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Livrologia

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20
Mar17

Selma Lagerlöf| O Cocheiro da Morte

Um conto em particular desta colect√Ęnea de contos - O Cocheiro da Morte -, que me andou a profanar as v√≠sceras, a violar o meu segredo, a transgredir-me, arrombando as cren√ßas que me contaram, devassando as ra√≠zes que me sustentam, sussurando-me a verdade que sempre neguei por n√£o conhecer outra.

Um conto que detestei ler desde o seu início, que abandonei a meio, que retomei e abandonei outra vez, que recusei ler, com quem batalhei.

√Č sempre assim com hist√≥rias que v√£o aniquilar vazios que pensei estarem cheios, que v√£o crua e desumanamente contar aquilo que n√£o quero ler, destruindo¬†partes de mim que ir√£o renascer numa outra dimens√£o.

Nas suas √ļltimas p√°ginas n√£o o quis¬†abandonar, retardando a sua leitura para n√£o chegar ao seu fim, que criou um novo in√≠cio em mim.

Fiquei sem saber o que dizer sobre este silêncio de abandono em que ele me deixou.

 

Neste livro:

O Cocheiro da Morte

A Lenda de Santa L√ļcia

O Tocador de Violino

Sigrid, a Soberba

A Saga de Reor

A Velha Agneta

O "Tomte" de Toreby

O Caminho entre o Céu e a Terra

20
Mar17

Senhor, fazei com que a minha alma alcance a maturidade antes de ser ceifada!

Em breve vir√° a manh√£ do primeiro dia do ano, David, e, ao acordarem, o primeiro pensamento dos homens ser√° para o novo ano; pensar√£o em tudo o que esperam e desejam que este ano lhes traga e depois pensar√£o no futuro. E o que eu queria era poder aconselh√°-los a n√£o pedirem nem a felicidade do amor, nem o sucesso, nem a riqueza ou ¬†a longa vida, nem sequer a sa√ļde. N√£o, que se limitem a juntar as m√£os e a concentrar as ideias num √ļnico pedido: ¬ęSenhor, fazei com que a minha alma alcance a maturidade antes de ser ceifada!¬Ľ

Selma Lagerlöf-O Cocheiro da Morte

20
Mar17

Dou a liberdade aos escravos e arranco os reis dos seus tronos

-Eu sou a força que tem poder sobre os filhos dos homens - responde o cocheiro, e a sua voz torna-se grave. -Vou incomodá-los, quer morem em casas altas ou em caves miseráveis. Dou a liberdade aos escravos e arranco os reis dos seus tronos. Não há fortaleza suficientemente poderosa para que eu não lhe possa escalar as muralhas. Não há ciência que consiga parar o meu caminho. Atinjo as pessoas que, em segurança, viviam felizes, e dou bens e heranças aos miseráveis que sofreram a pobreza.

Selma Lagerlöf-O Cocheiro da Morte

19
Mar17

Como se as l√°grimas a impedissem de cumprir um dever

Estão os dois profundamente tristes. A mulher chora em silêncio e às vezes limpa os olhos com um lenço amachucado. Tem gestos bruscos, como se as lágrimas a impedissem de cumprir um dever. Os olhos do homem estão também vermelhos de emoção, mas não se deixa levar pelo desgosto, porque não está só.

Selma Lagerlöf-O Cocheiro da Morte

19
Mar17

Os seus olhares não vêem o suficiente do outro mundo para descobrir o sentido da vida terrestre

Admito, David, que n√£o h√° tarefa mais horr√≠vel que a de conduzir esta carreta de casa em casa. Por toda a parte onde o cocheiro aparece, esperam-no l√°grimas e gemidos; por toda a parte √© a doen√ßa e a destrui√ß√£o, o sangue, as feridas, o terror. E h√° pior ainda: o pior √© o espect√°culo da alma que se debate no arrependimento e na ang√ļstia do que h√°-de vir.

O cocheiro permanece no limiar do além.

Como os homens, s√≥ v√™ injusti√ßas e decep√ß√Ķes, partilhas desiguais, trabalho in√ļtil e desordem.

Os seus olhares não vêem o suficiente do outro mundo para descobrir o sentido da vida terrestre.

Consegue, por vezes, entrever qualquer explica√ß√£o, mas a maior parte das vezes agita-se nas trevas e na d√ļvida.

Selma Lagerlöf-O Cocheiro da Morte

19
Mar17

Selma Lagerlöf| A amizade colorida com Sophie Elkan

J√° em 1942, a bi√≥grafa Elin W√§gner enfatizara a import√Ęncia da amizade com mulheres na vida de Lagerl√∂f. Finalmente publicada em 1990, a sua enorme colec√ß√£o de cartas particulares, entre as quais as cartas de Lagerl√∂f a Sophie Elkan, Du l√§r mig att bli fri (Ensinas-me a ser livre) contam uma hist√≥ria de amor que come√ßou em 1894 at√© √† morte de Elkan em 1921.

"√Čs muito bonita e sei que seremos amigas." - assim come√ßaram os seus 27 anos de relacionamento. Elkan, nascida Salomon, pertencia a uma proeminente fam√≠lia judaica de Gotemburgo e tinha perdido o seu marido e a filha, dez anos antes para a tuberculose.

Dominava várias línguas e era extremamente letrada. Elkan acompanhou Lagerlöf em viagens a Itália, Jerusalém e Egipto e Selma dedicou o seu romance Jerusalém (1901) à sua "companheira de vida e de cartas".

Elin Wägner escrevera em 1942 que "o contacto que Selma manteve com os homens foi nas suas obras-primas, na esfera da sua vida intelectual, enquanto que, com as mulheres, foi na sua vida real".

 

Resultado de imagem para sophie elkanSelma Lagerlöf & Sophie Elkan

Imagem elisa-rolle.livejournal.com

 

As duas amigas viajaram para Roma. A sua primeira grande viagem. Sophie de cabelos crespos, feminina, envolta em vestidos esvoaçantes, com olhos escuros, observando e comentando tudo. Selma, logo atrás de Sophie, com o seu rosto fresco e juvenil, vestida de forma desajeitada e com cabelo curto. Parecia haver uma forte disparidade visual entre as duas amantes, dois opostos atraídos um pelo outro outro.

As cartas que trocaram em vida sugerem um amor profundo, havendo lugar também à crítica, frequentemente em desacordo sobre a escrita uma da outra.

Tradução livre do inglês de artlark.org

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