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Livrologia

by Miss X

Livrologia

by Miss X

27
Ago16

Ontem, ainda me olhavas de frente

Ontem, ainda me olhavas de frente,

mas agora sempre torces o olhar!

Ontem, até à hora dos pássaros ficavas comigo

e todos os falcões são agora corvos!

 

Como sou imbecil, e tu tão sábio,

tu, cheio de vida, eu, como uma estátua.

De todos os tempos, oh, esta feminina queixa:

«Querido, de que sou culpada?»

 

E de água tem as lágrimas, o sangue

de água, - e lavou-se em sangue e em lágrimas!

O amor não é mãe mas sim madrasta:

não esperes dele juízo nem clemência.

 

A algum sítio levam os barcos

os amados, os leva o caminho branco...

Há um gemido ao longo da terra:

«Amado meu, de que sou culpada?»

 

Ainda ontem, deitado aos meus pés,

pensavas que eu era poderosa como a China!

As duas mãos, de súbito, me largaste - 

e caiu-me, como uma antiga moeda, a vida!

 

Marina Tsvetaeva

Excerto in Poetas Russos, antologia de Manuel Seabra

23
Ago16

Marina Tsvetaeva| Um carácter indómito que sempre namorou o abismo

À sua voz desalinhada e brilhante aliou, convenientemente para o mito que os russos adoram e alimentam, um destino trágico. Juntou-se, assim, a tantos outros escritores russos. Mas Tsetaeva era dominada por um carácter indómito que sempre namorou o abismo.

Como se formou este carácter? Para tal contribuiu decerto a educação, obra de sua mãe, que propugnava uma postura inflexível no plano dos valores: acima de tudo, em todas as circunstâncias, a dignidade, a coragem e o rigor; inculcou-lhe ainda a convicção de que todo o dinheiro é sujo e de que quem cede à ganância perde a alma. Rememorando a infância, disse-nos: “Era impensável procurar obter a satisfação de qualquer desejo. Bastava que tivéssemos vontade de uma coisa para que ela não nos fosse dada.”

malomil.blogspot.pt

23
Ago16

Marina Tsvetaeva| Uma poetisa de extremos

Marina Tsetaeva (1892-1941) é uma luz cintilante que ascendeu ao firmamento da poesia russa. Uma poetisa de extremos:

 

         Pecarei –  como peco – como pequei: Com paixão!

         Deus deu-me sentidos – todos os cinco!

 

Poeta da desmesura, sempre disposta a atingir o limite e a ultrapassá-lo. Em certa ocasião, acossada, como quase sempre após 1917, por extrema miséria material e mesmo fome, foi obrigada a deixar as duas filhas num orfanato da Moscovo bolchevique, onde julgou que seriam alimentadas como ela não podia fazer. Mas, por desventura, a mais nova morreu de fome, o que deixou a mãe com um profundo sentimento de culpa. Pouco depois, em poema dedicado a um antigo amante, para dar nota da mútua destruição que o amor produz, descreve-se a si própria como a única responsável:

         Acusada de infanticídio.

         Cruel e exausta.

         E do inferno perguntar-te-ei,

         “Minha querida o que te fiz?”

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Marina1917.jpgImagem rolfgross.dreamhosters.com