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Livrologia

Livrologia

19
Nov19

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "N√£o foi!" - "Foi!" - "N√£o foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
√Č bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A f√īrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
N√£o h√° mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "N√£o foi!" - "Foi!" - "N√£o foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatu√°rio.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "N√£o sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
L√° onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

L√°, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

in Carnaval

Antologia - Manuel Bandeira

19
Nov19

Acalanto de John Talbot

Dorme, meu filhinho,

Dorme sossegado.

Dorme, que a teu lado

Cantarei baixinho.

O dia n√£o tarda...

Vai amanhecer:

Como é frio o ar!

O anjinho da guarda

Que o Senhor te deu,

Pode adormecer,

Pode descansar,

Que te guardo eu.

in Lira dos Cinquent'anos

Antologia - Manuel Bandeira

18
Nov19

Belo Belo

Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.

 

Tenho o fogo de constela√ß√Ķes extintas h√° mil√©nios.

E o risco brevíssimo - que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.

 

A aurora apaga-se,

E eu guardo as mais puras l√°grimas da aurora.

 

O dia vem, e dia a dentro

Continuo a possuir o segredo grande da noite.

 

Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.

 

Não quero o êxtase nem os tormentos.

Não quero o que a terra só dá com trabalho.

 

As d√°divas dos anjos s√£o inaproveit√°veis:

Os anjos n√£o compreendem os homens.

 

N√£o quero amar,

N√£o quero ser amado.

N√£o quero combater,

N√£o quero ser soldado.

 

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

 

in Lira dos Cinquent'anos

Antologia - Manuel Bandeira

17
Nov19

O Vento

O vento varria os meses

E varria os teus sorrisos...

O vento varria tudo!

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De tudo.

 

Excerto do poema Canção do Vento e da minha Vida

in Lira dos Cinquent'anos

Antologia - Manuel Bandeira

17
Nov19

A luta de Manuel Bandeira contra a ditadura poética

logo.jpg

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem-comportado

- Manuel Bandeira -

 

N√£o se pode conversar sobre Manuel Bandeira e n√£o mencionar a sua import√Ęncia no Modernismo Brasileiro.

Quando Manuel Bandeira escreveu os seus primeiros poemas, o parnasianismo dominava a poesia brasileira. Criavam-se poemas respeitando o rigor da forma, com medi√ß√Ķes exactas de versos e palavras, como se os poemas fossem figuras geom√©tricas perfeitas e matematicamente exactas, mas vazias de inspira√ß√£o e conte√ļdo.

Tornavam-se obras de arte expostas numa galeria liter√°ria, para serem apreciadas apenas pela sua est√©tica, j√° que os poemas pouco ou nada transmitiam no seu conte√ļdo, vazios de profundidade, vazios de sentido humano.

Escrevia-se poesia sob a teoria da arte pela arte, tentando-se a todo o custo alcançar a perfeição estética, que segundo os paranasianos, era o meio de buscar o sentido para a existência humana.

O parnasianismo estava t√£o entranhado no Brasil que durante anos a poesia esteve sob o jugo restritivo e ditatorial das rimas artificais, do vocabul√°rio rebuscado e de descri√ß√Ķes abundantes.

Manuel Bandeira lutava contra esta ditadura poética e queria que a poesia usufruísse de absoluta liberdade de criação. Queria versos livres, unindo a língua falada à escrita, resgatando as origens culturais.

E foi com o seu poema Os Sapos, o seu derradeiro grito de revolta, que a poesia nunca mais seria a mesma, nascendo assim o Modernismo brasileiro.

16
Nov19

A Estrela

Vi uma estrela t√£o alta,

Vi uma estrela t√£o fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

 

Era uma estrela t√£o alta!

Era uma estrela t√£o fria!

Era uma estrela sozinha

Luzindo no fim do dia.

 

Porque da sua dist√Ęncia

Para a minha companhia

N√£o baixava aquela estrela?

Porque t√£o alta luzia?

 

E ouvi-a na sombra funda

Responder que assim fazia

Para dar uma esperança

Mais triste ao fim do meu dia.

in Lira dos Cinquent'anos

Antologia - Manuel Bandeira

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