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Livrologia

Livrologia

30
Mai24

Foi uma espécie de revelação, se quiserem

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Ainda recordo nitidamente a sensação que tive. Foi como se alguma coisa descesse do céu, devagar, quase como que flutuando, e eu pudesse agarrar nela.

Por que raz√£o quis o destino que me viesse parar √†s m√£os, n√£o sei dizer, mas aconteceu. Nunca soube e continuo sem saber. Foi uma esp√©cie de revela√ß√£o, se quiserem. Talvez ¬ęepifania¬Ľ seja uma palavra melhor.

A √ļnica coisa que posso afirmar √© que a minha vida mudou da noite para o dia no preciso instante em que Dave Hilton, enquanto primeiro batedor, alcan√ßou, de forma magn√≠fica, a segunda base.

Haruki Murakami in Prefácio de Ouve a Canção do Vento (1979)

30
Mai24

Ao escrever torna-se-me muito mais simples dar sentido à vida

Só mais uma coisa acerca da escrita.

Escrever, para mim, √© uma tarefa terrivelmente angustiante. Posso estar um m√™s inteiro sem redigir uma √ļnica linha, ou chegar √† conclus√£o de que tudo o que escrevi durante tr√™s dias e tr√™s noites a fio n√£o vale a ponta de um corno. Ao mesmo tempo, a escrita d√°-me imenso gozo. Em compara√ß√£o com as adversidades que encontramos pelo caminho, ao escrever torna-se-me muito mais simples dar sentido √† vida.

in Ouve a Canção do Vento (1979) de Haruki Murakami

28
Mai24

A par da m√ļsica, a leitura era o que mais gozo me dava

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A par da m√ļsica, a leitura era o que mais gozo me dava. Por mais trabalho que tivesse, por mais dura que fosse a minha vida, por mais esgotado ou falido que estivesse, era o √ļnico prazer que ningu√©m me podia tirar.

Estava já perto dos trinta anos quando o nosso bar de jazz de Sendagaya começou a dar sinais de estabilidade financeira. Continuávamos a ter dívidas, convém acrescentar, e não nos podíamos dar ao luxo de cruzar os braços (havia períodos com pouco movimento e as coisas nem sempre corriam pelo melhor), porém, tudo indicava que estávamos no bom caminho.

Haruki Murakami in Prefácio de Ouve a Canção do Vento (1979)

28
Mai24

Quem tem um coração negro só pode ter sonhos negros

¬ęQuem tem um cora√ß√£o negro s√≥ pode ter sonhos negros. Aqueles que o t√™m ainda mais escuro nem sequer sabem o que √© sonhar¬Ľ, costumava dizer a minha falecida av√≥.

Na noite em que ela morreu, o primeiro gesto que fiz foi estender a mão e fechar-lhe os olhos. Enquanto lhe cerrava suavemente as pálpebras, os sonhos que ela tivera ao longo dos seus setenta e nove anos esfumaram-se em silêncio, sem deixar rasto, evaporando-se como gotas de um aguaceiro de Verão no asfalto quente.

in Ouve a Canção do Vento (1979) de Haruki Murakami

26
Mai24

N√£o me sobrava tempo nem dinheiro para ¬ęgozar a juventude¬Ľ

haruki.png

Foi assim, que, movido pela necessidade de honrar os compromissos financeiros, dediquei os meus dias, entre os vinte e os trinta anos, ao trabalho f√≠sico (fazer sandu√≠ches e preparar cocktails, p√īr no olho da rua os b√™bados √† beira de um ataque de f√ļria).

Ao fim de vários anos nisto, o senhorio achou que estava na hora de fazer obras no prédio, de modo que não tivemos outro remédio senão mudarmo-nos de armas e bagagens para Sendagaya, no coração da cidade.

O clube era maior, o que nos permitiu instalar um piano de cauda, mas, como devem calcular, as dívidas também aumentaram. Decididamente, os tempos não estavam fáceis. Olhando para trás, lembro-me sobretudo de ter trabalhado desalmadamente.

Na altura em que a maior parte dos jovens da nossa idade anda na boa-vai-ela, n√£o me sobrava tempo nem dinheiro para ¬ęgozar a juventude¬Ľ. Apesar disso, sempre que arranjava uma brecha, pegava num livro e aproveitava para ler.

Haruki Murakami in Prefácio de Ouve a Canção do Vento (1979)

26
Mai24

Posto de outro modo, o que ficar√° de mim depois de cremado?

Passou-se isto h√° quinze anos.

Tal como um avião com uma avaria no motor trata de aliviar primeiro a carga, a seguir os assentos e, por fim, os pobres assistentes de bordo, também eu me consegui libertar de praticamente tudo durante esses quinze anos e, em contrapartida, nada de novo adquiri.

Terei feito bem? Vai l√° uma pessoa saber!

O meu percurso existencial tornou-se mais f√°cil, convenhamos, mas aterra-me a ideia do que poder√° acontecer quando eu envelhecer e a hora da morte se aproximar.

Posto de outro modo, o que ficará de mim depois de cremado? Nem um só osso.

in Ouve a Canção do Vento (1979) de Haruki Murakami

18
Mai24

Passava o tempo a ouvir a m√ļsica de que mais gostava

haruki.png

Em todo o caso, foi uma √©poca feliz, sem sombra de d√ļvida.

Era jovem, estava nas melhores condi√ß√Ķes f√≠sicas, passava o tempo a ouvir a m√ļsica de que mais gostava e era dono do meu (pequeno) neg√≥cio.

N√£o tinha de apanhar todos os dias um comboio apinhado para ir trabalhar, ningu√©m me obrigava a assistir a reuni√Ķes aborrecidas at√© dizer basta, nem tinha de me vergar aos interesses de um patr√£o de quem n√£o gostava.

Além do mais, oportunidades de encontrar gente interessante era coisa que não faltava.

Haruki Murakami in Prefácio de Ouve a Canção do Vento (1979)

18
Mai24

Munido de uma régua, comecei a observar cautelosamente o mundo em redor

Hartfield diz o seguinte acerca de um bom texto liter√°rio: ¬ęPela sua pr√≥pria natureza, o ato de escrever consiste em medir a dist√Ęncia entre quem escreve e as coisas que nos rodeiam. N√£o √© de sensibilidade que precisamos, mas de um instrumento de medi√ß√£o.¬Ľ (What's so bad about feeling good?, 1936)

Julgo que terá sido no ano em que Kennedy foi assassinado que, munido de uma régua, comecei a observar cautelosamente o mundo em redor.

in Ouve a Canção do Vento (1979) de Haruki Murakami

Quanto mais leio menos sei
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Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
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