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Livrologia

Livrologia

22
Nov20

Quatro palavras russas impossíveis de traduzir

russian-alphabet-7zd-prints.jpg

Em Portugal muito poucos traduzem directamente do russo para o portugu√™s. Na sua maioria traduzem para portug√™s as tradu√ß√Ķes feitas de russo para ingl√™s, para franc√™s ou at√© para alem√£o, ou seja, n√£o traduzem do original. Mas h√° uma bel√≠ssima excep√ß√£o, excep√ß√£o essa que muito admiro e sobre quem j√° escrevi: Nina Guerra e Filipe Guerra.

A Nina e o Filipe traduzem directamente do russo para o português e são muitos os desafios que enfrentam na tradução. Um dos trabalhos mais admiráveis é o da tradução, quando se persegue a impossibilidade de uma palavra ou a expressão perfeita que traga para a nossa língua toda a profundidade e beleza de uma literatura estrangeira.

E na imensidão desse desafio há sempre palavras que são impossíveis de traduzir. A língua portuguesa pode ter milhares de palavras à nossa disposição, mas podem não ser suficientes para desatar o mistério da língua russa. 

Corrijam-me nos comentários se encontrarem alguma imprecisão, mas passo a enumerar algumas palavras russas impossíveis de traduzir:

 

P√īshlost (–Ņ–ĺ—ą–Ľ–ĺ—Ā—ā—Ć)¬†

Aquele contentamento após uma compra que se transforma em mais do que alegria, numa espécie de nobreza, por se achar que a compra efectuada enobrece o comprador.

 

Nadr√≠v (–Ĺ–į–ī—Ä—č–≤)¬†

Há incontáveis artigos sobre esta palavra, talvez por ser um dos conceitos base da escrita de Dostoiévski. Descreve uma explosão emocional incontrolável, na qual surgem sentimentos íntimos e secretos. No entanto, Dostoiévski levou esta palavra mais além, descrevendo-a como um estado de quase ascese, quando alguém mergulha na sua própria alma procurando algo que talvez nem sequer exista. Esta palavra geralmente tem uma conotação de sentimentos intensos, mas imaginários e que descreve, em parte, Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski.

 

Tosk√° (—ā–ĺ—Ā–ļ–į)

Geralmente traduzida para o português como "saudade", a definição desta palavra é muito mais complexa e profunda.  Não é um mero "sentir falta de", mas também "dor emocional", "melancolia", um sofrimento espiritual sem razão. Creio que não haverá palavra traduzida no mundo inteiro que consiga condensar a dor de alma, a ansiedade e a nostalgia que a palavra toská transmite.

 

Biti√™ (–Ī—č—ā–ł–Ķ)

Traduzida geralmente como "existência" ou "ser", esta palavra não se resume à vida ou à mera existência, mas a uma realidade objectiva, externa, independente da consciência humana.

15
Nov20

Tudo em nome da pandemia, essa deusa que agora p√Ķe e disp√Ķe da nossa humanidade

library-2684238_1280.jpg

Fiz apenas duas visitas à biblioteca este ano e tudo por culpa da pandemia.

Uma em Junho e outra, mais recente, em Outubro.

Em Junho não me autorizaram a entrada. Fiquei à porta e entreguei uma lista dos livros que queria requisitar rabiscada em papel. Momentos depois entregaram-me os livros que pedi dentro de um saco de plástico transparente. Como se estivesse a pedir livros clandestinamente para ler, fugindo depois com eles debaixo do braço, pela calada do dia, esperando não ser vista pelas ruas vazias.

A ausência das estantes da biblioteca foi tão surreal e desconectada, que quando acabei de ler os livros que trouxera, devolvi-os e não voltei a requisitar mais.

Em Outubro voltei, deixaram-me entrar na biblioteca e finalmente senti o regresso daquela banalidade que tantas vezes repreendi e pela qual senti tanta saudade. Aquela banalidade do deambular pelas estantes, do tocar nos livros, espreitar-lhes as páginas.

Quis tocar num livro e em pleno gesto¬†declararam que estava proibida de lhe tocar. Tudo em nome da pandemia, essa deusa que agora p√Ķe e disp√Ķe da nossa humanidade.

A repreensão não vem já pela perturbação do silêncio, mas por tocarmos nos livros, o estranho e singular propósito da existência de uma biblioteca.

Apontei os livros que queria e trouxe-os comigo para casa. 

A biblioteca, com as suas estantes cheias de livros intoc√°veis, continua a ser surreal.

A banalidade, que tanto repreendi, ainda n√£o regressou e nunca a quis tanto.

08
Nov20

√Č imposs√≠vel ler literatura russa e n√£o ler o seu maior poeta

pushkin.jpg

Antes de decidir ler ou criar o meu ciclo de leitura de poesia russa já andava a ler Pushkin, porque é impossível ler literatura russa, seja ela em prosa ou em verso, e não ler o seu maior poeta.

Isto para dizer que no livro que estou a ler - The Penguin Book of Russian Poetry - estou a aproximar-me do capítulo dedicado a Pushkin.

Como já tinha lido alguns dos seus contos e poesia, descobri que ainda não tinha lido uma das suas obras emblemáticas A Filha do Capitão.

Redimi-me da falha e já está na minha estante digital. Far-me-á companhia nas próximas semanas de Outono, bem como a sua poesia.

01
Nov20

Uma obsess√£o incur√°vel, a de ler o primeiro livro de um autor

ha-uma-gota-de-sangue-em-cada-poema.jpg

Sofro de uma obsess√£o incur√°vel: a de ler o primeiro livro de um autor.

Não importa se figura da lista dos seus melhores livros, não importa se foi esquecido pelos anais da literatura. O primeiro livro escrito é a declaração de alguém como autor. Por isso persigo incansavelmente o primeiro livro escrito.

E na senda da minha obsessão - que alimento sem remorsos - descobri o primeiro livro de poemas de Mário de Andrade. Não foi uma descoberta fácil e por isso mais orgulhosamente a exibo na minha estante.

Escrito sob o impacto da I Guerra Mundial e sob o pseudónimo de Mário Sobral, no Há uma Gota de Sangue em Cada Poema não encontramos o poeta que hoje conhecemos e que tanta influência teve no Modernismo brasileiro.

Encontramos um poeta ainda influenciado pelas escolas literárias anteriores à Semana de Arte Moderna, com poemas que obedecem a certas normas estéticas, como a metrificação e a rima, sem a liberdade que viria a colocar nos seus poemas mais tardios.

Mas é o seu primeiro, o livro que o fez nascer, e é tudo o que (me) importa para a sua leitura.

25
Out20

Ler a biografia de um autor enquanto lemos os seus livros

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Ler a biografia de um autor não é essencial para compreendê-lo. Muitas vezes a biografia de nada serve para compreender a sua escrita, mas se quisermos conhecê-lo profundamente para além dos muros das suas palavras, nada melhor do que ler a sua biografia.

E preferencialmente enquanto estivermos a ler os seus livros. A experiência de leitura torna-se mais profunda e cativante. Vivemos em pleno não só a escrita do autor, mas também o ambiente e a era em que viveu. 

Comecei por experimentar este método de leitura com Somerset Maugham e continuei a fazê-lo com Sophia de Mello Breyner Andresen.

Tem sido uma experiência memorável, com a leitura a tornar-se tridimensional, com todos os cinco sentidos aplicados a cada palavra que leio.

Uma experiência que tenciono repetir, porque o melhor do mundo é ler assim.

18
Out20

Cl√°ssicos ou "livros velhos" como a minha m√£e lhes chama

classics.jpg

Passo a m√£o pelas lombadas que me observam, quase todas de cl√°ssicos.

"Livros velhos" como a minha m√£e lhes chama:

-Tantos livros novos para ler e trazes sempre o livro mais velho e mais rasgado para casa.

 

Páginas amarelecidas pelo tempo e por outros leitores: cantos dobrados,  marcas, palavras sublinhadas e às vezes pequenas notas que não apago.

O que é que um "livro velho" tem de tão especial que raramente um novo tem?

Tem algo que muito dificilmente se encontra nos contempor√Ęneos, salvo (muito) raras excep√ß√Ķes.

Genialidade. Humanidade. Novas perspectivas sobre o mundo. Intemporalidade. 

E é por tudo isto que amo e sempre irei amar os clássicos.

11
Out20

N√£o tem sido f√°cil encontrar literatura brasileira em Portugal

caminho_distancia_novo.jpg

Não tem sido fácil encontrar literatura brasileira em Portugal, especialmente os autores que quero ler. Os que encontrei são da Gosto de Ler da Penguin Random House Grupo Editorial, mas são muito poucos para o ciclo de leitura que pretendo fazer.

Felizmente, os brasileiros têm um excelente portefólio de ebooks disponíveis e, graças a eles, tenho lido excelente literatura brasileira que, de outro modo, nunca conseguiria ter acesso.

Como esta preciosidade -¬†O Caminho para a Dist√Ęncia -¬† o primeiro livro de poesia de Vinicius de Moraes, publicado em 1933,¬†enquanto ainda estudava na Faculdade de Direito do Catete, no¬†Rio de Janeiro.

Um livro que se junta à minha estante virtual e que irei ler, logo que acabe o ciclo de leitura de Cecília Meireles.

03
Out20

O maior dilema do leitor compulsivo: onde guardar (ainda mais) livros

Este instante da minha estante ser√° fotografado.

Ainda não será uma fotografia da minha estante (ou estantes), mas dos novos livros que se irão acomodar junto àqueles que já li e aos que desesperam pela minha leitura. Ainda não sei muito bem onde e como arrumá-los, algo que raramente me preocupa quando os compro, mas que rapidamente se torna no maior dilema do leitor compulsivo.

A verdade é que nem quero saber onde eles ficam, desde que estejam comigo.

E cá estão eles, a maioria de alfarrabistas, aos quais agradeço a paciência e o sorriso, pela minha eterna demanda:

IMG_20200922_134545.jpg@ Miss X

Irei escrever sobre eles, um a um.

Quando? N√£o sei.

2019 foi o ano que escolhi para ler Sophia de Mello Breyner
Visitem o mundo encantado de Sophia
Em 2021 irei ler Jorge de Sena
Preparem-se para dar a volta ao vosso mundo
Tudo o que escrevi para o Desafio de Escrita dos P√°ssaros est√° aqui!
Tudo o que escrevi para Os Desafios da Abelha est√° aqui!
Já começou a viagem pelo mundo da Gata Borralheira.
Cinema e literatura num só.
Venham também!
bookinices_spring.png
A imprensa comentada no final de cada mês na Operação Bookini
Espreitem as bookinices
A autora deste blog n√£o adopta o novo Acordo Ortogr√°fico.

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