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Livrologia

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18
Nov22

Mário de Andrade foi um autor profundamente autocrítico

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Continuo a navegar pelas páginas de Poesias Completas - Volume II, onde, num dos capítulos, Mário de Andrade comenta pelo seu próprio punho o processo de criação de Café. 

Quando os autores escrevem sobre as suas pr√≥prias obras √© interessante efectuar um paralelismo com a cr√≠tica. Geralmente esse paralelismo resulta numa concord√Ęncia em discordar de ambas as perspectivas.

Mário de Andrade foi um autor profundamente autocrítico, que deambulou demasiado pela fronteira da sua própria anulação. Talvez por isso gostasse de reflectir sobre o que escrevia, procurando de alguma forma a validação da sua obra:

Não se poderia acaso tentar uma ópera coletiva tendo como base do assunto o café?... Esta foi a pergunta inicial que em seus dois elementos teve imediato duas respostas em mim.

√ďpera ‚Äúcoletiva‚ÄĚ teve uma¬†resposta, al√©m de social, est√©tica e art√≠stica, que ser√° talvez a originalidade mais essencial do meu trabalho. N√£o se tratava¬†apenas de fazer uma √≥pera que interessasse coletivamente a uma sociedade, mas que tivesse uma forma, uma t√©cnica mesma¬†derivada do conceito de coletividade. Uma √≥pera coral, adivinhei. Um melodrama que em vez de indiv√≠duos, lidasse com¬†massas, em vez dos solistas virtuos√≠sticos que foram sempre a morte do valor social da arte, convertidos a semideuses de¬†culto na Gr√©cia como a semideuses de ouro em nossos dias: em vez de solistas, coros, personagens corais, corais solistas.¬†Enfim, uma √≥pera inteira, exclusivamente coral.

Quanto ao assunto do caf√©, a pr√≥pria hist√≥ria mais recente do grande com√©rcio paulista se impunha como li√ß√£o. A crise de¬†1929, a revolu√ß√£o de 30. Est√° claro que desde logo afastei qualquer ideia de cantar historicamente uma revolu√ß√£o¬†determinada. O que me importou foi o princ√≠pio geral: em toda a fase em que se d√° deprecia√ß√£o de uma base econ√īmica, vem¬†a insatisfa√ß√£o p√ļblica que acaba se revoltando e mudando o regime.

18
Nov22

E foge espavorido

O silêncio acordou por entre as sombras;
E foge espavorido
Em cabriolas, com o vento, na folhagem

 

Poema Momento - Poesias Inéditas e Esparsas

in Poesias Completas II (1941) de Mário de Andrade

17
Nov22

O meu peito é uma sala de castelo

O meu peito é uma sala de castelo,
Sala deserta, sala muda, fria,
Sem um riso de flor, sem a alegria
Duma açafata ou de algum pajem belo.


Solenidade e poeira. Fora o dia,
Festa do azul, do róseo, do amarelo,
Mas dentro apenas o ligeiro anelo
Da luz mortiça duma fresta esguia.


Paredes guarnecidas de veludo,
Alfaias, móveis, almadraques, tudo
Cobre a penumbra com seu olho absorto.


E h√° o retrato do meu antepassado,
O meu eu de criança abandonado,
O meu primeiro coração, já morto.

 

Poema O Retrato - Poesias Inéditas e Esparsas

in Poesias Completas II (1941) de Mário de Andrade

17
Nov22

Caiu-me ao peito cheio de esplendores

Tanta l√°grima hei j√°, senhora minha,
Derramado dos olhos sofredores,
Que se foram com elas meus ardores
E a √Ęnsia de amar que de teus dons me vinha.

Todo o pranto chorei. Todo o que eu tinha,
Caiu-me ao peito cheio de esplendores,
E em vez de aí formar terras melhores,
Tornou minha alma s√°fara e maninha.


E foi tal o chorar por mim vertido,
E tais as dores, tantas as tristezas
Que me arrancou do peito vossa graça,

Que de muito perder, tudo hei perdido!
N√£o vejo mais surpresas nas surpresas
E nem chorar sei mais, por mor desgraça!

Poema Soneto - Poesias Inéditas e Esparsas

in Poesias Completas II (1941) de Mário de Andrade

10
Nov22

M√°rio de Andrade sofria daquele mal que muitos autores sofrem

marioandrade2.pngMário de Andrade sofria daquele mal que muitos autores sofrem duarante a sua escrita: a obsessão por rever, reescrever, mudar tudo, recomeçar de novo. Examinava meticulosamente tudo o que escrevia, colocando dentro da gaveta todos os textos que considerasse menores.

Sempre que a musa o inspirava não esperava, rabiscando versos em fólios, cadernos e caderninhos, nas margens de livros que estava a ler ou até mesmo em cartas e pagou com o seu próprio dinheiro a primeira publicação de todos os seus títulos de poesia e ficção.

10
Nov22

Alguns dos versos mais bonitos que já inventei

Um dos meus poemas que mais despertam a minha curiosidade sobre a sua cria√ß√£o, e, valha a verdade, mais me dignificam¬†√© O¬†carro da Mis√©ria. N√£o ser√° talvez o mais belo, o mais perfeito como integridade est√©tica, mas √© sem d√ļvida um dos mais¬†realizados como integridade art√≠stica. E eu creio, como tamb√©m Manuel Bandeira, que O carro da Mis√©ria cont√©m alguns dos¬†versos mais bonitos que j√° inventei.

 

Excerto do manuscrito Ensaio de interpretação de O carro da Miséria

in Poesias Completas II (1941) de Mário de Andrade

09
Nov22

M√°rio de Andrade | Poesias Completas - Volume I

20829338.jpg

Tenho estado a ler os dois volumes das Poesias Completas de M√°rio de Andrade e com eles irei terminar a leitura da sua poesia.

Acabei de ler Poesias Completas - Volume I onde o autor decidiu reunir a sua obra poética, com alguns inéditos, após o regresso a São Paulo em 1941, intenção que revela em carta escrita:

 

Vou talvez polir algumas arestas e alimpar de cacoetes de combate alguns dos meus livros publicados que mais estimo e preparar uma possível edição de poesias escolhidas. 

Quanto mais leio menos sei
O autor português de 2021/2022 é Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
A autora portuguesa em destaque de 2019/2020 foi Sophia de Mello Breyner Andresen
Visitem o seu mundo encantado
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
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Notícias literárias ou assim-assim em Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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