Encontrei-o em Paris no Quartier Latin e encontrei-o nas pensões de Berlim e de Munique. Vive nos pequenos hotéis de Perugia e Assis. Encontrei-o às dezenas diante dos Botticellis em Florença e sentado em todos os bancos da Capela Sistina em Roma.
Em Itália abusava um pouco do vinho e na Alemanha abusa muito da cerveja. Admira sempre a coisa certa, seja lá ela o que for, e um dia destes vai escrever uma grande obra.
Pense bem nisto, há cento e quarenta e sete grandes obras em repouso no peito de cento e quarenta e sete grandes homens, e a tragédia é que nem uma só dessas cento e quarenta e sete grandes obras virá alguma vez a ser escrita.
E, no entanto, o mundo continua a girar.
Servidão Humana-W. Somerset Maugham
Jovem como era, não percebia que o sentimento de obrigação naqueles que recebem favores é muito menor do que naqueles que os fazem.
Servidão Humana-W. Somerset Maugham
Era fácil imaginá-lo, apaixonado pelas teorias da igualdade e dos direitos humanos, a debater, a discutir, a lutar atrás das barricadas em Paris, a fugir à frente da cavalaria austrÃaca em Milão, preso aqui, exilado ali, de esperança sempre intacta erguendo bem alta essa palavra que parecia mágica, a palavra Liberdade; até que, por fim, vergado pela fome e pela doença, velho e sem outro meio de manter o corpo e a alma unos senão as lições que conseguia dar a alunos pobres, veio parar a esta cidadezinha aprumada, subjugada por uma tirania pessoal maior do que qualquer outra na Europa.
Talvez a sua taciturnidade escondesse um desprezo pela raça humana, que abandonara os grandes sonhos da sua juventude e chafurdava agora numa indiferença indolente; ou talvez estes trinta anos de revolução lhe tivessem ensinado que os homens não estão preparados para a liberdade e pensasse que tinha passado a vida em busca de algo que não merecia ser encontrado.
Servidão Humana-W. Somerset Maugham
Mas uma das marcas de um grande escritor é proporcionar aos diversos leitores diversas interpretações.
Servidão Humana-W. Somerset Maugham
Sabe, há duas coisas boas na vida: a liberdade de pensamento e a liberdade de acção.
Em França temos liberdade de acção: podemos fazer o que quisermos e ninguém se importa, mas temos de pensar como todos os outros.
Na Alemanha devemos fazer o que todos os outros fazem, mas podemos pensar como quisermos.
Ambas são coisas muito boas.
Pessoalmente, prefiro a liberdade de pensamento.
Mas em Inglaterra não temos nem uma nem outra: ficamos manietados pelas convenções. Não podemos pensar como nos apetece, agir como nos apetece.
É por ser uma nação democrática.
Servidão Humana-W. Somerset Maugham
No meio literário diz-se que Servidão Humana terá sido a suprema obra-prima de Maugham, no entanto estou muito aquém de o confirmar. Muito longe ainda do âmago do livro para avaliar a sua suposta genialidade. As primeiras páginas pareceram-me autobiográficas, apesar do escritor o ter negado sempre, alegando que muito do que escreveu neste livro foi apenas baseado nas suas experiências de vida. Não me convenceu, aliás não há coincidências: Maugham ficou orfão muito cedo durante a sua meninice, vendo-se na contingência de ir viver com o seu tio em Whitstable, num ambiente absolutamente conservador e restritivo. As poucas diferenças que detectei entre este aspecto biográfico e este livro foi a mera mudança de nome do local para Blackstable, o que não deixa de ser irónico, atribuindo ao local a aura sombria e austera que sempre o repugnou. Outro pormenor que sempre atormentou Maugham e que dificultou a sua integração no ambiente escolar, foi a sua gaguez, que no livro transportou para a personagem atribuindo-lhe pé boto, incapacidade que viria a atormentá-lo durante toda a sua vida.
No que li até agora não há assim tanta ficção como Maugham nos quis fazer crer.