa frente, num bailado eterno de piruetas de garça.

Fui sozinho. A casa reconheci-a logo.

Excerto do conto Até já não é adeus ou

A triste história de Luís desde que nasceu até que morreu

in Até já não é adeus (1989) de Cristina Carvalho

Quanto mais leio menos sei
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
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