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Livrologia

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11
Dez20

Isabel Nery | Sophia de Mello Breyner Andresen

sofia isabel nery ‚Äď Pesquisa Google.jpg

Não sou uma grande apreciadora de biografias, a não ser que o biografado me interesse tanto que não consiga ignorá-lo. Foi o caso de Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery.

Isabel Nery, jornalista, estreou-se no género biografia com este livro que considero inestimável, não só pela exactidão dos factos da vida da poeta, mas também pelo excelente contexto histórico dos anos ditatoriais da época em que Sophia viveu. 

Muito bem escrito, com detalhes deliciosos de Sophia, cada página mais interessante que a anterior, em que li sem parar, muitas vezes pela noite fora, Isabel Nery consegue trazer-nos Sophia ao mais profundo do seu íntimo, sem desvendar o mistério da sua genialidade.

Em entrevista, Isabel Nery confessou a aventura em que se tornou a escrita deste livro:

Foi uma bela aventura, que me levou até à Grécia, ao Algarve, à Granja e ao Porto, mas também a ouvir cerca de 60 testemunhos.

Desde alguma fam√≠lia, grandes amigos, como Manuel Alegre e Gra√ßa Morais, at√© tradutores e especialistas na obra, assim como o pescador Jos√© Muchacho ou empregados dos restaurantes que Sophia frequentava. Ou ainda historiadores da ilha de F√∂hr (antes Dinamarca, hoje Alemanha) de onde o bisav√ī de Sophia, Jan Andresen, veio para Portugal.

Foi um trabalho profundo, de investiga√ß√£o, por isso, a somar ao que j√° referi, pesquisei arquivos, como os da PIDE, na Torre do Tombo, ou os arquivos da Presid√™ncia da Rep√ļblica, o esp√≥lio da Biblioteca Nacional, assim como artigos de jornal e textos escritos sobre Sophia. O objetivo era chegar a uma vis√£o o mais abrangente poss√≠vel da autora, que me permitisse revelar uma Sophia completa, nas suas diferentes facetas (crian√ßa, mulher, m√£e, amiga, poeta, pol√≠tica).

in www.jornaltornado.pt

11
Dez20

N√£o h√° d√ļvida que os deuses gostam de si, pelo menos tanto¬†como os mortais

A base da democracia, lembrava Sophia, n√£o eram as elei√ß√Ķes, mas sim os direitos individuais. ¬ęE¬†em Portugal √© dificil as pessoas fazerem valer os seus direitos.¬Ľ
(...)
Entre os abalos pessoais ‚ÄĒ o acidente do filho mais novo que testa a resili√™ncia do casal- e os¬†abalos profissionais, como a nomea√ß√£o de Sophia para v√°rios cargos depois do 25 de Abril¬†enquanto o marido fica de fora,76 o div√≥rcio torna-se inevit√°vel. Mas ser√£o precisos quatro anos¬†para o juiz redigir a senten√ßa que os separa judicial e definitivamente. O amigo Soares acredita que¬†Sophia sempre teve grande amor por Tareco. Mas apanhou-o numa situa√ß√£o dif√≠cil que levaria √†¬†separa√ß√£o. O div√≥rcio, mal aceite numa fam√≠lia cat√≥lica, torna-se a √ļnica sa√≠da para uma ¬ępessoa¬†vertical e √ļnica de car√°cter, que tinha princ√≠pios e cumpria-os¬Ľ.
(...)
Para medos maiores (na sua hierarquia muito pr√≥pria) e d√ļvidas sobre pol√≠tica recorria a M√°rio¬†Soares. Al√©m dos micr√≥bios e do cancro, o que mais atormentava a poeta eram as quez√≠lias¬†dom√©sticas com as empregadas dom√©sticas, ao ponto de, perante a not√≠cia de uma nova distin√ß√£o¬†ter afirmado: ¬ęMas eu n√£o quero um pr√©mio. Para que quero um pr√©mio? Eu queria era uma
empregada.¬Ľ

Quando o telefone tocava às quinhentas, normalmente depois das duas da manhã, em casa de Manuel Alegre, já se sabia: só podia ser Sophia E o mais provável era o tema da conversa passar pelas arrelias com as funcionárias de limpeza, que lhe davam volta à cabeça, sobretudo quando deixou de poder contar com Luísa, uma coluna de Hércules da família.
(...)
Nem os mais pr√≥ximos, como Miguel Torga, de quem se diz que tinha uma paix√£o plat√≥nica por¬†Sophia, escapavam ao sarcasmo da poeta. Um dia, encontrando-o em Coimbra, Torga diz-lhe que¬†queria escrever um poema sobre ela. Na volta recebeu uma daquelas suas respostas paralisa doras:¬†¬ęLogo agora que est√° a escrever t√£o mal!?¬Ľ
(...)
O autor de Contos da Montanha acompanhara o crescimento da poeta enquanto jovem e conhecia-a¬†bem. Em carta de 1957 escreve-lhe: ¬ęN√£o h√° d√ļvida que os deuses gostam de si, pelo menos tanto¬†como os mortais.¬Ľ Em entrevista de 2001, Sophia recorda como Torga lhe dizia que ela era sens√≠vel¬†demais e isso lhe provocava sofrimento. No final dos anos 1970, Sophia listava o m√©dico escritor¬†entre os autores que mais admirava. Juntamente com Herberto H√©lder, Lu√≠sa Neto Jorge. E Jorge de¬†Sena.
(...)
Tamb√©m Saramago era admirador confesso da poeta. ¬ęOlha a beleza disto¬Ľ, disse um dia o escritor¬†a Pilar del Rio, quando estava no hospital, depois de uma opera√ß√£o. ¬ęlam e vinham e davam o nome¬†√†s coisas¬Ľ, era o poema de dois versos de que Saramago tinha gostado. Mas nem a troca de¬†galhardetes inibia Sophia de reagir com obstina√ß√£o a todos e qualquer um que fizessem¬†observa√ß√Ķes sobre o seu v√≠cio do tabaco. Notado por Saramago, valeu-Ihe um dos coment√°rios¬†arrasadores de Sophia: ¬ęCaro amigo, enquanto estou a fumar tenho os dedos ocupados e n√£o estou¬†a escrever patacoadas como muitos fazem.¬Ľ

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

09
Dez20

A cultura n√£o existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar

¬ęA minha m√£e s√≥ se conseguia concentrar √† noite. Recordo-me de acordar √†s 4 da manh√£, ir √† sala e
v√™-la a escrever. Ficava horas no corredor a espreit√°-la. Era uma coisa misteriosa e espantosa. ¬Ľ
(...)
Contra a perigosa ¬ęarte de ensinar um povo a n√£o pensar¬Ľ que √© a demagogia, a autora socorre-se¬†dos dizeres de um prov√©rbio africano: ¬ęUma palavra que est√° sempre na boca transforma-se em
baba. N√£o queremos continuar a suportar a baba dos slogans.¬Ľ¬†
(...)
A cultura n√£o √© um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e¬†de todas as comunidades. A cultura n√£o existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar para¬†que o homem possa construir e construir-se em consci√™ncia, em verdade e liberdade e em justi√ßa. E,¬†se o homem √© capaz de criar a revolu√ß√£o, √© exatamente porque √© capaz de criar cultura. Ali√°s,¬†porque a pr√≥pria revolu√ß√£o √© um ato de cultura, h√° sempre ¬ęuma profunda unidade entre a liberdade¬†de um povo e a liberdade do intelectual e do artista¬Ľ
(...)
¬ęPodem dizer que o povo n√£o l√™ a maior parte dos escritores portugueses. Eu tamb√©m n√£o. √Ȭ†evidente que a maior parte dos escritores portugueses tem um uso burgu√™s da cultura, que me¬†ma√ßa profundamente.¬Ľ

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

04
Dez20

Tudo o que marcava a vida intelectual do nosso país passava pela Travessa das Mónicas

Fingir que nada se passava. Fingir que a mudança não era imperativa Fingir era um pecado tão grande como tantos. Para a poeta, não fazer nada também era fazer mal. Por omissão.
(...)
O tempo era de ditadura e a poesia tinha-se transformado num lugar de oposi√ß√£o, clandestinidade¬†at√©. Nas escolas, trocavam-se volumes de poesia como quem desobedece. Na mesma turma de¬†Ant√≥nio Guterres e Lu√≠s Miguel Cintra, Nuno J√ļdice recorda a busca por livros que n√£o faziam parte¬†do programa.

Nos intervalos, no Liceu Cam√Ķes, em Lisboa, cambiavam-se conquistas liter√°rias. Ora¬†Guterres chegava dizendo, orgulhoso, que tinha acabado de comprar um exemplar de Sophia,¬†Geografia; ora Cintra trazia o Livro Sexto de presente a Nuno J√ļdice, aniversariante no mesmo dia¬†do amigo encenador. ¬ęProcur√°vamos tudo o que fosse contra a ditadura. Livro Sexto, que √©¬†important√≠ssimo, tem muitos textos com forte componente pol√≠tica. Sophia marcou toda aquela¬†gera√ß√£o¬Ľ.

(...)

Marcou pelos ser√Ķes liter√°rios, ou talvez mais ainda, pelos ser√Ķes pol√≠ticos que¬†norteavam uma nova vis√£o do pa√≠s, realizados na casa da poeta e do contestat√°rio marido. Eram os¬†m√≠ticos ser√Ķes. Na m√≠tica Travessa das M√≥nicas. Com o m√≠tico casal Sophia e Francisco Sousa¬†Tavares. S√≠mbolo de um per√≠odo da hist√≥ria de Portugal, o da oposi√ß√£o √† ditadura.
(...)
Arriscando a persegui√ß√£o da PIDE caso fosse ouvido em locais p√ļblicos, quem queria questionar o¬†regime fazia-o em tert√ļlias ou sess√Ķes de poesia organizadas no resguardo das habita√ß√Ķes de¬†intelectuais lisboetas. A morada de Sophia e Sousa Tavares, no primeiro andar do n√ļmero 57 da¬†Travessa das M√≥nicas, torna-se um desses baluartes de resist√™ncia.
(...)
Tudo o que marcava a vida intelectual do nosso país passava pela Travessa das Mónicas. E eu cresci ouvindo tudo isto. Era uma casa cheia de imprevistos. Era uma casa cheia.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

29
Nov20

Homero é, portanto, o educador de toda a Grécia

Aqui, sim, pode ver-se a Grécia com mais Sophia. Apetece ler baixinho o verso que batizou com o
nome do local: Na nudez da luz (cujo exterior é o interior)/ Na nudez do vento (que a si próprio se
rodeia)/ Na nudez marinha (duplicada pelo sal)/ Uma a uma s√£o ditas as colunas de Sunion.
(...)
Uma das dádivas da Grécia é uma certa capacidade de espanto. Uma harmonia daquilo que noutras
geografias seria inconciliável. De repente do nada, numa interrupção abrupta no tédio de galgar quilómetros pouco menos que iguais entre si, revelam-se pequenos aglomerados de casas coloridas, encarrapitadas na montanha de pedra. Como se não houvesse mais chão na terra. Delfos aproxima-se.
(...)
Nesta Grécia habita um povo educado por poeta: Homero. No tempo em que a formação era feita com base na memória não livresca, as histórias -e a sua moral - eram passadas oralmente.

Com¬†uma melodia e ritmo pr√≥prios, o canto dos poetas fixa-se. Impregna passado e futuro. Na J√≥nia e¬†em Atenas, Homero torna-se o grande livro que se explica, se dita e se aprende de cor." Assim se¬†cultivam gera√ß√Ķes inteiras, inspiradas pela ll√≠ada e pela Odisseia.

Homero é, portanto, o educador de toda a Grécia", um apurador das virtualidades do seu povo. Não se limitando a contar batalhas e aventuras marítimas, deixava como herança a perseguição de um ideal humano, muitas vezes simbolizado em mitos que reuniam em si unidade, religião, vida, comportamento ético e sentido da beleza.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

21
Nov20

O povo português é muito mais culto que os intelectuais de Lisboa

Sophia marca o seu territ√≥rio com a desfa√ßatez e o sarcasmo que lhe eram conhecidos. Ali√°s,¬†contra as ¬ęm√£os horrorosas dos fascistas¬Ľ, a poeta entendia que s√≥ havia uma arma: o humor.¬†Quando lhe perguntam o que achava de uma certa senhora salazarenta, respondeu, em tom ir√≥nico,¬†que a achava boa, inteligente, s√©ria, culta e bem-educada, fazendo que at√© os amigos da dita¬†senhora tivessem de dar uma gargalhada.

¬ę√Č o √ļnico sistema: rir de quem nos quer matar.¬Ľ
(...)
Os ditadores - √© sabido - nńĀo olham para os mapas. As suas excurs√Ķes desmesuradas fundam-se em¬†confus√Ķes. O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos.¬†

(...)
Argumentando com o primor e autenticidade do que encontrara nas palavras de um homem simples, defende a perspetiva de cultura que devia pautar a vida dos portugueses. Não a cultura dos museus, mas a das pessoas:

Tudo começa por aquilo que se entende realmente como cultura. Para mim só é cultura a cultura da inteireza, a que implica não só o que um homem sabe, mas a sua maneira de ser, de viver e de estar com os outros. Nesse sentido, considero que o povo português é muito mais culto que os intelectuais de Lisboa.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

20
Nov20

A PIDE esteve em nossa casa revistando e levou todas as suas cartas

√Ä crescente contesta√ß√£o e exig√™ncias de mudan√ßa, o Estado Novo responde com maior repress√£o¬†e fortalecimento da capacidade de interven√ß√£o da PIDE atrav√©s do decreto n.o 40550, que alarga o¬†√Ęmbito das ¬ęmedidas provis√≥rias de seguran√ßa¬Ľ. De ent√£o em diante a pol√≠cia pol√≠tica persegue, prende e tortura com impunidade refor√ßada.

Sophia, Francisco Sousa Tavares e muitos dos seus¬†amigos passam a estar sob constante vigil√Ęncia da Pol√≠cia Internacional e de Defesa do Estado.¬†

Para os agentes, tudo era digno de registo. Desde os factos mais banais, como as pessoas¬†recebidas em casa, at√© encontros p√ļblicos para apresenta√ß√Ķes de livros. Os telefonemas eram¬†escutados, as entradas e sa√≠das vigiadas e o correio interceptado. Em carta a Jorge de Sena, em¬†1962, Sophia lamenta-se: ¬ęA PIDE esteve em nossa casa revistando e levou todas as suas cartas.¬Ľ¬†

Também a poeta foi detida para ser interrogada pela polícia política, como confirmam os espólios depositados na Torre do Tombo.

(...)

A oposição assumida pelo casal levaria a PIDE a prender Francisco Sousa Tavares por duas vezes, em 1966 e 1968.

Para prestar depoimento ou para dar apoio ao marido, Sophia conhecia bem as salas de interrogatório da Rua António Maria Cardoso e o caminho para a prisão de Caxias. As visitas, sempre intermediadas por um vidro, aconteciam na companhia de dois dos filhos de cada vez (os permitidos pelos serviços prisionais), às segundas-feiras. Mais do que uma experiência traumática, visitar um pai detido por se rebelar contra o regime que censurava a liberdade de expressão, impedia a democracia e torturava presos, era uma honra.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

19
Nov20

Escrever para crianças é escrever para patetas

Num Portugal com a mania de que ¬ęescrever para crian√ßas √© escrever para patetas¬Ľ, Sophia insistia¬†na import√Ęncia pol√≠tica de se dirigir ao p√ļblico jovem. Se a sua poesia era a poesia das ideias e dos¬†valores, que ela praticou como forma de estar no mundo, os contos infantis n√£o o eram menos.

in Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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