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Livrologia

Livrologia

23
Out21

Nos espaços que a humanidade abandonada encontra nos desertos de si

A música é, diz-se, o indizível

por ser de inexprimível sentimento

da consciência, ou um estado de alma,

ou uma amargura tão extrema e lúcida

que passa das palavras para ser

apenas o ritmo e os sons e os timbres

só pelos músicos cientes de harmonia

e de composição imaginados. Mas,

se assim fosse, eles só dos homens

saberiam mover-se nos espaços

que a humanidade abandonada encontra

nos desertos de si. Começariam

onde a expressão verbal não se articula

por impossível. Viveriam sempre

na fímbria estreita à beira da maldade

e do absurdo, como que suspensos

na solidão da morte sem palavras.

Excerto do poema Ouvindo o Quarteto Op. 131, de Beethoven

Arte de Música (1968)

in Poesia II de Jorge de Sena

23
Out21

Tentei imaginar o dia-a-dia de Sena

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Tentei imaginar o dia-a-dia de Sena.

Indago pelas suas páginas e interrogo-me: como seria um dia da vida dele? Com as suas rotinas, com as suas obrigações como profissional, pai, marido, cidadão e autor?

Eu, uma mera mortal, que não consegue sequer manter a sua disciplina de escrita confessional, olho para este homem tão atarefado, que nunca se serviu de uma desculpa para deixar de fazer o que queria e precisava de fazer.

Nunca permitiu que o cansaço ou outro motivo qualquer interferisse com a sua genialidade.

D. Mécia, a mulher que esteve a seu lado, cuidou para que a escrita do marido não ficasse esmorecida numa casa cheia de filhos, onde nem sempre havia pão e todos ralhavam sem razão. Cuidou do silêncio, cuidou da sua privacidade, apaziguou quezílias e acompanhou-o para onde quer que ele fosse.

23
Out21

Tudo se cala em ti como na vida

Tudo se cala em ti como na vida.

Tudo palpita e flui como no leito

em que se morre ou se ama, já desfeito

o abraço do momento em que, sustida

a sensação da posse conseguida,

a carne pára a ejacular-se atenta.

Tudo é prazer em ti. Quanto alimenta

esta glória de existir, trazida

a cada instante só do instante ser-se,

reflui em ti, liberto, puro, aflante,

certeza e segurança de conter-se

na criação virtual o renascer-se

agora e sempre pelo tempo adiante,

mesmo esquecido. Em ti, o conhecer-se

deste possível é a paz do amante.

Excerto do poema «Requiem», de Mozart

Arte de Música (1968)

in Poesia II de Jorge de Sena

21
Out21

A música não exprime nada senão ela mesma

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E isto nos traz à questão da legitimidade destes poemas.

Não serie eu um como que profissional amador de música, se não soubesse, ou não achasse, que a música não exprime nada senão ela mesma. O que é maneira de dizer que ela não é uma experiência análoga à das artes visuais ou às da palavra, que vivem de representações significativas.

in Posfácio de 1969 -Poesia II de Jorge de Sena

21
Out21

Como é terrível ser-se tão sereno assim

(...) e vai seguindo pensativa, sem pensar em nada

porque pensar, em música, seria mentir tranquilamente

à sucessão de que é possível transitar de uma ideia

ao ponto concordado na memória imaginada da frase que

só de si tira tudo o que será tirado dela.

Como é terrível ser-se tão sereno assim,

perante todos os possíveis que nos não dá a vida,

mas a música dá. Como dói esta imensamente delicada e tão viril

tranquilidade mais do que inumana. Como ultrapassa tudo

este meditar de sons e sentimento, que finíssimo

penetra onde lá nada tem sentido mas uma existência

que num silêncio termina após o acabar-se.

 

Excerto do poema «Andante con Variazioni», em fá menor, de Haydn

Arte de Música (1968)

in Poesia II de Jorge de Sena

19
Out21

A música ocupou sempre um lugar especial

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Recebi educação musical e instrumental, e não recebi das outras artes mais educação preliminar que a do gosto (e não a prática delas, embora algumas veleidades desenhísticas e pictóricas eu tenha acalentado).

Na primeira adolescência, imaginava-me um pianista e compositor ilustre, que dava concertos nas reuniões de íntimos ou de famílias amigas, com muito estrondo de acordes e de emocionados ainda que não direi emocionantes «smorzandos»...

Não fui uma coisa nem a outra, não só porque a vida me distraiu de continuar os estudos, mas porque, sem dúvida, esse não era o meu destino «artístico».

Com efeito as contrariedades que me suprimiram essa carreira foram as mesmas que não suprimiram as outras - minhas de hoje - e que eram igualmente odiosas à minha numerosíssima família que, que eu saiba, não produziu até hoje, além de pessoas honestas e decentes, qualquer artista ou homem de cultura.

Para os meus maiores, e mesmo alguns dos menores, eu, interessando-me por música e por letras e artes, estava aberto a todas as catástroges, e nunca evidentemente seria coronel, almirante, director geral de ministério, ou criatura ganhando fortunas, únicas actividades que a família respeitava, já que mesmo a de professor (...) não era coisa digna de crédito a não ser como eventual achega de orçamentos domésticos.

in Posfácio de 1969 -Poesia II de Jorge de Sena

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