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Livrologia

Livrologia

17
Abr21

A resistência invade o coração do mundo

Da passagem da aurora vem uma noite dizendo

que alguém resiste à coragem da vida.

E a noite sup√Ķe que s√≥ algu√©m resiste.

A noite desce, n√£o pode saber que s√£o muitos

que resistem todos por qualquer canto do ser,

mesmo quem finge, mesmo quem n√£o finge

e sofre solitário por saber da força,

a força teima dentro quando se fareja,

ó noite, a resistência invade o coração do mundo

Excerto do poema Estupro

Coroa da Terra (1946)

in Poesia I de Jorge de Sena

16
Abr21

Como as ruas soturnas, o coração se cala

Da minha fé no mundo sei o amor distante

com que amo aqueles que erram, desconhecem

o amor virtual do coração em sombra.

 

Como as ruas soturnas quando acaba o dia,

o coração em sombra perde as suas pedras,

perde as casas, guarda-se nos vidros

até que os candeeiros tragam uma luz por pontos,

uma humidade tranquila de nuvens n√£o formadas,

uma confiança de treva onde não passa gente.

Como as ruas soturnas, o coração se cala

e, pensativo, escuta as vozes das crianças;

outras crianças chegam da memória lenta

jogam o mesmo jogo que jogavam nela

ao tempo em que eu, criança, tinha ainda fé

para aceitar o mundo sem amor distante.

 

E se, com a dist√Ęncia, √© maior a sombra,

mais rápidos se escoam, rentes às paredes,

aqueles que eu amo porque sei que erram.

Poema Capilaridade

Coroa da Terra (1946)

in Poesia I de Jorge de Sena

16
Abr21

N√£o subscrevo a divis√£o do mundo em Bons e Maus

conversatorio3_1.pngNos prefácios de Sena tenho tido oportunidade de o conhecer melhor não só como autor, mas também como pessoa.

Nos seus prefácios Sena chega a escrever em tom confessional, revelando as suas crenças mais profundas. Uma revelação tão ou mais inesperada, considerando a privacidade que advocava, no entanto a vontade de comunicar com os seus leitores era suprema:

Religiosamente falando, posso dizer que sou cat√≥lico mas n√£o um crist√£o ‚ÄĒ o que apenas¬†significa que respeito na Igreja Cat√≥lica todo o velho paganismo que conservou nos rituais, nos¬†dogmas, etc., sob v√°rios disfarces, tal como a Reforma protestante n√£o soube fazer.

Acredito que¬†os deuses existem abaixo do Uno, mas neste Uno n√£o acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu¬†que, de uma maneira de certo modo hegeliana, p√īs a sua vida e o seu destino nas m√£os desse¬†Deus cuja exist√™ncia ou n√£o-exist√™ncia s√£o a mesma coisa sem sentido.

Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou qualquer antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito.

Mas, politicamente, sou contra qualquer esp√©cie de ditadura (quer das maiorias, quer de minorias), e em favor da democracia representativa. NńĀo tenho quaisquer¬†ilus√Ķes acerca desta ‚ÄĒ pode ser uma m√°scara para o mais impiedoso dos imperialismos. Mas isso¬†tamb√©m o podem ser outros sistemas.

Sou a favor da paz e do entendimento entre as na√ß√Ķes, e¬†espero que o socialismo prevalecer√° em toda a parte, mantendo todas as liberdades e a¬†democracia representativa.

N√£o subscrevo a divis√£o do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o¬†Diabo (estejam de cada lado estiverem). Apesar da minha forma√ß√£o hegeliana e marxista, ou¬†tambńóm por causa dela, os contr√°rios s√£o para mim mais complexos do que a aceita√ß√£o¬†oportunista de manique√≠smos simplistas.

15
Abr21

√Č o Sol, amor, o Sol √© que nos falta!

E num murm√ļrio brando, como se

o mar ali estivesse, e a terra inteira

não fosse apenas a que tive em sorte;

j√° no fechar dos olhos, mesmo antes

de até o próprio nada terminar,

direi, então (de forma que não ouças):

-√Č o Sol, amor, o Sol √© que nos falta!

Excerto do poema ¬ęTen√ß√£o¬Ľ do Amor Nocturno

Coroa da Terra (1946)

in Poesia I de Jorge de Sena

15
Abr21

Tu foste ao longe um marco de correio!...

Hei-de vir, meu amor, rapidamente,

que a nossa morte é outra, que eu morri

de quanto envenenaram meu desejo

com nomes e com rostos-solid√£o

e ausência... Meu amor: ai tantas vezes

te acreditava além da treva impura

e eras, afinal, um candeeiro

que a sombra disfarçava... ai tantas vezes

tu foste ao longe um marco de correio!...

Excerto do poema ¬ęTen√ß√£o¬Ľ do Amor Nocturno

Coroa da Terra (1946)

in Poesia I de Jorge de Sena

A leitura em todo o lado

O autor português de 2021 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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