Ontem, a Cinemateca Portuguesa convidou-me para falar de Jorge de Sena, na sessão de inauguração do ciclo de cinema comemorativo do centenário de Jorge de Sena.
Por ter sido eu, em 1987, o organizador de um livrinho, Jorge de Sena e o Cinema, que reunia os textos que o autor escreveu sobre filmes.
Este ciclo da Cinemateca cruza-se com outro ciclo, o da comemoração do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Sena e Sofia tinham uma electiva afinidade e trocaram uma correspondência brilhante, lindíssima, reunida num livro de que eu sou o editor.
É uma das mais belas correspondências da literatura portuguesa.
Gosto muito das outras correspondências de Sena que publiquei, com Gaspar Simões, Delfim Santos, Raul Leal e Eugénio de Andrade, mas há um lirismo, uma veemência, uma poética na Correspondência Sena-Sophia que, aposto, as letras portuguesas não voltarão a repetir.
Em 2019 não se celebra apenas o centenário do nascimento de Sophia, mas também o de Jorge de Sena.
Sena e Sophia nasceram quase no mesmo dia, em 2 e 6 Novembro de 1919, mas não seria apenas esta a única coincidência a uni-los numa profunda amizade.
Amizade essa que ficaria registada para a posteridade nas cartas que trocaram ao longo da vida e que, mais tarde, viria a ser cinematografada por Rita Azevedo.
A Cinemateca à guisa de celebração - e muito bem - destes dois grandes nomes da literatura irá exibir em Setembro mais de uma vintena de filmes para celebrá-los:
Este ano “a celebração do centenário do nascimento dos dois poetas não ficaria completa sem uma justa referência à atenção que Jorge de Sena e Sophia dedicaram ao cinema”, afirma a Cinemateca em comunicado.
Assim, em Setembro acolherá dois ciclos, com um total de 27 filmes, “assinalando a relação por eles mantida com o cinema internacional, e a sua presença, ou alguns dos seus ecos, no cinema português, cinema este que, aliás, em muitas das suas vertentes é carregado de um profundo poético”.
O primeiro é dedicado a Jorge de Sena que fez crítica de cinema, apresentou filmes e fez palestras sobre cinema. Segundo a Cinemateca, além do universo dos filmes sobre os quais Jorge de Sena escreveu, o ciclo inspira-se ainda numa lista de dez filmes que o escritor disse, em 1968, que levaria com ele para uma ilha deserta.
Segunda-feira [16.09] 18:00 | Sala M. Félix Ribeiro
O filme será exibido com a presença da realizadora. Inspirado nas cartas trocadas entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, durante os quase vinte anos de exílio deste último, a realizadora confessou que foi uma espécie de re-memória do meu início neste gosto pela poesia, por estes dois autores.
Sophia de Mello Breyner Andresen de João César Monteiro
Segunda-feira [16.09] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro Quando questionado sobre esta curta-metragem sobre a poetisa do mar, João César Monteiro declarou-a assim: no que ao meu filme diz respeito, suponho que, antes do mais, ele é a prova, para quem a quiser entender, que a poesia não é filmável e não adianta persegui-la.
No caminho passou em frente de um espelho e olhou-se
-Sophia de Mello Breyner Andresen-
Dos três objectos que já tinha mencionado anteriormente, o espelho é o impulsionador da História da Gata Borralheira.
No conto tradicional o espelho é praticamente inexistente, mas Sophia assimilou-o do conto da Branca de Neve, dando-lhe a soberania de resposta à eterna interrogação: Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
Sempre que Lúcia se depara com um espelho esse momento ganha sempre uma densidade irrespirável. O seu reflexo é-lhe intolerável, angustiante, ouso mesmo dizer, repugnante. O reflexo que o espelho lhe devolve é apenas a percepção dela própria que é completamente diferente da percepção que os outros têm dela:
- Não se veja nesse espelho. Faz muito má cara.
- A sua pele é linda e branca - atalhou a rapariga, e, ali, parece cinzenta. É melhor não olhar para lá.
O espelho reflecte a sua opinião, os seus pensamentos, as suas crenças. Sempre que se contempla nele, apenas vê um vestido feio, nunca a bela mulher que o veste.
Recuou em frente do seu reflexo. Procurou na sala um lugar onde se pudesse esconder da sua imagem. Sentou-se na cadeira que ficava à esquerda e sentou-se no sofá que ficava à direita. Mas em toda a parte o espelho a via.
História da Gata Borralheira - Sophia de Mello Breyner Andresen
É verdade que tem uma biblioteca pequena, que prefere ter poucos livros de que gosta e que relê, do que coisas que só servem para encher as estantes?
É verdade. Sou muito impaciente.
Mas rasga-os, deita-os fora?
Muitas vezes rasgo, muitas vezes perco. Há uma frase do Valéry que gosto: "Para gostar é preciso não gostar".
Não gosta muito dos nossos poetas, pois não?
Há muitos e às vezes há alguns muito bons. Mas acontece que para mim é mais fácil fixar um verso que um nome. É esquisito mas é verdade. Sabe, ou se é escritor ou se lê. Não se pode fazer tudo ao mesmo tempo. Eu leio mais de noite, na cama e aí leio de tudo. Não posso ler poesia, que me excita demasiado.
Entrevista de Sérgio Coimbra in jornal O Independente, Caderno Vid