Páro de o ler, depois abandono-o, regresso novamente, ficando uma vez mais suspensa nesta teia de palavras predatórias que me enredam cada vez mais nesta caça furtiva, indefesa e de peito aberto.
Leio-o por entre as intermitências dos actos e palavras desta personagem que me desconforta.
Suspensa na página 222 desconhecia o porquê deste desalento e desta consternação que este homem ficcional me fazia sentir.
Um homem que quer salvar tudo e todos, perdendo-se a ele próprio nesta impossibilidade, para a qual não há valentia ou bravura que cheguem para tanto e tantos.
Na página 222 não sabe ainda que é ele que precisa de ser salvo de si próprio.
E foi nesta página que percebi a origem do desassossego que este livro me provocava.
Tolstoi começou por publicar, escondendo a sua identidade.
Começou por escrever sobre a sua vivência no Cáucaso.
O fascínio pelo Cáucaso - o "Oriente dos russos", tal como o definiu a crítica - já tão presente em Púchkin e em Lérmontov, foi algo que acompanhou Tolstoi desde a primeira juventude, até, praticamente, ao fim dos seus dias.
Deste fascínio nasceram duas teses de Tolstoi que viriam a reaparecer na sua escrita: que "o progresso não tornará o homem melhor", que só poderá sentir-se livre "na relação com os elementos primários que o constituem, na vida simples em contacto com a natureza da qual faz parte" e, por outro lado, descobrir que o sentido da vida (ser feliz) significava amar os outros, "viver para os outros, como vive cada ser na natureza".
«Na verdade, é impossível que as coisas sejam tão simples», dizia Nekliudov para consigo. No entanto, ainda que isto lhe parecesse estranho por estar habituado a pensar o contrário, via agora claramente que essa resposta trazia a solução tanto na teoria como na prática.
Quando viu Katiucha atrás de um guarda, como tantas vezes acontecera, com a blusa de presa e um lenço amarrado à cabeça, a emoção oprimiu-o: «Quero viver, quero um lar, filhos, quero uma existência de homem normal.»